A Feira do Livro,

Homenagem, luta e canto indígena na abertura d’A Feira do Livro

Antropólogas, jornalistas e músico homenageiam povos da floresta e indigenistas e jornalistas assassinados

08jun2023 - 11h08 | Edição #70

Uma homenagem a Bruno Araújo Pereira e a Dom Phillips, assassinados no vale do Javari em 2022; e também uma homenagem aos povos da floresta e ao povo dos livros, à liberdade de imprensa, ao espírito republicano. Assim foi a abertura d’A Feira do Livro. A mesa O espírito da floresta, que reuniu as antropólogas Manuela Carneiro da Cunha e Hanna Limulja, o jornalista Tom Phillps, amigo e colega de trabalho de Dom, e o músico e jornalista Xavier Bartaburu.

O líder e xamã Davi Kopenawa Yanomami, que participaria da mesa, cancelou sua participação devido à morte de sua ex-nora, Angelita Prororita Yanomami. Também ela foi homenageada, assim como a editora e tradutora Heloisa Jahn, morta no ano passado.

Mas a mesa falou dos vivos, e da luta que sobreviveu e continua depois da morte do indigenista Bruno e do jornalista Dom. E prestou mais uma homenagem a uma presença ilustre na plateia: a fotógrafa Claudia Andujar, muito conhecida por seu trabalho para divulgar e proteger o povo yanomani. O público honrou a presença da fotógrafa, que foi aplaudida de pé.

A mesa aconteceu neste momento que a questão do marco temporal está sendo votada, e o tema permeou a conversa. A questão foi analisada pela antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, que foi uma das intelectuais cujo trabalho embasou os textos sobre a situação das terras indígenas na Constituinte de 1988.

“O marco temporal foi uma ideia esdrúxula, uma tese inventada dizendo que só aqueles que estivessem em suas terras em 5 de outubro de 1988 é que teriam direito à posse dessa terra. Depois se fez um remendo muito mal feito, mas a coisa se arrasta e vai continuar”, disse Carneiro da Cunha, acrescentando que nenhum povo expulso pela força perde o direito a seu território.

Apesar da situação ainda crítica para os povos indígenas e a lembrança do assassinato dos defensores de seus direitos Bruno e Dom, os participantes da mesa afirmaram que têm uma visão otimista em relação à questão. Limulja, que está trabalhando em Roraima, contou que foram criadas várias frentes de trabalho para ajudar os povos originários da região. “Uma rede de pesquisadores se uniu durante a pandemia. E os indígenas estão acostumados a pandemias, já passaram por várias, levaram de uma maneira melhor do que a gente imaginaria.”

O livro de Kopenawa, A queda do céu, foi lembrado. Para Carneiro da Cunha, é um divisor de águas não só na antropologia, mas na sociedade em geral: “Surge um filósofo, o Davi, que nos mostra um mundo que a gente não conhecia”.

Limulja, que contou considerar A queda do céu quase um I Ching (“Sempre abro e encontro alguma resposta nova”), falou também do novo livro de Kopenawa e Bruce Albert, que, como a mesa d’A Feira do Livro, chama-se O espírito da floresta. “São ensaios curtos, como se fosse uma conversa entre Davi e Bruce, e é um discurso de apaziguamento, para acabar com a guerra.”

Tom Phillips também disse ser otimista, apesar de toda a tragédia do assassinato de seu amigo, e de outros, e da situação que vê em suas viagens de trabalho para terras indígenas. “Uma das coisas bonitas deste último ano tem sido ver como todos os amigos de Bruno e Dom, e muitas outras pessoas, compartilham as homenagens e continuam a protestar”.

Ele aproveitou para divulgar uma campanha de financiamento coletivo para a família de Dom publicar o livro póstumo do jornalista, Como salvar a Amazônia, e convidou o público a contribuir no site da campanha: https://www.gofundme.com/f/complete-how-to-save-the-amazon-by-dom-phillips.

No encerramento do mesa, o músico e jornalista Xavier Bartaburu convidou o público a cantar a música indígena que ficou conhecida quando estavam sendo feitas as buscas por Bruno e Dom. Na época, circulou um vídeo de 2019, em que Bruno canta uma canção indígena usada em rituais de cura. A canção imita o som da arara mãe chamando os filhos para comer. “Wahanararai/Marinawawa”, cantou o público, acompanhando o famoso vídeo de Dom.

Como diz a saudação indígena lembrada por Limulja. “Quando se encontram, um pergunta: ‘você ainda está vivo’; o outro bate no peito e responde: ‘estou muito vivo’. Nós também estamos vivos. Por isso precisamos nos informar e protestar contra o marco temporal. Isso diz respeito a todos nós, não só aos povos indígenas”.

A Feira do Livro acontece de 7 a 11 de junho na praça Charles Miller, no Pacaembu, em São Paulo.

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, , editora da Quatro Cinco Um, está lançando Tantra e a arte de cortar cebolas (34)

Matéria publicada na edição impressa #70 em maio de 2023.