A Feira do Livro,

Encontro marcado

A Feira do Livro 2023 reúne dezenas de autores, cerca de 130 editoras, livrarias e instituições na praça Charles Miller, em São Paulo, de 7 a 11 de junho

19abr2023 - 12h06 | Edição #69

Depois de uma primeira edição bem-sucedida — realizada em junho de 2022, ainda sob o impacto da pandemia de Covid-19 e do sufocamento das políticas públicas para a cultura —, A Feira do Livro deste ano arma suas tendas em São Paulo em condições de temperatura e pressão bem mais favoráveis. Colher frutos, afinal de contas, é uma expressão que também pode ser usada quando vamos à feira.

Organizada pela Associação Quatro Cinco Um e pela Maré Produções, o evento combina os formatos de feira de livros de rua com festival literário. Sob o céu de inverno, cerca de 130 expositores — editoras, livrarias e instituições socioculturais — e dezenas de autores nacionais e internacionais vão se reunir com os leitores em debates gratuitos na praça Charles Miller, em frente ao estádio do Pacaembu, em São Paulo, entre 7 e 11 de junho.

“A Feira é uma aposta coletiva de todos os editores, os livreiros e as instituições comprometidas com o livro e a leitura”, diz o editor Paulo Werneck, que organiza o evento ao lado do arquiteto Álvaro Razuk. “Quisemos dar um novo evento para a cidade, uma feira de livros de rua, a céu aberto, num espaço normalmente destinado a carros.”

A edição de 2022 mostrou que o evento veio para ficar. O conceito de feira aberta e sem estruturas grandiosas permanece, para que a escala e valores como a bibliodiversidade e o acesso livre não se perdessem.

A missão institucional da Quatro Cinco Um é espalhar o livro na sociedade inteira

“A gente quer muito que seja o segundo de muitos anos, que a Feira se consolide como uma agenda de inverno. Até para podermos nos preparar para lançar mais livros durante o evento”, diz Rejane Dias dos Santos, diretora executiva do grupo Autêntica, sediado em Minas Gerais.

Segundo Werneck, a Feira pega todo o arco do mercado editorial nacional, com a presença de editoras periféricas, quilombolas, infantojuvenis e independentes ao lado de grupos editoriais multinacionais. “A Feira reflete o bom momento das livrarias e editoras no país, apesar das crises sucessivas e intermináveis. Editores e livreiros são um tipo muito peculiar de empreendedor, a gente não desiste nunca.”

A Feira do livro reflete as estratégias “de guerrilha” adotadas por editores independentes para atravessar a recuperação judicial das grandes livrarias, a concentração global do mercado editorial e as condições adversas para o meio cultural nos últimos anos.

Além dos expositores e da curadoria de autores, que vem sendo divulgada na imprensa e nas redes sociais, um elemento essencial da Feira do Livro é a arquitetura. Aos pés da fachada histórica do Pacaembu, talvez o mais belo estádio brasileiro da atualidade, a Feira é projetada pelo arquiteto Álvaro Razuk, especializado em exposições e feiras de arte e diretor da Maré.

O local escolhido é uma das razões do sucesso da feira, segundo Razuk. “É um lugar onde as pessoas se sentem acolhidas. O que a gente chama de ‘recinto arquitetônico’ é constituído por dois taludes laterais e a fachada do Pacaembu. Dá uma sensação de bem-estar, proteção, e as pessoas conseguem se organizar naquele espaço”, diz ele. 

Ousadia

“É uma ousadia, no melhor sentido, fazer uma feira ao ar livre, porque não é fácil. Em compensação, é a chance de ter um modelo de feira literária diferente, mais charmoso”, afirma Rejane Dias dos Santos.

O projeto tira proveito da inteligência da implantação do estádio e da praça, que se estruturam a partir do relevo do vale. A rotatória organiza a distribuição das tendas, em grupos de seis e de forma radial, fazendo com que qualquer tenda ou esteja voltada para a praça ou para uma rua contígua à rotatória. “Quem circula pode olhar o que está acontecendo em cada tenda. A gente construiu uma espécie de cidadela, um passeio público para a literatura”, diz Razuk.

“Ocupar o espaço público com belos livros e uma grande diversidade é tão lindo de ver — além de ser um ótimo sinal de que temos toda a potência para caminharmos em direção a um modelo mais justo de sociedade. Um ambiente agradável, com bastante espaço ao ar livre, e que é muito confortável para as famílias e visitantes passearem com tranquilidade, deixando clara a riqueza que é a produção editorial brasileira contemporânea”, afirma Kin Guerra, responsável pela área de comunicação e marketing da editora Solisluna, da Bahia.

Autores convidados

Durante a feira, autores brasileiros e estrangeiros participaram de mesas, debates e conversas com o público. Entre os nomes confirmados estão o escritor Itamar Vieira Junior, autor de Torto arado e Salvar o fogo (Todavia); o crítico e tradutor estadunidense-português Richard Zenith, especialista em Fernando Pessoa e autor de Pessoa: uma biografia (Companhia das Letras); o poeta e professor estadunidense Jericho Brown, que lança no Brasil A tradição (prêmio Pulitzer de poesia em 2020) pelo selo Círculo de Poemas (Luna Parque/Fósforo); a acadêmica estadunidense Patricia Hills Collins, primeira mulher negra a presidir a Associação Americana de Sociologia e autora de Bem mais que ideias: a interseccionalidade como teoria social crítica e Pensamento feminista negro (Boitempo); Ana Maria Gonçalves, autora de Um defeito de cor (Record); Luiz Antonio Simas, autor de O corpo encantado das ruas (Civilização Brasileira); a francesa Fatima Daas, autora de A última filha (Bazar do Tempo); a chefe de cozinha e ativista Bela Gil, que está lançando Quem vai fazer essa comida? (Elefante); os líderes indígenas Davi Kopenawa e Txai Suruí; o jornalista Conrado Corsalette, que lança Uma crise chamada Brasil (Fósforo); o escritor e antropólogo Pedro Cesarino, autor de A repetição (Todavia); o escritor Samir Machado de Machado, autor de O crime do bom nazista (Todavia); e o escritor Milton Hatoum, autor de Dois irmãos, Cinzas do norte e Pontos de fuga (Companhia das Letras). 

A Feira do Livro também procura trazer para o espaço físico a experiência que o leitor da Quatro Cinco Um tem todos os meses. Assim, colunistas da revista dos livros participam de mesas relacionadas a temas de suas editorias: As cidades e As Coisas, de Bianca Tavolari; Desigualdades, de Pedro H. G. Ferreira de Souza; Perspectiva Amefricana, de Juliana Borges; Crítica Cultural, de Paulo Roberto Pires; e Laut (Liberdade e Autoritarismo) — por sinal, durante a feira, pesquisadores do Laut lançam O caminho da autocracia, um estudo comparativo entre países onde houve ascensão da extrema direita, publicado pela Tinta-da-China Brasil, selo editorial da Associação Quatro Cinco Um

A programação de mesas e debates é montada a partir de núcleos temáticos e será divulgada em maio nas redes sociais d’A Feira do Livro (@afeiradolivro). A Amazônia será um dos temas, com debates com autores dessa e de outras regiões do Brasil que escrevem sobre esse espaço geográfico, político e cultural em disputa.

Outro núcleo é o da literatura LGBTQIA+, editoria que estreia um espaço fixo na revista em junho, com uma programação preparada pelo editor da seção, Renan Quinalha. Futebol e cultura é outro tema apresentado n’A Feira do Livro, em uma parceria com o Museu do Futebol.

O local escolhido para A Feira do Livro é um espaço onde as pessoas se sentem acolhidas

Em 2023, é maior a participação de livrarias entre os expositores. A Livraria da Vila, uma das líderes do mercado, estará presente, assim com a Eiffel, especializada em arquitetura, e a Monstra, com sua literatura geek e mangás. Também estarão na Feira a Dois Pontos, a Martins Fontes Paulista, a Paisagem, a Loyola, a Megafauna e a Livraria da Travessa.

Além de mesas com autores e tendas com livros, A Feira do Livro trará workshops e outras atividades ligadas a livros e leitura, com uma programação especial focada nas crianças. A escritora Ruth Rocha terá uma tenda própria com seus livros.

O festival começa na quarta à noite e funciona das 10h às 21h de quinta a domingo. O evento contará também com praça de alimentação, além de um espaço central onde quem estiver visitando poderá curtir a feira e o feriado ao ar livre na capital paulista.

A Feira do Livro do ano passado foi feita sem patrocínio. Agora, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, recebe patrocínio do Itaú e da Suzano e apoio da Dois Pontos, da Embaixada da França no Brasil e da Nescafé. “É difícil fazer sem patrocínio, como foi no ano passado, mas a gente vai fazer a feira sempre, essa é a missão institucional da Associação Quatro Cinco Um: espalhar o livro na sociedade inteira”, diz Werneck.

A Associação Vaga Lume, o Instituto Camões, o Instituto Socioambiental, o Museu do Futebol e o Governo de São Paulo entram também como parceiros da feira, que tem ainda parceria de mídia com a Folha de S.Paulo, a tv Cultura e a piauí.

Primeira edição

Em 2022, a primeira edição reuniu mais de uma centena editoras e livrarias na praça em frente ao estádio do Pacaembu. A programação, que começou com um slam comandado por Roberta Estrela D’Alva, contou com autores como Mia Couto, Djamila Ribeiro, Ailton Krenak, Carla Madeira, Maria Dueñas, Bill François, Yara Monteiro, Drauzio Varella, Sidarta Ribeiro, Hanna Limulja, Renato Noguera e Letrux, entre outros.

“Uma feira de livros a céu aberto e num lugar tão charmoso quanto o Pacaembu era o evento que faltava em São Paulo, e foi só por isso que consegui ir com minhas filhas, na época com oito anos, cada uma com interesses diferentes, mas as duas com muita prática de frequentar praças e parques”, conta a jornalista Teté Ribeiro.

Em 2022, o advogado aposentado Rodolfo Ferreira, 96, veio à Feira de cadeira de rodas, acompanhado de seu genro Luís e de sua cuidadora Natiele: “Marcamos de vir no primeiro dia, às 8h. Só ao chegar percebemos que a abertura seria às 15h”. Apaixonado por literatura, Ferreira comprou quinze livros: “Pensei que iria chover, mas pegamos um tempo bom, saiu o sol. Fiquei muito feliz de ir à Feira. Só estou triste por não ter comprado mais uns dois ou três livros”.

O público foi a pé, de carona, de bicicleta, de ônibus — interestaduais em alguns casos, como o das irmãs cariocas Ivonete Sugahara e Norma Fontella, que saíram à meia-noite do Rio para chegar a São Paulo na manhã do dia de abertura da primeira edição. “O que fez a gente vir? Minha irmã é professora de literatura e eu sou uma bióloga apaixonada por livros. Não poderíamos deixar de vir”, contou Ivonete. 

Já o professor paulistano Zeca Soares veio de bike — e recomenda o transporte para o público da feira que mora na cidade. Soares é frequentador assíduo de feiras literárias, mas disse nunca ter visto uma em um espaço como a praça Charles Miller: “Aqui tenho o arejamento necessário para pensar”.

Para Kin Guerra, da editora Solisluna, as expectativas para a próxima edição são as melhores: “Dos encontros e dos reencontros, de inspirações, reflexões, e também de vendas — afinal, pode parecer óbvio, mas as editoras precisam vender para manter as suas operações e ter fôlego para publicar mais livros”, diz ele, que, por trabalhar em uma casa editorial da Bahia, sabe como é difícil para editoras de regiões fora do eixo Rio-São Paulo estarem presentes em eventos como esse.

“Mas acredito que o horizonte é bastante positivo, porque existe um olhar atento e acolhedor para a bibliodiversidade e a produção editorial de qualidade”, conclui Guerra.

Matéria publicada na edição impressa #69 em abril de 2023.