Diferentes perspectivas sobre a política marcaram o sábado n’A Feira do Livro

A Feira do Livro,

Diferentes perspectivas sobre a política marcaram o sábado n’A Feira do Livro

Conversas entre autores passaram por legado da escravidão, racismo, produções periféricas, violência, autoritarismo e direitos LGBTQIA+

07jul2024 - 14h41 • 10jul2024 - 11h04
(Filipe Redondo)

A política, sob diferentes perspectivas, foi o tema que marcou grande parte das mesas deste sábado (6), penúltimo dia d’A Feira do Livro 2024. Modos de lidar com o racismo por meio da escrita, produções periféricas, violência, autoritarismo e direitos LGBTQIA+ foram alguns dos temas da programação, que terminou com um palco lotado relembrando os sessenta anos do golpe.

Em alta no debate, formas de racismo e modos de atuação antirracista foram o tópico de três conversas, incluindo uma das mesas mais disputadas do dia, “Narrativas antirracistas”, que reuniu ​​o historiador estadunidense Henry Louis Gates Jr. e a escritora Jamaica Kincaid, nascida em Antígua e Barbuda e radicada nos Estados Unidos.

Juliana Borges, Henry Louis Gates Jr. e Jamaica Kincaid (Filipe Redondo)

Os convidados eram estrangeiros, mas um dos temas do papo certamente reverberou muito no público brasileiro: a negritude — e a negação dela — em nosso país. O “puxão de orelha” veio sobretudo de Gates, que lembrou que o Brasil recebeu mais de 5 milhões de africanos escravizados. 

“Mas acho que o hotel onde eu e Jamaica estamos hospedados não recebeu essa informação. As únicas pessoas pretas hospedadas lá somos nós dois. Quando voce é turista no Brasil, vai a restaurantes, passeia, onde estão os negros deste país? Onde estão os negros aqui nesta plateia? O Brasil tem sido um país que nega sua negritude”, apontou. “O Brasil tem na sua própria história a autonegação de sua diversidade. Em vez de celebrar essa diversidade, ela é colocada debaixo do tapete.”

A conversa também passou por literatura e por como o antirracismo pode ser exercido através dela, mas de forma sutil. “Eu sempre achei que escrever especificamente sobre o impacto do imperialismo britânico em pessoas como eu era algo que eu podia fazer livremente. Nunca me considerei escritora porque estava apenas recontando da melhor maneira o que sabia que tinha acontecido. E eu não pensava em nós como escravos, nós éramos britânicos”, disse Kincaid, que contou que, na maior parte de sua vida, não enxergou o racismo porque apenas “achava que as pessoas eram mal-educadas”.

O papel da literatura e da ficção ao contar histórias de pessoas negras escravizadas também foi tema da mesa seguinte no Palco da Praça, “Reescrita da escravidão”, com outro estadunidense, Jabari Asim. Para ele, narrativas de pessoas que viveram sob regime de escravidão precisam de autores negros que as escrevam, caso contrário, correm o risco de se tornarem mais uma versão imprecisa contada do ponto de vista dos captores. 

Jabari Asim (Matias Maxx)

“Quando a gente pensa nas milhares de pessoas que morreram nas viagens transatlânticas, que se afogaram para não serem escravizadas, as que foram jogadas dos navios, temos a obrigação de contar cada uma dessas histórias”, disse ele. “São histórias muito valiosas para escritores de ficção como eu”, completou o escritor, que é autor de Em algum lugar lá fora (Instante, trad. Rorgério W. Galindo). No romance, Asim conta a história de uma comunidade de pessoas escravizadas que resistem à falsa crença de que são incapazes de amar. 

A abordagem nacional sobre o tema veio na mesa “Perspectiva amefricana”, em que o ator e dramaturgo Clayton Nascimento contou sobre como um caso de racismo massivo e sem pudor em um estádio de futebol, televisionado para todo o país, inspirou seu premiado monólogo Macacos, que estreou em 2016 e teve a dramaturgia publicada em um livro homônimo pela Cobogó em 2022.

“Liguei a televisão e vi um estádio inteiro xingando um jogador de futebol aqui no Brasil. As pessoas tinham um ímpeto e uma coragem social tão forte que, mesmo sendo filmadas, continuavam com as agressões”, contou Nascimento sobre o episódio envolvendo o ex-goleiro Mário Lúcio Duarte Costa, o Aranha, em 2014, que o motivou a escrever.

Juliana Borges e Clayton Nascimento (Matias Maxx)

“Pensei que só podiam ser forças históricas que permitiam aquilo”, disse. “Às vezes precisamos ir ao pior do lodo e ressignificá-lo. Algumas pessoas dizem que é muito bruto o título da peça. Respondo que bruto é usar esse nome para xingar pessoas negras.”

Narrativas periféricas

Narrativas que estão nas margens, mas por condições sociais e territoriais, também marcaram presença n’A Feira do Livro neste sábado. Com nove livros publicados — entre eles Flores da batalha (2023), Pensamentos vadios (1994) e A poesia dos deuses inferiores (2005) — o poeta Sérgio Vaz contou na mesa “Flores da batalha” que era considerado “esquisito” durante a juventude em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, nos anos 1970, porque gostava de ler.

Sérgio Vaz (Filipe Redondo)

“Eu queria ser jogador de futebol e tinha vergonha de gostar de ler. Naquela época, sem ter muita noção, achava poesia coisa de gente fresca. Eu curtia mesmo eram os bailes black no centro de São Paulo. Mas, incentivado pelo meu pai, que sempre comprou livros usados, perdi a vergonha”, disse Vaz, que é hoje um dos expoentes da cena literária paulistana.

“A poesia é o que alimenta a nossa liberdade e faz a gente compreender os caminhos que queremos seguir. A poesia é o papo reto que faz curva. É tudo o que minha humanidade transmitiu ao mundo”, afirmou.

Representante de uma nova geração paulistana, a romancista, cronista e contista Lilia Guerra falou sobre a experiência de escrever a partir da periferia na mesa “Vidas pelas margens”, transmitida ao vivo no fim da manhã no Clube do Livro Eldorado, da Rádio Eldorado FM. 

Roberta Martinelli e Lilia Guerra (Filipe Redondo)

Seu primeiro romance, O céu para os bastardos, publicado no final de 2023 pela Todavia, é ambientado em um bairro periférico chamado Fim do Mundo, e destaca as histórias das mulheres. Abandono masculino, feminicídio, fragmentação, memória e a desconstrução de uma série de silêncios são parte de sua ficção, mas também são reinvenções de acontecimentos do cotidiano. “Queria escrever as histórias do pessoal lá de casa, lá da rua, quase como uma biógrafa”, disse Guerra.

Ela contou que muitas de suas personagens herdaram características de mulheres que realmente conheceu. “Não vejo problema algum em colocá-las ou emprestar trejeitos delas às minhas criações. Considero uma maneira de homenagear essas vivências.” 

Contar para não esquecer

No ano que marca os sessenta anos do golpe cívico-militar no Brasil, A Feira do Livro ressaltou a importância de preservar a memória do país. Juntos no Palco da Praça, na noite de sábado (6), Luiz Felipe Alencastro e Marcelo Rubens Paiva, deram seu testemunho sobre as perseguições, censura e assassinatos cometidos pelos agentes da repressão, para não esquecermos de repetir “Ditadura nunca mais”, nome da mesa que recebeu os escritores, mediada pela jornalista Patricia Campos Mello.

Luiz Felipe Alencastro, Patricia Campos Mello e Marcelo Rubens Paiva (Filipe Redondo)

Alencastro, historiador e cientista político, lança pela Tinta-da-China Brasil (selo editorial da Associação Quatro Cinco Um) Despotismo tropical: a ditadura e redemocratização nas crônicas de Julia Juruna, coletânea de artigos que retomam os acontecimentos-chave da abertura política e do processo de redemocratização. Rubens Paiva, autor do best-seller Feliz ano velho, de 1982, publicou pela Companhia das Letras, entre outros, Do começo ao fim (2022) e Ainda estou aqui (2015). Para uma plateia cheíssima e muitos no gramado assistindo pelo telão, os dois contaram como seus livros foram uma forma de registrar o que acontecia no país driblando a censura, no caso de Alencastro, e sobre o impacto pessoal do horror, no caso de Paiva, que viu seu pai ser preso e assassinado quando tinha 11 anos. 

Homenagear vivências, mas em outro sentido, também foi a motivação da argentina Camila Fabbri, convidada da mesa “O dia em que apagaram a luz”, que falou à plateia sobre seu livro homônimo com mediação da jornalista Anna Virginia Balloussier. A obra narra, de um ponto de vista íntimo, o incêndio durante um show de rock em uma boate em Buenos Aires, em 2004, que matou 194 pessoas, incluindo amigos da autora.

Anna Virginia Balloussier e Camila Fabbri (Filipe Redondo)

Fabbri, que tinha quinze anos à época e foi ao mesmo show na véspera da tragédia, lembrou que o incêndio marcou sua geração — “teve consequências diretas e indiretas infinitas” —, mas que também foi algo que estava inserido num contexto social e político mais amplo muito específico, poucos anos depois da grande crise econômica e política que a Argentina enfrentou em 2001.

“Não havia ninguém cuidando dos jovens, [Buenos Aires] era uma cidade abandonada pelo Estado. E isso é muito parecido com o que está acontecendo agora. Quando o Estado desaparece e há uma crise muito grande, acontecem essas coisas”, comparou, referindo-se ao atual governo do presidente de extrema direita Javier Milei e a mais uma crise econômica e social pela qual seu país passa.

Violência

Numa conversa sobre as relações cada vez mais intrincadas entre a política, a religião e o crime no Brasil de hoje, o pesquisador e jornalista paulistano Bruno Paes Manso e o escritor brasiliense Dan se encontraram na mesa “Faroeste caboclo”, mediada pelo editor da Quatro Cinco Um Amauri Arrais. Os autores apontaram que a violência — praticada de forma ampla tanto por criminosos quanto por setores da polícia — tem no país propósitos racionais.

Paes Manso, que publicou A república das milícias: dos esquadrões da morte à era Bolsonaro (2020) e A fé e o fuzil: crime e religião no Brasil do século 21 (2023), ambos pela Todavia, contou que percebeu isso ao observar que matadores e traficantes, por exemplo, possuem motivações bastante “humanas”, como a necessidade de dinheiro, vencer disputas de poder ou lidar com uma sociedade orientada por regras de mercado. “Eles não são animais. Não é loucura, há racionalidade”, diagnosticou. 

“O PCC desconstruiu a ideia do crime como atividade ilegal”, disse sobre a facção criminosa, apotando que ela construiu uma “solução” possível numa sociedade onde tudo gira em torno do poder financeiro.

Amauri Arrais, Brunno Paes Mans e Dan (Matias Maxx)

Para Dan, que estreou no romance ano passado com Vale o que tá escrito (DBA), um faroeste urbano no qual a trajetória de um miliciano se confunde com a construção de Brasília e tudo na capital tem a marca da violência, um bom exemplo da relação intrínseca entre brutalidade e dinheiro são as gratificações pagas a policiais no Rio de Janeiro pelos chamados “autos de resistência” — o assassinato de um suspeito sob alegação de legítima defesa e resistência à prisão. “Não há violência grátis no Brasil. Isso se transforma em dinheiro. O homem econômico também sabe matar”, disse Dan. 

Uma violência de outra ordem, mais ligada a uma ideia de fim do mundo, apareceu na mesa “Entre bois e mosquitos”, que reuniu os escritores Michel Nieva e Joca Reiners Terron. O argentino Nieva lançou este ano no Brasil seu Dengue boy: a infância do mundo (Record), saga de uma criatura mutante no mundo pós-colapso climático. Além de tradutor do livro de seu parceiro de mesa, Terron é autor, entre outros, de Onde pastam os minotauros (Todavia, 2023), trama passada em um matadouro de bois no interior do Mato Grosso que acaba de ganhar o prêmio APCA de melhor romance.

Michel Nieva e Joca Reiners Terron (Matias Maxx)

Nieva contou que seu romance foi marcado pela pandemia. Residente de Nova York, ele via a cidade vazia e a bolsa de valores de Wall Street funcionando. “No meu romance, o capitalismo segue funcionando quando o mundo não existe mais”, contou.

Terron, que também trata do fim do mundo em seus livros, mas prefere entendê-lo como o começo de um novo mundo, afirmou que fica chateado quando chamam seus livros de distopia. “A Netflix lança toda segunda-feira uma distopia de péssima qualidade para explorar a catástrofe atual, virou só mercado”, disse.

Direitos e luto

A evolução dos direitos LGBTQIA+ e o luto pela perda de figuras paternas também foram temas que passaram pel’A Feira do Livro no sábado. 

Na mesa “Livros e Livres”, o escritor e historiador norte-americano James Green, autor de Escritos de um viado vermelho: política, sexualidade e solidariedade (Editora Unesp), e o pesquisador, professor de direito e colunista da Quatro Cinco Um Renan Quinalha, que acaba de lançar Direitos LGBTI+ no Brasil: novos rumos da proteção jurídica (Edições Sesc), passaram pelo pioneirismo do movimento nos anos 1970, a epidemia de aids entre os anos 1980 e 1990 e as conquistas do século 21.

Helena Vieira, Renan Quinalha e James Green (Filipe Redondo)

Na mesa “Em busca do pai”, por sua vez, a poeta Julia de Souza e o ensaísta José Henrique Bortoluci conversaram com o editor da revista Serrote e colunista da Quatro Cinco Um Paulo Roberto Pires sobre como escrever sobre familiares que enfrentaram doenças antes de morrer permite reavaliar a própria vida.

Paulo Roberto Pires, Julia de Souza e José Henrique Bortoluci (Matias Maxx)

Segundo Souza, a escrita do livro John (Âyiné) a ajudou a se aproximar do pai, que teve demência antes de morrer, uma sensação que Bortoluci também experimentou ao escrever O que é meu (Fósforo, 2023), que entrelaça a história de seu pai, caminhoneiro por cinco décadas, à construção da ideia de progresso no Brasil do regime militar. “Falar dos que se foram é uma forma de reconstruir nossa relação com a vida”, definiu Bortoluci, ressaltando que, ao contar histórias íntimas de pessoas próximas, devemos ter em mente que essas histórias não são só nossas.

Domingo tem mais

No domingo (7) acontece o último dia d’A Feira do Livro, encerrando uma intensa — e extensa — programação composta por grandes autores nacionais e internacionais. 

O nono e último dia do festival traz à praça Charles Miller a psicanalista Vera Iaconelli, o documentarista João Moreira Salles, a psicóloga Geni Núñez, os escritores Maria Adelaide de Amaral, Ivan Angelo e Silvana Tavano e a jornalista e tradutora Rosa Freire d’Aguiar para falar sobre afetos, ditaduras, guerras e literatura.

A Feira do Livro 2024

29 jun.—7 jul.
Praça Charles Miller, Pacaembu

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, e da Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais. O patrocínio é do Grupo CCR, do Itaú Unibanco e Rede, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, da TV Brasil e da Rádio Nacional de São Paulo.