A Feira do Livro,

Comer, beber, lutar

Bela Gil e Néli Pereira defendem valor do trabalho doméstico e dos saberes tradicionais na alimentação

08jun2023 - 06h30 | Edição #70

Cozinhar não é serviço, é um modo de amar os outros, escreveu Mia Couto. É também um ato político, de resgate de direitos e saberes. É o que fazem Bela Gil, chef de cozinha, comunicadora e ativista, e Néli Pereira, jornalista, mixologista e pesquisadora, nos livros que ambas escreveram — e sobre os quais conversaram no segundo dia d’A Feira do Livro, quinta, 8.

No desjejum da manhã ensolarada, o menu foi a conversa, mediada pela cozinheira e escritora Clarice Reichstul sobre suas pesquisas e obras: Quem vai fazer essa comida? Mulheres, trabalho doméstico e alimentação saudável (Elefante), de Bela Gil, e Da botica ao boteco: plantas, garrafadas e a coquetelaria brasileira (Companhia de Mesa), de Néli Pereira.

Para um público faminto — algumas pessoas na plateia mal conseguiram esperar a sessão de perguntas do público ao final da mesa e vocalizaram suas questões durante as falas —, as autoras falaram de suas pesquisas e ideias.

A importância do cozinhar não é só afetiva ou prática, mas também social e econômica. Esse é o ponto que levou Bela Gil a pesquisar o trabalho doméstico não remunerado em sua tese de mestrado. “Tento desromantizar essa questão [de fazer a comida] e entender como dar às pessoas a possibilidade de cozinhar. Descobri que era uma questão de tempo e caí em uma coisa feminista”, disse Bela, que lembrou que o trabalho braçal e mental de fornecer alimentação é feito especialmente pelas mulheres.

A presença de vários homens na plateia animou Bela: “Nas palestras que dou, a plateia é majoritariamente de mulheres, mas aqui o público está bem dividido. Fico feliz, porque [os homens] vão chegar em casa e mudar seu comportamento”.

Conhecida por seu ativismo pela alimentação saudável, Bela conta ter chegado à conclusão de que, para todos terem acesso à comida “de verdade” (a boa comida), é preciso reconhecer, valorizar e remunerar adequadamente o trabalho doméstico. “Não é uma brisa, esse trabalho representa 13% do PIB mundial. Estou só reivindicando remuneração justa”, disse a chef e comunicadora, que se inspirou em autoras como a filósafa e feminista italiana Silvia Federici para escrever o seu livro.

Resgate de saberes

Néli, que pesquisou receitas, plantas, ervas e raízes brasileiras para criar uma nova coquetelaria, considera como viés político-cultural de seu trabalho o resgate de saberes que formam a identidade etílico-culinária brasileira. “Quando meu marido abriu um boteco, percebi que rolava pouco Brasil na coquetelaria.” Neli partiu para pesquisas com benzedeiras, indígenas e até o “tio” do boteco. Seu livro surgiu dessas conversas com os brasileiros guardiões de saberes. “Depois falei com botânicos, estudei fármacos, mas no fundo sou uma plagiadora do Brasil”.

Ela também falou de sua responsabilidade, como comunicadora, em questões de saúde — em particular o alcoolismo —, tema que lhe é caro como autora de um livro de coquetelaria e como dona de bar. “Eu sou ativista do beber responsável, olho a bebida dentro do universo da cultura alimentar. A gente pode beber menos e melhor”, disse Néli, que faz parte de algumas instituições que atuam na prevenção da dependência química, como a ONG Cisa (Centro de Informações sobre Saúde e Álcool).

Pesquisadora de saberes tradicionais, Néli lembrou que, se continuarmos a dissociar o ser humano da natureza, “estamos ferrados”. “Se a gente continuar assim, o Céu vai desabar. Os povos originários nos avisam disso há muito tempo.”

A Feira do Livro acontece de 7 a 11 de junho na praça Charles Miller, no Pacaembu, em São Paulo.

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, , editora da Quatro Cinco Um, está lançando Tantra e a arte de cortar cebolas (34)

Matéria publicada na edição impressa #70 em maio de 2023.