Ministério da Cultura apresenta
A tradutora Katherine Funke, o mediador Marcelo Lotufo e a tradutora Laura Chagas (Matias Maxx/Terebi/A Feira do Livro)

A FEIRA DO LIVRO 2026,

Poemas de Katherine Mansfield ganham publicação inédita no Brasil

Tradução feita a oito mãos e relações entre a obra lírica e os contos da autora neozelandesa marcaram o debate

05jun2026

É possível traduzir uma obra poética coletivamente? A pergunta guiou os debates entre as tradutoras Katherine Funke e Laura Chagas na mesa A poesia de Katherine Mansfield em tradução, que aconteceu na manhã de sexta (5), no Tablado Literário Bubu, n’A Feira do Livro.

Para responder à pergunta do mediador Marcelo Lotufo, Chagas foi enfática: “Tradução é uma área em que as pessoas não concordam, não tem consenso, mas isso é parte da diversão de traduzir”. 

A tradutora Laura Chagas (Matias Maxx/Terebi/A Feira do Livro)

O resultado do trabalho feito a oito mãos é a coletânea Quando fui pássaro (Jabuticaba, 2026), traduzida por Katherine Funke, Laura Chagas, Lúcia Ely Paiva e Taty Guedes, que traz ao Brasil pela primeira vez uma seleção de quarenta poemas escritos entre 1903 e 1922 pela autora neozelandesa Katherine Mansfield (1888-1923).

Se o trabalho coletivo foi fundamental para a diversidade de poemas traduzidos, as marcas de cada uma das tradutoras também compõem a edição final. 

“As quatro tradutoras trabalharam seus poemas individualmente no primeiro momento. Quando houve intervenção externa, apareceram resistências, porque queremos manter nosso estilo, nossa assinatura. O legal foi que, na edição, cada poema recebeu a assinatura de quem o traduziu”, disse Funke, responsável também pela escolha dos textos que compõem a obra. 

Dos contos à poesia

Uma das principais contistas da história da língua inglesa, Katherine Mansfield teve sua obra lírica relegada a traduções esparsas por décadas, não apenas no Brasil. Qual a importância, então, da edição que chega agora ao país? 

Para Funke, “ler os poemas ajuda a gente a ler melhor os contos da autora”. O valor estético da obra de Mansfield, afinal, foi reconhecido por escritoras como Clarice Lispector e Ana Cristina Cesar. 

Entre os tópicos comuns à obra lírica e à prosa, Funke apontou os modos de construção das figuras femininas. “Quem é a mulher na obra de Mansfield, o que ela quer alcançar?”, questionou. 

A tradutora Katherine Funke, o mediador Marcelo Lotufo e a tradutora Laura Chagas (Matias Maxx/Terebi/A Feira do Livro)

Os quarenta poemas selecionados, de um total de 217 conhecidos, atravessam uma diversidade de temas: a paixão, os pássaros, a musicalidade, a relação com a natureza, o irmão morto acidentalmente quando Mansfield ainda era jovem, o isolamento causado pela tuberculose, que a mataria em 1923. “Muitos poemas dela também têm origem em experiências solitárias, andando, viajando”, diz Funke.

Entre os poemas que revelam aspectos autobiográficos da escritora, Funke destaca um de 1903. “Ela dedica esse poema a uma namorada com quem se relacionou por mais ou menos dois anos. Era uma princesa maori que estudava com Mansfield [quando tinha quinze anos], por quem ela se apaixonou”, explicou.

Além da diversidade de temas que compõem a coletânea, as tradutoras também debateram sobre as escolhas formais de cada texto. Reproduzir a sonoridade da língua inglesa nos poemas traduzidos foi um dos principais aspectos considerados por elas.

Chagas lembrou ainda do trabalho com os detalhes, como a tentativa de usar diminutivos, e do apoio do coletivo em escolhas que nem sempre são fáceis. “Não foi só discordância, muitas vezes o trabalho coletivo foi o nosso principal apoio”, concluiu Chagas.


A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h

A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.

Quem escreveu esse texto

Lúcia Nascimento

Escritora e jornalista, doutoranda em teoria literária na USP.