A FEIRA DO LIVRO 2026,
‘Não é preciso entender para amar’, diz Cadão Volpato sobre filha trans
Escritor falou de seu livro Notícias do trânsito com Luana Chnaiderman, que lançará seu primeiro romance em outubro
05jun2026A conversa foi quase íntima, descontraída, mas teve emoção contida e muitos olhos marejados na plateia e no palco do Tablado Mário de Andrade, n’A Feira do Livro. Na mesa Ida sem volta, na quinta (4), com a escritora Luana Chnaiderman, Cadão Volpato conversou sobre o processo de aceitar que tinha uma filha trans, relatado em Notícias do trânsito.
O livro começou a ser escrito quando a filha do escritor e editor lhe contou, por WhatsApp, na época em que o pai morava em Nova York, que estava transicionando de gênero.
“Você se apresentava como não binário. Eu achava que iria passar. Então mudou de nome, as fotos não estavam lá. Você era uma pessoa trans. Confesso que chorei, você nunca me viu chorar, e não viu dessa vez. Não foi o único nem o último pranto do seu velho pai”, escreve Volpato no trecho lido ao público do Tablado.
A escrita a quente foi uma forma de ele lidar com o assunto. “Não iria publicar, achava que seria uma exposição da intimidade. Mudei de ideia ao ver a reação da família ao ler os manuscritos — a primeira leitora foi minha filha”, contou. O livro foi o primeiro publicado pela Seja Breve, editora da qual Volpato é sócio-fundador, junto com Bernardo Ajzenberg.
Volpato contou que aceitar a mudança de nome da filha, de Dante para Chimera, foi uma espécie de luto. “Demorei para chamá-la Chimera. Mas descobri que você tem que acolher. Não é preciso entender para amar”. A frase, explicou Volpato, foi dita pelo pintor Monet ao falar sobre sua arte.
Para Chnaiderman, o texto de Volpato lembra Betina González, autora de A obrigação de ser genial (Bazar do Tempo, 2024). A argentina defende “escrever com o coração na página”, conforme a autora. “A gente tem medo de ser sentimental, piegas. De se derreter, como se fosse de mau gosto. Você não tem nada desse medo em Notícias do trânsito”, disse a Volpato.
Spoiler de lançamento
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Teve também spoiler do livro que Chnaiderman lança em outubro, pela Record: Etiqueta, seu primeiro romance. N’A Feira do Livro do ano passado, os dois escritores se encontraram e Chnaiderman falou com Volpato do livro que estava escrevendo. “Eu estava em processo de transição de leitora para escritora. Cadão me viu como autora e me encheu de alegria.”
Os dois conversaram sobre a literatura nutrida pela realidade e pela lembrança íntima. “Eu mudei completamente. O que mais posso expressar depois disso? Imagino que Luana também tinha sentido isso no seu romance, especialmente nas passagens sobre seu avô”, disse Volpato.
No romance, Chnaiderman mescla memórias de sua relação com o avô, Boris Schnaiderman (1917-2016), professor, tradutor e o grande divulgador da literatura russa no Brasil, com as histórias de uma mulher contemporânea e de Dido, princesa de Cartago imortalizada em Eneida, épico de Virgílio. Mas tudo começou com as lembranças do avô.
“Continuo ligada a ele. Meu avô foi uma pessoa muita ética no cotidiano. A etiqueta [do título] não é só rótulo, é a ética das pequenas coisas do dia a dia.”
A Feira do Livro 2026
A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.
A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro
Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21hA Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.