A FEIRA DO LIVRO 2026,
Mário de Andrade acreditava na cultura popular como estética e não como tema, diz André Botelho
Pesquisador conversou com o multiartista Antonio Nóbrega sobre a admiração do modernista ao povo nos anos 1920
07jun2026O mediador da mesa Os nordestes de Mário de Andrade, Matinas Suzuki Júnior, explicou que era uma coincidência aquela conversa acontecer no tablado literário batizado com o nome do autor modernista. “Isso não estava programado, mas eu interpretei como um grande sinal para a conversa que vamos ter aqui”, brincou o jornalista e editor antes de dar início ao debate, no domingo (7).
A mesa, que reuniu o pesquisador André Botelho e o multiartista Antonio Nóbrega, tratou da viagem ao Nordeste feita por Mário de Andrade no final dos anos 1920. Na expedição, o autor de Macunaíma encontrou aquilo que o faria desejar ainda mais a diluição das fronteiras entre o erudito e o popular, como defendeu Botelho.
Em seu relato de viagem, afirmou o pesquisador, Mário teve a sensibilidade de se referir à região nordestina como “os nordestes”, rejeitando uma visão sudestina que enxergava ali uma unidade. “A ideia de plural partiu do Mário, eu diria que é um livro muito atual nesse sentido.”
Foi percebendo essa sensibilidade que Nóbrega se aproximou da obra de Mário de Andrade. Depois de receber o livro Danças dramáticas do Brasil (Garnier, 2002) das mãos de Ariano Suassuna, o pernambucano conta que se interessou pelos pensamentos de Mário e procurou outras leituras do autor, como O turista aprendiz.
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Nóbrega conta que esse mergulho na obra do modernista gerou uma sensação de reconhecimento, porque ele passou por muitos lugares descritos por Mário. “Provavelmente eu conheci até um mestre de coco que ele registrou, o Capitão Pereira do Boi Misterioso de Afogados”, contou.
Musicalidade
Tanto Botelho quanto Nóbrega enfatizaram a importância da formação de músico do modernista na construção de seu repertório. Botelho afirmou que Mário tinha um repertório incomum e que a música é um dos pilares para entender essa formação.
“Ele pensa musicalmente a sociedade e a cultura; via a poesia e a literatura a partir da música”, disse o pesquisador. “E, apesar de modernista, Mário não escreveu manifestos; ele acreditava que a renovação da literatura viria com a musicalidade da cultura popular.”
Para Botelho, Mário não apostou na musicalidade da cultura popular como um tema, mas como forma estética. Por isso, afirmou, Villa-Lobos era uma espécie de sonho e de pesadelo para Mário, já que o maestro e compositor teria usado o popular como temática — não se deixando ser afetado pelas estruturas musicais marginalizadas.
A particularidade de reunir o erudito e o popular, segundo Nóbrega, é o que torna o olhar de Mário especial. O artista contou que a facilidade em misturar culturas plurais fez surgir o termo “desgeograficação” na obra do modernista. “Ele não se referia às culturas de classes marginalizadas como ‘folclóricas’, tanto que trouxe costumes que seriam da Amazônia para contar uma história passada em São Paulo. Então, aquilo perde identidade local para se tornar uma identidade nacional.”
A Feira do Livro 2026
A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.
A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro
Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h
A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.