Ministério da Cultura apresenta
Os ilustradores Rafael Calça e Ilustralu (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

A FEIRA DO LIVRO 2026,

Faço do quadrinho um manifesto de identidade, diz Ilustralu

A escritora e quadrinista mergulhou no mundo das HQs infantojuvenis em conversa com o também ilustrador Rafael Calça

08jun2026

Os ilustradores Rafael Calça e Ilustralu mergulharam no mundo dos quadrinhos infantojuvenis na manhã deste domingo (7), durante a última mesa do Espaço Rebentos, dedicado à programação infantojuvenil d’A Feira do Livro. Com mediação do também quadrinista e ilustrador Marcelo D’Salete, os autores revelaram os bastidores de suas obras mais recentes e outras curiosidades sobre processos criativos.

Quadrinista potiguar radicada em Natal e conhecida por Arlindo (Seguinte, 2021), webcomic que virou livro e foi finalista do Prêmio Jabuti, Ilustralu acaba de lançar Faísca (Companhia das Letrinhas). O livro acompanha Didi, menina apaixonada por festas juninas que desafia as expectativas ao insistir em participar das brincadeiras “de menino”. Ao lado da amiga Ninha, ela vive uma noite de São João inesquecível. “Quis escrever sobre uma criança que não é subestimada; ela é respondona com a mãe, mas também é uma amiga muito prestativa. É uma criança que ensina muito sobre o que é limite”, disse a autora.

Roteirista e ilustrador paulistano, Calça já venceu prêmios como o Jabuti e o HQ Mix. Ele assina as ilustrações de Oriki, de Henrique André, outra novidade publicada pela Companhia das Letrinhas e que marca a estreia do afrofuturismo no selo editorial. A trama explora a relação entre a menina Anayo e sua avó cientista, que vivem em uma aldeia no ano de 2978. Com referências à cultura afro-brasileira e iorubá, o quadrinho mescla tecnologia e identidade para imaginar futuros construídos a partir da ancestralidade. 

Representações

Ilustralu comentou a importância de representar a cultura nordestina em Faísca. “Percebi que não é tão comum que pessoas que vêm de onde eu vim cheguem em palcos como esse. Demoramos muito mais para acessar esses espaços com as nossas narrativas”, observou. Por isso, a autora considera o quadrinho um “manifesto de identidade”.

“Ao ler um quadrinho, lemos balões de fala; então, eu empresto minhas palavras para meus personagens. A força da expressão é muito mais do que uma gramática perfeita”, completou Ilustralu, que disse se frustrar quando a variedade linguística é questionada por leitores. “Nós, nordestinos, entendemos as gírias do sudeste por contexto. É tão difícil atravessar a rua de si mesmo e tentar entender a palavra do outro?”

Calça descreveu o afrofuturismo de Oriki como “encantador porque traz o vislumbre de um futuro negro, onde as pessoas negras estão vivas, felizes, prósperas, e a sua cultura existe e é valorizada”. “Produzir arte, no formato que for, é o momento mais esperançoso que temos, por mais que existam dores”, acrescentou.

Sofrimento

O quadrinista comparou os desafios da produção de novas HQs com fazer uma tatuagem: “No meio do caminho, você sofre, sente muita dor e pensa em desistir: ‘por que inventei isso?’. Mas, quando termina, fica muito legal”, disse. “Você passa dois anos fazendo um negócio que a pessoa vai ler em duas horas”, emendou Ilustralu. Para os autores, porém, ver o leitor devorar uma história nunca é negativo — significa sucesso. “Se ele leu rápido, não largou até terminar, significa que deu tudo certo”, observou Calça.

Ilustralu lembrou das diferenças na produção de Arlindo e Faísca: o primeiro foi publicado originalmente na internet, em episódios semanais, como uma série de TV. Na época, a autora precisou lidar com as interações com o público, que acabaram influenciando os rumos da trama. Faísca, que já nasceu em formato impresso, com a história fechada, é para a autora como um filme, consumido na íntegra e de uma vez pelo público. Desenhar cada quadrinho também foi diferente. Enquanto Arlindo foi ilustrado digitalmente, Faísca foi feito à mão e apenas finalizado no digital. 

Ao responder a pergunta de uma criança na plateia sobre o uso de inteligência artificial para ilustrações, Ilustralu disse que “não tem nada mais bonito do que um erro cometido por um ser humano em um desenho”. Para a autora, é inteligente, por exemplo, fazer uma “gambiarra” para corrigir um erro, o que deixa uma ilustração mais viva. “O desenho, como a gente conhece, nunca vai morrer, porque tem muita gente errando e não tem máquina que replique isso.”

“Incentivem as crianças a desenhar. Há sentimentos para os quais elas ainda não têm vocabulário e o desenho pode ser um veículo para expressar isso. O mesmo vale para nós, adultos”, disse Calça.

Oficinas

O Espaço Rebentos recebeu uma série de oficinas em todos os nove dias d’A Feira do Livro. No domingo (7), foram quatro atividades com a criançada e seus pais. No início da tarde, a artista Maria Mion ministrou um repeteco da oficina Criação para monóculos, que aconteceu pela primeira vez na quarta (3). A proposta era criar obras de arte em escala reduzida para serem visualizadas através das lentes, explorando o artefato analógico.

Em seguida, Jadiel Pereira Santos comandou a oficina Páginas costuradas, que ensinou a montar um pequeno caderno com a técnica da costura japonesa. Já a Arumã Brasil, organização que promove a reconexão com a natureza, trouxe para o Espaço Rebentos a atividade de criação de Marcadores de livros com papel reciclado e pigmentos naturais — spirulina, açafrão e argila foram usados.

A última oficina realizada foi Produzindo contos, com Giancarla Francovig Peralta Ceravolo. A escritora, tradutora e pesquisadora propôs uma atividade em que os pequenos sorteavam três elementos típicos dos contos de fadas para escrever suas próprias histórias.


A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h

A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.

Quem escreveu esse texto

Gabriela Caputo