A FEIRA DO LIVRO 2026,
Esporte, literatura japonesa, podcasts ao vivo e língua portuguesa são destaque n’A Feira do Livro
Gregorio Duvivier, Pedro Bial e Marina Person foram alguns dos convidados que passaram pelo Palco da Praça entre os dias 1º e 3 de junho
04jun2026A Feira do Livro deu continuidade, entre os dias 1º e 3 de junho, aos encontros com autores, apresentações de podcasts ao vivo, clubes do livro e performances artísticas. O festival literário paulistano começou no último sábado, 30 de maio, e segue com a sua programação cultural até domingo, 7 de junho, com muitos encontros e convidados nacionais e internacionais.
O primeiro final de semana teve como destaque a literatura latino-americana, e a apresentação ao vivo de podcasts também atraiu grande público desde o sábado de abertura, com o Foro de Teresina e, ao longo da semana, com o 451 MHz, na terça (2), e o Calma Urgente! lotando a praça na tarde de quarta (3).
O ator e escritor Gregorio Duvivier ofereceu um passeio pela língua portuguesa ao público que lotou o Palco da Praça na noite de quarta-feira para assistir à palestra-show Aos pés da letra. O espetáculo é uma versão do livro homônimo, recém-lançado pela Companhia das Letras, que por sua vez é um desdobramento da peça O céu da língua, que já soma mais de 300 mil espectadores.
Munido de um retroprojetor, um canetão e algumas transparências, Duvivier apresentou palavras e expressões, contou histórias sobre o nosso idioma e fez aquilo que sabe fazer melhor: arrancar gargalhadas da plateia.
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Além de ter encerrado a noite do quinto dia d’A Feira, Duvivier abriu a programação oficial do dia com uma edição especial ao vivo do podcast Calma Urgente!, junto com Bruno Torturra e Alessandra Orofino. “Magnifica humanitas”, a primeira encíclica do papa norte-americano Leão 14, publicada pelo Vaticano no fim de maio, foi o ponto de partida para um debate acalorado sobre a linguagem “espiritual” das Big Techs e a supremacia da vida algorítmica.
O trio discutiu a “imortalidade dos dados”, os aspectos “espirituais” da linguagem do Vale do Silício e a esperança em uma humanidade que pode ser salva pela leitura. “Existe um conformismo muito estranho e a gente precisa sair dele. Não é parar de usar inteligência artificial para escrever os nossos textos, mas parar de usá-la para processar o nosso mundo e oferecer resumos”, observou Duvivier.
Encontros ao vivo
Outro podcast que teve uma apresentação ao vivo foi o 451 MHz, com um episódio sobre a vida da atriz Dercy Gonçalves, com a jornalista Adriana Negreiros, autora de Dercy: a diva debochada (Objetiva, 2026) e Bruna Beber, poeta e colunista do podcast. Na conversa, que abriu a programação de terça (2), Negreiros descreveu Dercy como alguém que teve de enfrentar “todas as dificuldades próprias de uma mulher” do século passado, inclusive o preconceito de uma sociedade que acreditava que só homens podiam ter talento cômico.
À tarde do mesmo dia, o Palco da Praça recebeu uma edição especial do Clube de Leitura Japan House São Paulo + Quatro Cinco Um, que reuniu a cineasta paulistana Marina Person e os mediadores Natasha Barzaghi Geenen (curadora e diretora cultural da Japan House São Paulo) e Paulo Werneck (diretor presidente da Associação Quatro Cinco Um). Eles discutiram o livro Doce Tóquio, de Durian Sukegawa.
Acompanhados de um grupo animado de leitores e leitoras, o encontro teve até uma breve pausa para a degustação de dorayaki, iguaria da confeitaria japonesa, detalhe indispensável da história de Sukegawa. O trio bateu um papo descontraído a respeito de obras literárias adaptadas para o cinema e refletiram sobre como a arte local contribui para a formação de identidades culturais, além de trazer curiosidades gastronômicas.
Mercado editorial
O mercado editorial também esteve em pauta n’A Feira ao longo da semana. Na quarta (3), o Palco da Praça recebeu uma conversa sobre o Mapa das Livrarias de Rua, com os livreiros independentes Cecilia Arbolave, Julia Souto Araujo, Monica Carvalho, Tereza Grimaldi e Adalberto Ribeiro e mediação de Luiza Thesin, diretora da Biblioteca Mário de Andrade. Os cinco livreiros discutiram essa e outras iniciativas de fortalecimento de espaços independentes.
Na ocasião, representantes da Banca Tatuí, Livraria da Tarde, Miúda e Simples contaram que, apesar do sucesso do projeto, é desafiador manter seus negócios diante das políticas de descontos agressivos do mercado on-line. Evidência disso é que, dos 37 empreendimentos originalmente incluídos no mapa, publicado no final de 2025, dois já fecharam as portas.
Outra iniciativa que dá visibilidade a livrarias e outras instituições ligadas ao livro foi apresentada na tarde de terça. A Bagagem Literária — editoria especial da Quatro Cinco Um — foi o tema de uma apresentação para expositores e outros curiosos que estavam passeando pelo festival. O novo projeto da revista dos livros, vencedor do prêmio PublishNews 2026 na categoria inovação, foi apresentada pelo editor Vitor Pamplona, que convidou expositores a fazerem parte do Guia de Editoras, Guia de Livrarias e usar a Agenda 451, calendário digital com eventos literários de todo o país.
Noitadas e poemas na cidade
Música e poesia, trilhas regulares do festival, também ocuparam mesas da semana. A noite de terça (2) teve uma conversa entre os jornalistas e escritores Camilo Rocha e Gaía Passarelli, mediada pela jornalista Laura Lima, sobre a cultura da noite paulistana. Autores de livros que registram as mudanças da cena da música eletrônica, eles falaram dos novos hábitos de consumo de música, a volta do vinil e a gentrificação no centro de São Paulo.
O terceiro dia d’A Feira, segunda (1º), contou com uma conversa sobre poesia entre Ana Estaregui e Bernardo Ceccantini, que teve mediação de Irene de Hollanda, idealizadora do Festival Poesia no Centro, em São Paulo, e sócia e diretora da livraria Megafauna. O encontro deu conta dos universos dissonantes das produções poéticas dos escritores e celebrou a poesia estar ocupando mais espaço em festivais da cidade.
Esporte e hábitos
No mesmo dia, Pedro Bial e Uirá Machado colocaram em xeque algumas das regras que o “biógrafo dos biógrafos”, como Bial se referiu a Ruy Castro, preconiza para uma boa biografia. A dupla, que acaba de biografar dois ícones do esporte brasileiro, conversou sobre as possibilidades do gênero na mesa Além do jogo, que encheu o Palco da Praça no final da tarde.
A programação da segunda-feira encerrou com Charles Duhigg, autor dos best-sellers O poder do hábito e, mais recentemente, Supercomunicadores, ambos publicados pela Objetiva. Na mesa, ele detalhou técnicas para garantir uma comunicação bem-sucedida com qualquer tipo de pessoa, mesmo parentes bolsonaristas — palavras dele. E confidenciou ao público que não tem apenas hábitos bons — é viciado em doce. “Está tudo bem ter maus hábitos. Eles não significam que você seja uma má pessoa”, afirmou.
O comportamento também esteve em discussão na programação paralela da semana. O escritor e consultor André Carvalhal, autor de A alegria em ficar de fora (Agir), e a jornalista Petria Chaves, apresentadora da CBN e autora dos livros Escute seu silêncio e Como sei o que sei (Academia), conversaram sobre o resgate da presença e a busca por alegria em um mundo de excessos e distrações na mesa Silenciar o ruído, no Tablado Literário Bubu.
“Se você não tem presença, você não tem alegria e não tem você. E se você não tem você, você não tem autoconhecimento, autocuidado, bem-estar. Não tem nada disso”, disse Carvalhal.
Uma conversa sobre tecnologia, sustentabilidade e inovação nas cidades recebeu Renata Ruggiero, Regina Magalhães e Jackie Esteves no Espaço Motiva Tablado Literário, na quarta (3). Na mesa Inteligência estratégica, elas defenderam que a IA pode desempenhar um papel decisivo na construção de modelos de desenvolvimento mais inclusivos e regenerativos. “A inteligência artificial tem o poder de incluir, mas também tem o poder de excluir”, disse Ruggiero, presidente do Instituto Motiva. “No campo da mobilidade, por exemplo, a inteligência artificial já é utilizada para otimizar rotas, integrar modais de transporte e reduzir emissões.”
Sânscrito e ficção científica
A programação paralela trouxe outros assuntos curiosos para o festival, como o sânscrito e o clássico 1984, de George Orwell. Na quarta (2), a mesa Literatura indiana reuniu o tradutor e escritor Eduardo Valmobida, o escritor e editor Filipe Moreau, da Laranja Original, e o tradutor, editor e escritor Régis Mikail, da Ercolano, no Tablado Literário Bubu. Eles fizeram um panorama histórico e linguístico da produção literária indiana, que se inicia com os Vedas e o Mahabharata, escritos em sânscrito, chegando até a produções mais contemporâneas de Índia, Paquistão e da diáspora, como Arundhati Roy e Jhumpa Lahiri.
Já na mesa Os muitos caminhos da ficção científica, no Tablado Literário Mário de Andrade, que aconteceu na quarta (3), o roteirista e apresentador Bruno Marchese e o neurocientista Miguel Nicolelis retomaram a conhecida divergência entre os escritores Aldous Huxley e George Orwell para refletir sobre os mecanismos contemporâneos de controle social.
Segundo Nicolelis, Huxley teria antecipado em Admirável mundo novo que a dominação das sociedades ocorreria menos pela repressão direta descrita em 1984 e mais por formas sutis de condicionamento psicológico, hoje associadas a algoritmos, redes sociais e indústria do entretenimento. “O domínio do futuro vai ser psicológico”, resumiu o cientista ao comentar a carta enviada por Huxley a Orwell após a leitura do manuscrito de 1984, na conversa que avançou para os impactos das tecnologias digitais sobre a cognição humana.
Outra conversa que falou de ficção científica aconteceu no Tablado Literário Bubu: O universo expandido de Star Wars. Nela, Guilherme Kroll e Dante Fernandes, editor e coordenador de marketing da editora Universo dos Livros, respectivamente, destacaram o papel dos livros na expansão da mitologia criada pelo cineasta George Lucas.
Segundo os participantes, o chamado “universo expandido” surgiu ainda nos anos 70, quando Lucas encomendou ao escritor Alan Dean Foster um romance que serviria como uma continuação de baixo orçamento para o primeiro filme da saga. Desde então, centenas de obras passaram a explorar períodos, personagens e acontecimentos além dos filmes e séries, abordando a origem dos Jedi e dos Sith, a Força e diferentes momentos históricos da série.
Literatura infantil
Os livros voltados para as infâncias foram destaque ao longo dos dias da semana d’A Feira no Espaço Rebentos. No fim da tarde de segunda (1º), a escritora e ilustradora Angela Lago (1945-2017), referência da literatura infantojuvenil e da experimentação em livros ilustrados no Brasil, foi homenageada em uma conversa entre os escritores Aline Abreu e Odilon Moraes, mediada por Rita da Costa Aguiar.
Lago, que publicou seus primeiros livros nos anos 80 e 90 e foi vencedora de prêmios Jabuti, aproveitava as limitações técnicas para contar suas histórias, convidando o leitor para um jogo diferente a cada título. “Ela testava os limites”, disse Abreu.
Na segunda (1º), a escritora e artista Paty Wolff conversou com Penélope Martins sobre o livro infantojuvenil Depois do Atlântico (Caixote, 2026), em que um tecido ancestral geométrico funciona como metáfora para falar da diáspora africana, conversando com inquietações da própria autora sobre suas origens.
Outra conversa que tratou da questão racial no Brasil foi a mesa Representatividade negra na literatura infantil, que contou com a escritora Mira Silva e mediação do editor Kin Guerra, a tarde de terça (2), no Espaço Motiva Tablado Literário. Silva refletiu sobre sua trajetória como escritora, jornalista e curadora, que foi marcada pela ausência de livros durante a infância e pela descoberta tardia do letramento racial.
Seguindo o mesmo tema, a escritora Madu Costa e a ilustradora Ana Paula Sirino conversaram sobre o livro Trança a trança (Intrínseca), com mediação da pesquisadora e professora Cristiane Tavares. A obra explora o afeto no ato de trançar os cabelos, um gesto de cuidado e intimidade presente na infância das duas.
O uso excessivo de telas pelas crianças e adolescentes foi assunto da conversa entre a educadora parental Cláudia Alaminos e a comunicadora Lia Ludwig, do Movimento Desconecta, na terça (2). Com mediação da jornalista Laura Mattos, elas conversaram sobre os primeiros efeitos de medidas como a proibição de celulares nas escolas e refletiram sobre o papel das famílias na educação digital.
Outras atividades
No início da tarde de segunda (1º), A Feira do Livro recebeu um grupo de crianças e adolescentes do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental para a oficina Zines narrativos, no Espaço Rebentos. Os jovens da Escola Estadual João Álvares de Siqueira Bueno, de Guarulhos, acompanhados de duas professoras, fizeram pequenas artes a partir de papel sulfite colorido. Dobraduras, recortes e ilustrações feitos com materiais diversos permitiram criar os “zines”, publicações artesanais que expressam a individualidade de cada um.
Alguns deles gostaram tanto que fizeram mais de uma revistinha. Alguns mostraram a habilidade para os desenhos — uma adolescente reproduziu A noite estrelada, de Van Gogh, com giz pastel —, outros se empolgaram com os carimbos que tinham uma variedade de pequenas figuras. A atividade contou com apoio e mediação da Pinacoteca de São Paulo e organização da Motiva.
Na tarde de quarta (3), o Espaço Rebentos também recebeu duas oficinas. Crianças da ONG Alquimia, que atua na zona sul de São Paulo, participaram de uma atividade de criação de capas de livros, realizada com apoio da Pinacoteca de São Paulo. No fim do dia, um grupo diverso composto por crianças, jovens e adultos criaram composições gráficas em escala reduzida para monóculos, na oficina conduzida pela artista Maria Mion.
A Feira do Livro 2026
A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.
A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro
Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21hA Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.