A FEIRA DO LIVRO 2026,
Escrevendo enfrentei o que há de sublime na morte sem mascarar a dor, diz Fernando José de Almeida
Educador emocionou visitantes d’A Feira do Livro ao falar sobre seu Elogio à saudade, um ensaio afetivo sobre a morte precoce da filha
08jun2026 • Atualizado em: 09jun2026No domingo (7), último dia d’A Feira do Livro 2026, uma mesa gerou comoção na plateia lotada do Palco da Praça e no público aglomerado em frente ao telão na praça Charles Miller. Conversaram o educador Fernando José de Almeida, autor de Elogio à saudade (Seja Breve, 2026), livro em que conta sobre a morte da filha, Lorena, que se suicidou aos 43 anos, e o jornalista e psicanalista Robinson Borges.
Aplaudido de pé ao entrar, Almeida falou da dor inominável que a tragédia causa e de como lidou com a finitude — nas palavras do mediador, podemos transformar o sofrimento em arte.
“Escrever não foi uma sublimação, mas uma forma de enfrentar o que há de sublime na morte sem mascarar a dor profunda do luto”, disse Almeida. “Esse enfrentamento me permitiu fazer algo que me aproximava da dor, da arte e da alegria.”
Ele contou que, nesse sentido, a escrita foi terapêutica, mas também prazerosa. “Eu chorava e continuava [a escrever], escondido da Silvana, minha esposa; me apoiei em eventos da minha vida, em minha mulher, meus filhos e netos, nas histórias da Bíblia e no Zé do Coco”, contou.

A tentativa de mostrar a todos as coisas bonitas que a filha fez pode ter sido uma forma de sublimação, concedeu. “Produzi beleza a partir da dor, algo que nunca tinha feito. Tive a chance de recuperar coisas que me deram alegria.”
O que não deu para sublimar foi o barulho causado por formandos da academia militar que, durante todo o domingo, ensaiaram para seu desfile de formatura na praça Charles Miller. Além do barulho, o contraste entre a parada militar, o mundo dos livros e a delicadeza das falas de Almeida incomodaram o público e o escritor. “É falta de educação”, disse, quando o barulho da tropa, bem ao lado do palco, interrompeu pela quarta vez a sua fala.
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Almeida, que se formou num seminário jesuíta, falou ainda de fé e transcendência. “Passei oitenta anos banhado no vapor de um cristianismo coerente, que dava conta de explicar minha vida. Com a morte da Lorena, perdi a fé quase inocente que tinha; agora é uma fé desconfiada.” Especificou que, diante da “concretude do mármore preto” da lápide, bem palpável e real, sua fé foi abalada.
Lorena se suicidou, ele relatou, quinze dias após a morte de Danilo Miranda, grande amigo seu e padrinho de Lorena. Quando o amigo morreu, ele pensou: “daqui a pouco encontro Miranda no céu, tudo bem. Mas quero encontrar minha mãe, meu pai. E Luiz Gonzaga, Sivuca, Kant; quero conversar com todos. A organização do céu cristão é inadministrável”, brincou, provocando risos na plateia e equilibrando o clima da conversa.
Ecologia da perda
Almeida também falou do que ajuda ou não no luto. “Tem frases lindas e delicadas, mas que não fazem bem a quem está sofrendo. Outras, por outro lado, chegam no momento correto. Agradeço a quem me fez bem com pequenas frases”, disse, comparando essas últimas às jaculatórias jesuítas, uma forma de “lançar ideias boas no ar, aos santos, a Deus, a quem for”.
A “ecologia da perda”, conceito que aparece em Elogio à saudade, foi buscada na escrita e no convívio com a família e os amigos. Nesse meio, que chamou de “ecologia boa”, Almeida recebeu dos amigos da filha o afeto que realmente pedia. “Os amigos se revelaram muito mais amigos, num grau quase angelical de amizade.”
Por outro lado, grande parte da literatura sobre suicídio, num primeiro momento, o irrita: “um receituário que me fez mal”. Até encontrar o que fazia sentido para ele, como o filósofo Paul Ricoeur, sugerido pelo amigo Andrés Bruzzone. “Entendi que o suicídio não é uma doença, mas um ato de profunda consciência de uma vida que opta pelo fim. Tive clareza de que Lorena escolheu sair da vida. O que se pode fazer com uma opção tão clara de uma filha?”
No início, ele contou, não sabia o que fazer. “Entrava no taxi e dizia: ‘perdi minha filha’.” Mas revelou que queria ter a delicadeza de não se intrometer na vida dos outros e saber melhor como pedir ajuda. “O que me salvou foram meus amigos. Um casal nos telefonava toda noite e cantava para a gente dormir. E vamos encerrar agora, se não vou chorar”, finalizou Almeida para uma plateia, nessa altura, aos prantos.
A Feira do Livro 2026
A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.
A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro
Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h
A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.
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30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita
A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.
A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.

