Literatura,

Black Italy

Filha de imigrantes da antiga Somália Italiana, a escritora romana Igiaba Scego lança dois livros no Brasil e vai a Paraty para participar da Flip; em entrevista, ela fala sobre seus romances, música brasileira e a atual política migratória na Itália

01jul2018 - 04h51 | Edição #13 jul.2018

Todos os livros dela falam da Itália: ao longo de quinze anos de escrita, Igiaba Scego sempre elaborou histórias e ensaios sobre personagens nascidos ou crescidos no país, vindos de migrações mais ou menos dolorosas, de antigas colônias, italianas ou não. 

A primeira criação da escritora — nascida em Roma em 1974, filha de somalis que buscaram refúgio na metrópole de outrora para fugir da ditadura de Siad Barre (1969-1991) — foi uma prostituta africana, Rhoda. Depois, foram publicados Minha casa é onde estou e Adua, que serão lançados no Brasil pela editora Nós. Há também o ensaio Roma negata, com fotografias de Rino Bianchi, que mostra nas ruas da capital os traços — evidentes, mas em geral invisíveis — de um colonialismo subestimado. 

A partir de 1889, a Itália colonizou territórios do norte e do oeste da África, hoje localizados em partes da Somália, Eritréia, Etiópia e Líbia. A Somália Italiana, de onde vem a família da escritora, foi a única colônia remanescente após a debacle do Eixo na Segunda Guerra e só foi conquistar a independência em 1960.

Igiaba Scego fez uma única exceção à sua dedicação à Itália: Caetano Veloso, com Caetano Veloso – Caminhando contra o vento. Uma homenagem que Scego, às vésperas da sua partida para a Flip, explica assim: “Minha editora pediu um ensaio para uma coletânea na qual os autores tinham que falar sobre alguma paixão. Aí pensei: paixões verdadeiras só tenho duas, Caetano Veloso e a Roma. Preferi escrever sobre música em vez de futebol”.

ANGIOLA CODACCI-PISANELLI  Quer dizer então que o livro sobre Caetano Veloso foi feito sob encomenda?
IGIABA SCEGO  Sim, e quando propus escrever sobre Caetano os editores ficaram surpresos. Esperavam que eu escolhesse alguém como Malcolm X, que, claro, me é muito caro. Também é verdade que sou conhecida na Itália por causa do meu trabalho black, que caracteriza toda a minha produção literária. Toda, menos esse livro. 

“Quando propus escrever sobre Caetano, meus editores ficaram surpresos. Esperavam que eu escolhesse alguém como Malcolm X”

AC  Como nasceu essa paixão?
IS  Li muitos autores brasileiros na universidade. Comecei com Jorge Amado, conterrâneo do Caetano. E depois todos os outros: Clarice Lispector, Machado de Assis, Guimarães Rosa. Minha formação é em espanhol, mas durante a graduação fiz duas provas de literatura brasileira: uma delas era sobre um texto modernista do Mário de Andrade. 

Mas eu já era apaixonada pelo Brasil desde criança, quando assistia aos programas de Gianni Minà, que costumava convidar muitos brasileiros, como Baden Powell e Chico Buarque (o primeiro que ouvi). Depois de um hiato na adolescência, redescobri a música brasileira na universidade. Quando comecei a trabalhar numa Feltrinelli [grande rede italiana de livrarias], peguei o hábito de escutá-la sempre que podia. À noite, ficava sozinha na loja e punha Caetano para tocar, ou mesmo Cesária Évora e outros fadistas, como Amália Rodrigues e Dulce Pontes.

Eu me sentia muito atraída pela língua portuguesa, que infelizmente ainda falo mal, mas principalmente pelo português que se fala no Brasil: uma língua mais aberta, de um país que faz atravessar mundos.

AC  Mas por que decidiu escolher justamente o Caetano? 
IS  Sinto como se o Caetano já fosse amigo meu: quando estou triste, basta ouvir uma música dele para ficar bem. As letras das canções dele são muito profundas, ainda hoje as estudo e a cada releitura descubro coisas novas. Sempre que ele vem à Itália dou um jeito de ir a um show, e é inevitável que eu reconheça os outros fãs de carteirinha, que o acompanham da Piazza del Popolo ao Umbria Jazz. Somos praticamente stalkers

A sua popularidade na Itália aumentou com os anos, principalmente depois de Fale com ela, do Almodóvar. Eu me lembro das senhoras que vinham à livraria atrás da trilha sonora do filme, por causa da música-tema, “Curucucu, Paloma”, que é interpretado pelo Caetano. Eu fazia de tudo para convencê-las a comprar um álbum dele ou ao menos uma coletânea dos maiores sucessos, mas não adiantava: só queriam aquela.

AC  Certa vez a sra. contou que começou a estudar árabe aos vinte anos, mas que deixou os estudos porque se apaixonou pela Espanha. Deixou um estudo mais próximo às raízes da sua família para seguir uma paixão sua…
IS  As raízes são importantes e, como a minha família é muçulmana, fui impregnada de cultura árabe desde criança. É uma cultura muito interessante e não me arrependo de ter estudado o idioma, que conhecia só um pouco. O mundo latino, por sua vez, me atraía mais porque era diferente de mim, mas também próximo em alguns temas: o Brasil é mestiço, o que me faz enxergar muitas coisas em comum.

“Eu via nas letras de Caetano que no Brasil as mulheres negras são consideradas bonitas, e isso fez com que me sentisse acolhida”

Fiquei muito tocada quando descobri que no Brasil as mulheres negras são consideradas bonitas. Mesmo sabendo que existe um forte racismo no país, eu via nas letras de Caetano e nos textos de outros autores que as mulheres negras são bonitas, e isso fazia com que eu me sentisse acolhida.

Além disso, quando eu era criança se falava muito mais de América Latina na Itália, de uma forma que não encontra paralelo hoje. Vinham muitos refugiados, o próprio Chico Buarque esteve exilado em Roma. Eu me lembro dos argentinos, nicaraguenses, brasileiros nas ruas: eram refugiados assim como os somalis e os eritreus, assim como os meus pais. Depois, houve um período em que todos os cantores brasileiros vinham para cá, não só os mais famosos. Vieram Lenine, Djavan… Não perdi nenhum desses shows.

AC  E agora vão publicar Adua no Brasil, que faz parte da sua linha black.
IS  Carrego essa pequena missão comigo, de construir a história da black Italy, de contá-la aos poucos, um período por vez, por meio de romances históricos. Mesmo quando escrevi para crianças, como em Prestami le ali, storia de Clara la rinoceronte [Empreste-me as asas, a história de Clara, a rinoceronte], contei a história de um menino que era um escravo negro, retomando a história dos “mouros venezianos”. Sinto que uma parte minha nunca vai deixar de se dedicar ao colonialismo italiano porque essa é uma história inacreditavelmente inexplorada, da qual se sabe muito pouco. É um lado oculto, porém importantíssimo, porque a unificação da Itália coincide com o início do colonialismo. 

“Minha missão é construir a história da Black Italy aos poucos. O tema do colonialismo italiano é inacreditavelmente inexplorado”

Um Estado recém-nascido constrói a sua identidade ao entrar em conflito com outro, e esse é o tema de fundo do colonialismo: nasce quando um país quer tomar recursos de outro, mas também serve para construir uma identidade nacional. Em 1861 ocorre a unificação da Itália e logo o colonialismo, e logo as derrotas: o meu próximo romance começa justamente do fracasso em Dogali [em 1887, quando as forças de ocupação italianas na Etiópia foram subjugadas pelos nativos]. 

AC  Por que hoje é importante falar sobre o passado?
IS  São histórias muito importantes para entender o modo de ser de um Estado fronteiriço. Hoje a Itália tenta renegar a sua identidade de ponte entre a Europa do norte e a África e, quando faz isso, renega a si mesma. Estudar o colonialismo explica muitas coisas sobre contradições nacionais, e também sobre o mau relacionamento com os outros — os imigrantes e os países do resto da Europa. 

O discurso de posse do novo primeiro-ministro [o advogado Giuseppe Conte, empossado em 1º de junho após ser indicado pela coalizão vencedora das eleições, entre o Movimento 5 Estrelas, que se diz apolítico, e a Liga, de extrema-direita] foi esquizofrênico: de um lado, comoveu todo mundo ao lembrar a história do trabalhador negro assassinado na Calábria um dia antes, fala à qual até o Salvini [Matteo Salvini, ministro do Interior e líder da Liga] aplaudiu de pé, e disse não ser racista; pouco depois, criticou ONGs por facilitarem o fluxo de imigrantes. 

A Itália é usada pela Europa como um Estado-tampão no que diz respeito à imigração, que é um fenômeno sazonal. Foi assim no século 19, quando aspirava se tornar uma potência colonial e foi atropelada pelos outros países do continente. Salvini ainda não entendeu que aquilo que ele quer é o plano da Europa há muito tempo: transformar o sul da Itália em uma colônia penal, repleta de centros de detenção criados para trancafiar os imigrantes recém-desembarcados, apenas esperando o momento certo de deportá-los para os seus países de origem. Não só a Itália meridional merece um destino diferente, mas também os imigrantes. Se a travessia dos negros e dos árabes se tornou o pesadelo que é hoje, é porque nós criamos as condições para isso a partir do colonialismo. 

Por isso é importante me dedicar à black Italy, às relações históricas entre brancos e negros, ou entre a África e os italianos — que não são tão brancos quanto pensam. Estudar a história do colonialismo significa me dedicar àquilo que somos hoje — e quando digo “nós”, não falo apenas de mim, que sou negra, mas de todos os italianos. É um momento em que o Estado-nação está em crise no mundo inteiro.

AC  É por isso que os seus livros, mesmo ligados a temas tão italianos, geram interesse no exterior?
IS  Isso é maravilhoso para mim. Fiquei verdadeiramente surpresa quando começaram a traduzir Adua para certos idiomas. Para o inglês eu já esperava, porque na Inglaterra há uma tradição em estudos pós-coloniais. Agora, quando vieram as versões em croata, português, sueco, fiquei intrigada: quer dizer que estamos todos nos perguntando sobre as mesmas coisas, que as dinâmicas do colonialismo são semelhantes em todas as partes.

“O plano da Europa é transformar o sul da Itália numa colônia penal, repleta de centros de detenção construídos para trancafiar imigrantes”

Em Adua, minha intenção não foi fazer um ensaio histórico (já tinha feito isso em outras ocasiões), mas um romance que falasse de uma condição existencial comum a todos os imigrantes: a do sonho. Adua, a protagonista, imigra porque sonha fazer cinema, mas o seu sonho acaba mal. O fato é que, como diz a filósofa Donatella di Cesare, o imigrante mostra a fragilidade das fronteiras do Estado-nação. Para mim é muito importante refletir sobre os efeitos causados pelas fronteiras no corpo dos imigrantes. Quem sobrevive à travessia chega em condições de enorme vulnerabilidade, como procurei retratar em Adua: é por isso que te esmagam, como fazem com a protagonista, que no final das contas acaba se tornando uma atriz de filmes pornográficos.

AC  No entanto Adua continua na Itália, e muda profundamente…
IS  No livro eu procurei tocar em um assunto do qual nunca se fala. Europeus e africanos sempre são concebidos como dois times de futebol compactos, mas na verdade há grandes diferenças no interior desses grupos. Por isso eu mostro a relação entre Adua e o personagem Titanic: ele mal chegou, fez a travessia numa embarcação precária, passou pelo campo de concentração etc.; e ela, que é negra e somali como ele, tenta tirar vantagem dele, colonizá-lo, porque se sente superior, o que faz com que ele também a trate mal.

Muitos jornalistas ficaram atônitos porque escrevi um livro no qual o imigrante não é bonzinho, mas a imigração não é boa nem má. As pessoas são assim.

Não escrevo para sustentar uma tese do tipo “os imigrantes são bons, abramos todas as fronteiras”. Escrevo para procurar uma rota de saída desse impasse mundial, quero contribuir para a reflexão com os meus romances. Por isso escolho personagens complexos, cheios de contradições.

“Muitos ficaram atônitos porque escrevi um livro em que o imigrante não é bonzinho, mas a imigração não é boa nem má. As pessoas são assim”

AC  O personagem do pai de Adua também é muito ambíguo.
IS  Vi tanta gente como ele, pessoas que lamentam o colonialismo ou que mentem sobre o próprio passado, que dizem que combateram os fascistas na Itália ou na Somália quando na verdade eram colaboracionistas. Essa sempre foi uma zona cinzenta. E hoje existe uma confusão tremenda. Outro dia, no hospital, ouvi umas senhoras conversando. Em determinado momento, começaram a elogiar Mussolini e, logo depois, começaram a falar dos alemães, os patrões da União Europeia: “Eles deveriam ficar calados, porque não sabem fazer a guerra. Nós, italianos, mostramos como é que se faz na época da resistência [à ocupação nazista na Segunda Guerra], deveriam aprender conosco”. Ou seja, na mesma frase reivindicaram Mussolini e a resistência, para elas era tudo a mesma coisa. Da minha parte, nessa confusão toda interessa traçar uma linha: nós, negros italianos, existimos. Porque parece que nem todo mundo entendeu isso na Itália. Somos negros e somos italianos: começamos daqui. [Tradução de Antonio Mammi]

Quem escreveu esse texto

Angiola Codacci-Pisanelli

É editora de cultura do jornal italiano L'Espresso.

Matéria publicada na edição impressa #13 jul.2018 em junho de 2018.