Fichamento,
Maria Fernanda Maglio
A defensora pública e escritora premiada mistura tempos e histórias de um adolescente que mata e um escritor em crise
01mar2026 • Atualizado em: 24abr2026 | Edição #103Em Lá é o tempo (Todavia), a autora de Enfim, imperatriz (Prêmio Jabuti, 2018) e 179. Resistência (Prêmio Biblioteca Nacional, 2020) usa fabulação e vivências para falar do que é humano no sentido mais cru.
O que há da Maria Fernanda defensora pública neste livro sobre um adolescente réu confesso?
Sou defensora desde 2007 — minha literatura está muito impregnada dessa vivência, como a parte [do romance] em que o André vai para a Fundação Casa, que visitei muito. Quando entrei na defensoria, eu fazia a defesa de adolescentes em conflito com a lei. Sempre quis trabalhar na área criminal, talvez por meu interesse pelo que é humano no sentido mais cru e bruto, da violência, do que o ser humano é capaz de fazer. Aparece na minha literatura sem que eu tenha intenção — quando vejo, já está escrito, a história vai por esse caminho.
Como surgiu o André?
Lá é o tempo começou pelo garoto pobre, franzino, sem pai, que vive em uma cidade do interior, assim como a minha. Eu sou de Cajuru (SP) — de alguma maneira todas as minhas histórias se passam lá. O André teria doze anos, achei pouco, coloquei treze. Ainda acho muito jovem, mas vi no meu trabalho meninos muito pequenos, cheios de contradições, que foram capazes de matar. O André nasce um pouco das lembranças desses adolescentes que atendi e dos garotos e das garotas com que convivi na escola, em Cajuru.
Teve vontade de “salvar” esse personagem?
Sempre tento evitar uma narrativa moralizante, ter pena do personagem. Deixo a história se encaminhar, e isso me liberta da tentação de salvar o personagem, de não o expor a determinados sofrimentos. A princípio, o André não iria matar, mas [o homicídio] foi se delineando, como se eu tivesse descoberto uma história já pronta. É uma construção, óbvio, tudo é ficção. Não escrevo nada autobiográfico. Tem minhas vivências, mas os personagens não são inspirados em ninguém — é sempre invenção. Gosto da fabulação.
Há a sobreposição da história do André à do escritor que tenta entender o crime anos depois. Como surgiu esse escritor, que é também protagonista?
Para contar a história de André, imaginei depoimentos de pessoas envolvidas na época do crime [o advogado, o amigo de infância], sem dizer quem ouvia os depoentes. Mas surgiu o escritor que queria entender essa história, procurou essas pessoas e ouviu os depoimentos. Quando ele virou personagem, pensei: “Que coisa mais clichê, um romance sobre um escritor em crise criativa!”. Mas não sou eu, não é meu alter ego, não tem nada a ver comigo.
Você gosta mesmo de escrever o outro, não é?
Gosto de flertar com esse outro tão próximo e tão diferente, capaz de matar ou de largar tudo para investigar uma história. Tenho uma questão: minha sanidade mental foi conquistada a duras penas. Desde nova tenho um transtorno de despersonalização, uma sensação de não reconhecimento com que aprendi a lidar. Escrita é despersonalização, mas para mim foi uma redenção — até dediquei o livro ao transtorno. Meu medo da loucura é real. Ao escrever, pude fazer esse deslocamento para o outro, que é uma maneira de ficar mais em paz. O fazer literário em si já é uma ruptura.
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Este é um romance de personagens masculinos. Como foi encontrar esses protagonistas?
Pouco depois de terminar de escrever, alguém me disse que gostava de me ler porque sempre falo sobre mulheres. Pensei: “Caramba, [no novo romance] são todos homens, vou ser cancelada” [risos]. Se tivesse percebido antes, talvez tentasse introduzir uma mulher, mudar o rumo da história. Hoje, tenho consciência de que a história é essa, os personagens são esses e pronto.
Matéria publicada na edição impressa #103 em março de 2026.
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