Literatura japonesa,

O escritor e seu duplo

No papel e nas telas, mangá reinventa autores como Dostoiévski, Fitzgerald e Poe e conquista ‘nerds de literatura’ mundo afora

01mar2022 - 04h51 | Edição #55

Às margens de um rio qualquer, iluminado pela luz poente e alaranjada do entardecer, um jovem rasteja enquanto, imerso em seus devaneios, conserva a lembrança de quando comera uma deliciosa tigela de chazuke — típico prato nipônico composto de chá verde ou água fervente, arroz cozido e toda sorte de complementos, como algas, ameixas em conserva, picles ou frango. Essa figura, contudo, não só está faminta como completamente empobrecida e surrada, e apenas uma ideia lhe vem à mente: roubar a carteira do primeiro transeunte que encontrar.

Para seu infortúnio — ou não —, a primeira pessoa que encontra está se afogando e descendo rio abaixo, e ele não pensa duas vezes em resgatá-la. Descobre que o afogamento não fora acidental, mas a tentativa de suicídio de um rapaz que recrimina seu salvador por tê-lo socorrido. Por algum motivo, o excêntrico suicida simpatiza com o jovem e, percebendo o roncar de sua barriga, oferece-lhe dezenas de tigelas de chazuke, alimento que oferta com o dinheiro de seu colega de trabalho que, repentinamente, aparece à sua procura. Sentados em um bar, papo vem e papo vai, enquanto se empanturra de comer, o jovem descobre que os dois colegas que acaba de conhecer são da Agência de Detetives Armados — ou seja, investigadores especializados em casos perigosos que possuem habilidades especiais — e que estão à procura de um tigre devorador.

Eis um resumo do primeiro capítulo do mangá Bungo Stray Dogs, escrito por Kafka Asagiri e ilustrado por Sango Harukawa, que à primeira vista não possui nada de muito atípico em relação à vasta gama de quadrinhos japoneses disponível no mercado editorial, seja brasileiro ou internacional. Tudo o que se segue na narrativa é relativamente formulaico, genérico, comum e convencional — o que, é claro, não é necessariamente negativo. É tudo o que se espera de um mangá de batalhas e lutas focado em um público masculino.

A quadrinização, os traços, os protagonistas e antagonistas, os alívios cômicos, os arcos e as sagas: nada transgride o paradigma estabelecido em torno desses mangás de apelo comercial. Em Bungo Stray Dogs, somos arrastados para uma história recheada de frases de efeito, ataques nomeados, organizações maléficas, vilões a sangue-frio, passados tristes e trágicos e heróis com um forte senso de determinação, companheirismo e justiça.

O trunfo da obra é operar de forma bem peculiar a imitação de determinados elementos de outra mídia na sua própria

O grande trunfo e diferencial da obra, no entanto, consiste em operar, de forma bem peculiar, aquilo que a crítica literária alemã Irina Rajewsky — no belíssimo texto “O termo intermidialidade em ebulição: 25 anos de debate” — chamou de “referências intermidiáticas”, isto é, a tematização, evocação, imitação e simulação de determinados elementos, técnicas ou estruturas de outra mídia na sua própria.


Akiko Yosano, personagem de Bungo Stray Dogs inspirada na escritora, e a cosplayer Marjory Rebelo [Estúdio Bones/Reprodução]
 

No mangá, essas referências são sobretudo literárias e constituem o átomo irredutível da obra, manifestando-se em múltiplas veredas. Por exemplo, o próprio termo Bungō (文豪) é utilizado para designar mestres da literatura, que, unido a stray dogs (cães de rua), forma um título cuja tradução poderia ser algo como “Mestres literários sem dono”, ou “Mestres literários errantes. Além disso, a própria escolha do autor de adotar como pseudônimo o nome de Kafka, o célebre autor de A metamorfose, não é desproposital.

Metalinguagem

Ao longo da trama, as referências são indispensáveis para a caracterização, adjetivação e construção dos personagens. Todas elas possuem, invariavelmente, os nomes de escritores monumentais da literatura japonesa e também mundial. O rapaz que tenta se afogar no primeiro capítulo se chama Osamu Dazai, autor de Declínio de um homem (Estação Liberdade), conhecido por sua relação obsessiva com o suicídio — ele morre em 1948, após se lançar no canal Tamagawa de Tóquio, junto de sua esposa Tomie Yamazaki. Não por acaso, no mangá, Dazai faz, de forma bastante cômica, inúmeros convites de duplo suicídio para as mulheres com quem esbarra.

O protagonista da obra atende pelo nome de Atsushi Nakajima, outro notável escritor japonês do século 20. Um dos pontos altos da narrativa é quando, abraçando uma verve altamente metalinguística, só encontra forças para continuar ao se lembrar de uma frase que lera, veja só, em um empoeirado livro de seu orfanato: o Luz, vento e sonhos, de autoria de Atsushi Nakajima.


Personagem da série inspirado no escritor Osamu Dazai. [Estúdio Bones/Reprodução]

Foi justamente o apelo aos grandes nomes da literatura que atraiu a professora de língua estrangeira Marjory Rebelo, 27, da capital paulista, ao mundo do Bungo Stray Dogs. “Tem as lutas empolgantes, os superpoderes, mas tem os relacionamentos dos personagens uns com os outros, e, para quem é nerd de literatura como eu, tem as referências aos escritores”, diz ela a esta reportagem.

Marjory é tão “nerd de literatura” que ficou conhecida no fandom da obra após gravar um vídeo abordando a relação entre o personagem Dazai e o Dazai escritor. Ela também alimenta o podcast Bungaku nerd, no qual relaciona os personagens e os autores em que foram inspirados. “Eu já começo as conversas [sobre Bungo Stray Dogs] dizendo para a pessoa não me dar corda, porque vai virar basicamente um ted Talk.”

Marjory também faz parte do grupo dos cosplayers de Bungo Stray Dogs. Aos que estiveram dormindo nos últimos vinte anos, o cosplay, termo derivado do inglês, nada mais é do que a junção das palavras costume e roleplay — ou seja, é quando fãs de determinado produto da cultura pop se caracterizam como os seus personagens favoritos e os interpretam. Marjory, por exemplo, faz cosplay de Dazai e de Akiko Yosano (pseudônimo usado pela poeta japonesa Yosano Shiyo). “Eu acabei me envolvendo mais com o Dazai por inúmeras razões. Adoro ir de cosplay para eventos e interpretá-lo, interagir com as pessoas e usar a fachada de ‘homem bonito de desenho animado’ para convencer a galera a ler as coisas que um escritor emo do século 20 escreveu”, brinca.

Ao contrário de Marjory, que teve a literatura como ímã para o universo de Bungo Stray Dogs, o visual dos personagens da série foi a primeira coisa que saltou aos olhos do comissário Lorenzo Andrade, 26, de Salvador. Mas não demorou para que ele se rendesse aos encantos da poesia de Chuuya Nakahara — que, na franquia, rivaliza com Osamu Dazai, e de quem Lorenzo faz cosplay. “Infelizmente alguns autores, como o Chuuya Nakahara, possuem obras mais complicadas para pessoas do Ocidente, mas nada que o coração de um fã aficionado não suporte”, conta.

Francis Scott Fitzgerald surge como um poderoso magnata e Fiódor Dostoiévski se mostra um exímio jogador de carteado

Fiódor Dostoiévski, outro personagem do mangá, virou não só presença garantida na estante de Lorenzo como também inspirou o nome do ratinho que adotou, o Fyodor. “Eu amo todos os personagens de Bungo, todos são como bebês para mim.”

Velha guarda refeita

No posfácio do primeiro volume, Kafka Asagiri fala sobre a anedótica motivação para criar o mangá: pensou como seria cool se a velha guarda de poetas e romancistas japoneses fosse refeita como homens jovens dotados de superpoderes. A comissão editorial da revista japonesa Young Ace, que o publica, teria ido à loucura com a ideia. Aos poucos, diversos escritores internacionais consagrados também passaram a ocupar o espaço da narrativa.

É o caso de Francis Scott Fitzgerald, que surge como um poderoso magnata, em uma analogia crassa ao famoso Jay Gatsby de seu livro mais célebre. Dostoiévski, com um poder chamado crime e castigo, em dado momento se mostra um exímio jogador de carteado. H. P. Lovecraft tem como poder principal a capacidade de gerar tentáculos grotescos, assim referenciando o Cthulhu. Herman Melville é capaz de invocar uma monumental nave em formato de baleia chamada, é claro, Moby Dick.

Vez ou outra, vale salientar, essas referências intermidiáticas saem do escopo da literatura e passam para os domínios de outros campos artísticos. No sétimo volume da saga, por exemplo, o protagonista salva um bebê cujo carrinho desce freneticamente por uma escada, mimetizando a clássica cena da escadaria de Odessa, do filme Encouraçado Potemkin, de Serguei Eisenstein.

“Meu escritor favorito hoje é o Dazai, e eu dei Declínio de um homem de presente pra pelo menos sete amigos”, conta Marjory. Ela também fez a tradução de um dos contos do escritor japonês para o português brasileiro e no momento relê Hamlet, de William Shakespeare, para poder comparar com a versão de Dazai.

Tanto os aficionados de mangás quanto os leitores de obras canônicas entram no ringue para contemplar ambas as mídias

Outra fã e cosplayer de Bungo Stray Dogs é Asuka Calestini, 23, de São Paulo, estudante de jornalismo e intérprete de Chuuya Nakahara. Depois de conhecer a série, adicionou à sua lista de leitura os autores Dazai, Dostoiévski, Ryunosuke Akutagawa, Lucy Maud Montgomery e Edgar Allan Poe. Participante ferrenha do fandom do mangá nas redes sociais, elu conta que, por enquanto, pelo menos no Brasil, a história é mais conhecida por adolescentes na faixa de quinze a dezoito anos, que dialogam entre si principalmente via Twitter.

Bungo Stray Dogs foi lançado em 2012 na revista Young Ace — conhecida também por publicar Another, de Yukito Ayatsuji, Erased, de Kei Sanbe, e Kill La Kill, de Ryo Akizuki —, e a história segue sendo serializada em suas páginas. No Brasil, os volumes são licenciados e publicados pelo Planet Manga, um dos selos da Panini.

Nas telas

Desde 2016, o estúdio de animação japonês BONES — reconhecido por produções como Fullmetal Alchemist Brotherhood e Boku no Hero Academia — vem adaptando Bungo Stray Dogs para o universo audiovisual. A série já conta com três temporadas, e a quarta está em produção.

O grande mérito da animação é funcionar como uma dupla porta de entrada: ao empreender suas referências intermidiáticas e juntar uma miríade de personalidades literárias, mesmo recorrendo a tropos e clichês um tanto quanto exaustivos, ela convida tanto os aficionados de mangás de batalha quanto os inflexíveis leitores de obras canônicas a entrar no ringue para contemplar ambas as mídias.

Aos fãs entrevistados, esta reportagem perguntou quais autores brasileiros teriam potencial para competir em batalhas com Dazai e companhia. O baiano Jorge Amado foi o palpite de Lorenzo, Azuka apostou em Augusto dos Anjos e Marjory em Clarice Lispector: “Ela seria amiga de Akiko e elas reclamariam juntas das coisas enquanto bebem vinho”. A unanimidade entre os três foi o implacável Machado de Assis. Às editoras que publicam o Bruxo do Cosme Velho em outros idiomas, que tal enviar uma cópia de Memórias póstumas de Brás Cubas para os endereços de Kafka Asagiri e Sango Harukawa?

Essa editoria tem apoio da Japan House São Paulo.

Editoria com apoio Japan House São Paulo

Desde 2019, a Japan House São Paulo realiza em parceria com a Quatro Cinco Um uma cobertura especial de literatura japonesa, um clube de leitura e eventos especiais.

Quem escreveu esse texto

João Gabriel Ribeiro Passos

É crítico literário.

Clara Rellstab

É jornalista, roteirista e repórter do Uol.

Matéria publicada na edição impressa #55 em outubro de 2021.