Literatura brasileira,

O herói sem apreço

Mário de Andrade reforçou em ‘Macunaíma’ o sentimento anti-indígena dos brasileiros, que quase um século depois persiste

01set2021 - 07h26 | Edição #49

Há tantos deuses e deusas morando no universo que levaríamos um pedaço bem grande da eternidade para contar apenas um punhado deles e imaginar seu imensurável poder criador. Eles formam planetas e planícies galácticas, com todos os seres, e ainda luas, sóis, estrelas e asteroides, enquanto no tempo vago se amam e dão lua a semideuses inquietos, que crescem brincando de deusinhos. Explicá-los é impossível. É nessa mistura densa, confusa e cheia de mirabolâncias que se baseia a existência. Criamos um criador para chamar de nosso, e ele passa a ter nome, função e influência nas ações, nas omissões, na individualidade e na coletividade.

Assim nasce um povo — um povo completo, com língua, espiritualidade e conhecimentos suficientes para manter-se vivo, suprindo suas necessidades e curando suas enfermidades. Na criação do povo hebreu, o primeiro homem nasceu do barro, e a mulher de sua costela. O povo Jabuti, de onde é hoje o estado de Rondônia, nasceu de uma árvore de pedra. O povo Wapichana, que mora perto do imponente monte Roraima, nasceu do namoro entre o Sol e a Lua. Você nem precisa acreditar, mas é poético.

É nesse contexto das interações entre criaturas e criadores no tempo mágico ancestral que nasceu Makunaima. Uma divindade brincalhona; ora menino, ora homem. Num instante era provedor de sua casa; noutro, malandro, enganador. Com o seu poder de deusinho, podia até morrer e ressuscitar. Em uma de suas traquinagens, pegou a ponta de uma flecha, triturou-a com as próprias mãos e soprou, criando todos os mosquitos que picam. Transformou bichos e gente em pedra. Junto de seu irmão Jiguê, cortou a árvore gigante Wazaká, que dava todos os frutos doces que conhecemos, e lá fez sua morada da eternidade.

Foi do tronco dessa árvore (o monte Roraima) que nasceram as águas dos igarapés, rios e lagos de toda a região da tríplice fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana, onde vivem muitos povos indígenas — Wapichana, Ingarikó, Macuxi, Taurepang, Pemom — que têm Makunaima como uma divindade viva, que vela pelos povos e criaturas daquela vasta região.

As histórias possuem seus lugares de origem, mas são livres como o tempo e viajam como vento por meio de seus hospedeiros. Foi assim que, de 1911 a 1913, o etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg se tornou hospedeiro das histórias de Makunaima, narradas por Aculi, do povo Taurepang, de Roraima, e levou-as para a Alemanha para serem publicadas em 1917.

Em 1924, Theodor retornou ao Brasil para uma expedição para cartografar o rio Branco (Queçoene), junto com o norte-americano Hamilton Rice e o brasileiro Silvino Santos. Acometido de malária, faleceu naquele ano e foi enterrado na vila de Vista Alegre, no município de Caracaraí-Roraima, às margens do rio Branco, a algumas centenas de quilômetros de onde recebeu a história do menino-homem-entidade Makunaima.

Sagrado ancestral

Quando falamos de Makunaima, falamos de uma entidade madura e poderosa. Não enxergamos o menino traquino. Respeitamos o sagrado ancestral e dele cuidamos. Os povos indígenas têm bem definidos suas espiritualidades, seus criadores e suas histórias, e se orgulham de sua ancestralidade — diferentemente do Brasil português, que tem na sua origem violências contra os moradores destas terras. Um povo sem identidade ou nacionalidade é um povo que tem vergonha de ter nascido de gente indígena e preta, estuprada pelos portugueses, e que mesmo depois da tal independência ou morte teve herdeiros brancos que continuaram dominando a política e as riquezas do país.

Os indígenas se orgulham de sua ancestralidade, diferentemente do Brasil português, que tem a violência na sua origem

É nesse emaranhado cultural que nasce, no final dos anos 20, pelo gênio criador Mário Raul de Moraes Andrade, o deusinho Macunaíma, em referência ao nosso Makunaima, deslocado de Roraima por Theodor Koch-Grünberg. Sem o etnólogo, não existiria Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. A história foi escrita em seis dias e noites de riso e choro dentro de uma rede, enquanto Mário se recuperava de uma doença na casa de seu tio, em Araraquara (SP).

O autor revela por meio desse livro, publicado em 1928, a identidade do povo brasileiro e suas mazelas, concentradas especialmente nos políticos. Mas Mário estava tão focado em falar das muitas facetas e gentes deste grande Brasil que não se deu conta de que Makunaima pertencia ao sagrado de alguns povos indígenas. A forma como descreveu Macunaíma reforçou o sentimento anti indígena dos brasileiros, que ainda persiste 93 anos depois da publicação do célebre livro.

A mistura dos diversos personagens indígenas, como muiraquitã, ceuci e Tainakã, fortalece a ignorância e a falta de humanidade dos não indígenas, que acham que esses povos, cada um com sua língua e cultura, são todos iguais. Acreditam que são preguiçosos, sujos, selvagens, incultos, gente do passado que atrapalha o progresso por cuidar do lugar onde mora, por lutar para que seu berço não dê lugar ao agronegócio, a madeireiros, garimpeiros e grileiros que matam tudo o que mora nas florestas e nos rios e enchem seus bolsos de dinheiro enquanto piora o problema climático no mundo. Para a sociedade sempre beneficiada, branca, o clássico Macunaíma retrata de forma lúdica o que é o povo, o jeitinho brasileiro e suas facetas. Mas o livro reflete o desprezo da sociedade para com os indígenas e está carregado de estereótipos, racismo e preconceitos, marcas dos empoderados de pele clara.

Mário, você chegou pertinho da casa de nosso Makunaima quando foi até o Amazonas. Era só um pulinho e teria tido a oportunidade de conhecer os povos indígenas e seu sagrado Makunaima. Digo que teria escrito um Macunaíma tão extraordinário que o povo brasileiro teria mais respeito e admiração pelos indígenas desta nação. Seu Mário, não tenho dúvidas de sua extraordinária capacidade intelectual, humana, artística, estética, pesquisadora, de inquietude visionária, nacionalista, regionalista, a ponto de valorizar as vertentes interioranas do Brasil e levá-las ao patamar do dito erudito. Não escondo minha absoluta admiração e meu respeito pelo legado deixado para o povo brasileiro com o modernismo.

Em versos, você pediu que, ao morrer, fosse sepultado em sua cidade, e que seus inimigos não fossem avisados. Afirmo que seu pedido foi atendido — foi enterrado na sua cidade e eles não foram avisados. Mas a sua existência permanece viva no mundo. E a sua morada do coração está aberta para todas as gentes e culturas.

Este texto foi feito com o apoio do Itaú Cultural.       

Quem escreveu esse texto

Cristino Wapichana

Escritor e músico, publicou A boca da noite (Zit).

Matéria publicada na edição impressa #49 em julho de 2021.