Literatura,

Como escrever bem

Não procure assunto, deixe as melhores partes fora da página, viva aventuras e mantenha um diário de sonhos

01jul2018 - 04h51 | Edição #13 jul.2018

A arte da escrita pode ser sintetizada a algumas regras básicas. Divido-as com vocês agora.

Regra número 1. Mostre o seu trabalho aos colegas. A maioria das pessoas diz que é melhor deixá-lo falar por si, mas acredito que deve ser mostrado aos colegas, pois quando os autores soltam o seu trabalho no mundo, são como crianças que levam para a aula os seus unicórnios quebrados e ursinhos de pelúcia mastigados, com a triste esperança de que alguém ame esses objetos tanto quanto eles. “O que trouxe para nós hoje, Marcy?” “Um penetrante estudo psicológico de um jovem estudante de medicina que recebe notícias perturbadoras de uma antiga amante.” “Maravilhoso! E você, Timmy, o que tem nas mãos?” “Uma brincadeira ao estilo de Calvino numa metrópole parecida com Nova York, narrada por um tatu.” “Quanta imaginação!” Mostrar aos coleguinhas e, em seguida, vamos nanar.

Regra número 2. Não procure o assunto, deixe que o assunto o encontre. É impossível apressar a inspiração. Como acha que Capote teve a ideia para A sangue frio? Era apenas um dia como outro qualquer quando ele apanhou o jornal para ler o horóscopo, e ali estava: o destino. O assombroso relato de um homicídio múltiplo, uma expedição fracassada ao Everest, ou uma animada família de cantores tentando escapar da Áustria quando os nazistas invadem: depois que o assunto o encontra, é como se apaixonar. Ele será a sua companhia constante, feito uma sombra, olhando pelas janelas da sua casa, chamando-o o dia todo para deixar recados como “só você me entende”. O seu assunto ideal deve ser como um caçador dotado de recursos ilimitados, vivendo da herança que recebeu após a surpreendente morte súbita do pai. Fica no seu apartamento, mexendo nas suas coisas quando você não está por perto, usando a sua escova de dentes e cortando todos os sinônimos mais úteis do dicionário. Não tenha medo: você tem um best-seller nas mãos.

Regra número 3. Escreva sobre aquilo que você sabe. Bellow disse: “Ficção é uma autobiografia mais elevada”. Em outras palavras, a ficção é o revide contra aqueles que nos fizeram mal. Quando as pessoas leem os meus livros Meu professor de educação física era um valentão abusivo e Ela os chamava de couve-de-bruxelas: o relato de um sobrevivente, volta e meia se surpreendem quando digo que as obras contêm um elemento autobiográfico. Ouso dizer que é aí que jaz a arte. Como transformar aquilo que faz parte do seu dia a dia no material de que é feita a literatura? Ouça o seu coração. Pergunte ao seu coração: é verdadeiro? E, se for, que assim seja. Depois de conversar com os advogados, é só começar.

O bloqueio criativo é igual a “não conseguimos uma babá” ou “comi um camarão estragado”, desculpa que é sempre aceita

Regra número 4. Nunca use três palavras quando basta apenas uma. Mantenha a concisão. Não se apaixone pelo doce gotejar de suas frases melífluas. Aprenda como “matar as suas queridinhas”, como se diz. Lembro-me da famosa interação entre Gordon Lish (editor) e Ray Carver (autor) quando trabalhavam no celebrado conto de Carver “Esses salva-vidas são apenas para demonstração”, muitas vezes considerado o ponto alto do chamado realismo sujo. Todos se lembram do clímax da história, quando dois pescadores bêbados tentam acalmar um ao outro diante do surgimento de um vazamento no bote. Nas últimas falas da história original, Nat, o mal-humorado corretor de seguros, garante ao jovem de quem toma conta, com os dois agarrados ao cooler de cerveja: “Encontraremos ajuda quando chegarmos à terra firme. Tenho certeza. Chega de ondas gigantes, chega de tubarões. Estaremos a salvo novamente. Estaremos em casa”. Se examinarmos os papéis de Lish na Biblioteca Lilly, da Universidade de Indiana, veremos que, com algumas canetadas precisas, Lish enxugou isso para criar o lendário final: “Socorro: tubarão terrestre!”. Não era o que Carver pretendia, mas poucos poderiam criticar a decisão. Aprenda a matar as suas queridinhas, e não tenha medo de enfraquecê-las no cativeiro por alguns dias antes de liquidá-las de vez.

Regra número 5. Mantenha um diário dos seus sonhos.

Regra número 6. O que não é dito é tão importante quanto o que é dito. Em muitos contos clássicos, a ação de verdade ocorre nos silêncios. Tente manter as melhores partes fora da página. Um pouco de treino no “mundo real” pode ajudar. Da próxima vez que seu/sua cônjuge voltar para casa, ignore a sua existência por trinta minutos, então exclame “É isso!”, e passe com o carro sobre o gramado do vizinho. Quando os seus filhos vierem procurá-lo na hora de dormir, aperte os ombros deles com ênfase e, se for mulher, borre o batom com as costas da mão, ou, se for homem, chore violentamente até que eles digam “Está tudo bem, papai”. Beba em uma caneca lascada, lembrança de um passeio de fim de semana ou férias numa época mais feliz, que possa desencadear mais para a frente uma comparação de dois parágrafos com os contrastes entre os momentos. É mais ou menos como o método de interpretação. Simplesmente deixe que esse pensamento oriente cada gesto e palavra sua: “Há algo errado — pode adivinhar o que é?”. Se quiser algo um pouco mais pós-moderno, repita a sugestão acima, mas usando peixes.

Regra número 7. O bloqueio criativo é uma ferramenta: use-a. Quando perguntarem por que você não tem produzido nada recentemente, diga apenas “Estou com bloqueio”. Como a maioria das pessoas acha que escrever é algum tipo de processo místico no qual os personagens “conversam com você”, e no qual você pode ouvir as vozes deles na sua cabeça, ter um bloqueio é a desculpa perfeita para quando simplesmente não tem vontade de trabalhar. Há dias em que os deuses da criatividade o abençoa, e outros em que o abandona, não há nada a ser feito, etcetera e tal. O bloqueio criativo é igual a “não conseguimos uma babá” ou “comi um camarão estragado”, desculpa que é sempre aceita. Seja a companhia de eletricidade reclamando de contas atrasadas, seja a operadora de celular insistindo com algum plano, basta dizer “Estou com bloqueio” e pronto, eles o deixarão em paz. Mas não exagere. Assim como a desculpa da babá perde a credibilidade depois que as crianças crescem, há uma data de validade. Depois de vinte anos, talvez seja melhor variar a desculpa. Tente algo inspirado em Ellison, “Minha casa pegou fogo e destruiu a minha obra”. Os detalhes específicos não são importantes: o importante é descobrir o que funciona melhor para você.

Regra número 8. Essa é segredo.

Regra número 9. Viva aventuras. O caminho de Hemingway estava em ascendência durante décadas antes de ser eclipsado por “exercícios” fabulistas da moda. Mas o pêndulo está voltando nessa direção, e vai derrubar das cadeiras Aeron esses almofadinhas metidos. Adiante-se. Saia e veja o mundo. Endurecer um pouco não vai matar ninguém. Compre uma passagem num navio cargueiro. Contraia um pouco de disenteria: os delírios da febre valem a experiência. Perca um rim numa briga de faca. Depois você me agradece pela dica.

Regra número 10. Revise, revise, revise. É impossível exagerar na ênfase aqui. A revisão é o momento em que fazemos aquilo que deveríamos ter feito desde o começo, mas não fizemos. É como lavar a louça dois dias depois, em vez de logo após comer. Comece a contar os rascunhos. Remova uma vírgula e tire outra cópia: mais um rascunho. Faça isso vezes o bastante e esse número vai aumentar rapidamente, o que pode ser muito útil se alguém desafiá-lo para uma competição. Quando o juiz apitar e o seu adversário disser “26 rascunhos!”, você surpreenderá a todos com “216!”, vencendo por nocaute.

Regra número 11. Não há regras. Se todos pulassem de uma ponte, você faria o mesmo? Não. Não há regras além daquelas que aprendemos na época de trazer objetos para mostrar aos colegas da escola. Divirta-se. Se ninguém quiser ser seu amigo, não vale a pena ser amigo deles. Acima de tudo, seja você mesmo. [Tradução de Augusto Calil]

Quem escreveu esse texto

Colson Whitehead

É autor de A intuicionista (HarperCollins).

Matéria publicada na edição impressa #13 jul.2018 em junho de 2018.