Literatura,

A escrita andorinha de Paulina Chiziane

A vencedora do Prêmio Camões voa entre continentes e cria de forma tão visceral que nem se dá conta de estar a fazer a história

01jan2022 - 05h51 | Edição #53

O olhar penetrante e azul em meio ao rosto negro retinto é a primeira coisa que nos suga por completo. Depois vêm a sonoridade da voz suave, a presença imponente como quem carrega uma coroa invisível, não da forma arrogante como certos e certas monarcas, mas com a graça e a elegância de quem sabe equilibrar capulanas e sua bagagem ancestral. Essa majestade nata Paulina Chiziane, de 66 anos, se derrama na escrita própria de alguém que se sabe parte de um todo, integrante de uma parcela de humanidade carente não de voz, mas de ouvidos que escutem com qualidade.

A escuta qualitativa é um sentido que aguçamos à medida que avançamos nas linhas traçadas por ela. Caminhos que nos conduzem a um mundo que, deste lado do oceano, entre os formados por uma diáspora africana cruel e subestimada, nos parece por vezes estranho, por vezes amedrontador, por vezes fascinante, mas sempre revelador do que somos em nossa mais profunda essência.

Sobre seu primeiro livro, Balada de amor ao vento (1990), Paulina diz que não sabia ser um romance. Ela afirma ter pensado ser apenas uma história. Essa é a marca das pessoas geniais que criam de forma tão visceral que nem se dão conta de que estão a fazer a história. Uma autora moçambicana negra que nos anos 90 ousou falar de poligamia nos tempos coloniais, para além do talento literário, demonstra imensa coragem em colocar as mãos em um vespeiro.

Quando traz a poligamia e suas questões correlatas para o holofote, Paulina expõe uma instituição cara ao mundo masculino de seu local de origem explorada pela fantasia dos países que não a adotam. Como ativista pela libertação de Moçambique, a autora coloca corajosamente um elefante na sala de um país arruinado pela guerra e se debatendo com os conflitos gerados no período que se seguiu à independência.

Apesar de sua forte atuação junto à Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), para Paulina a política não era e segue não sendo um fim em si mesma. Ela a entende como algo importante e que gosta de fazer, mas não necessariamente à frente de movimentos e partidos tão sujeitos à sede humana de poder. Chiziane encontrou no mundo da escrita ficcional uma forma de fazer política, de pensar o país, sua comunidade, a si mesma e, dessa forma, o mundo. “Escrever é um ato político”, disse.

‘Quero a liberdade de poder mostrar à sociedade o lado positivo e o negativo das coisas e não escrevo para agradar a ninguém’

A ousadia, a coragem e a beleza das metáforas que estão em Niketche deram a Paulina, em 2003, o Prêmio José Craveirinha de Literatura, criado pela Associação dos Escritores Moçambicanos. A poligamia e as questões femininas servem nesse romance um prato muito especial, pois quando a protagonista Rami resolve saber quem é cada uma das mulheres de seu marido, Tony — o único personagem masculino do enredo —, há uma peregrinação pela diversidade cultural moçambicana e uma convocação pela união nacional representada por cada uma das mulheres da história. É uma narrativa bela, profunda, sensível e feminina como a dança niketche, do centro e norte do país, e outras retratadas na obra, mas não se destina só às mulheres. Homens são bem-vindos nessa reflexão necessária sobre a essência feminina.

O mergulho de Paulina é no corpo feminino. Especificamente o corpo feminino negro em um mundo colonial feito por brancos, ainda que em solo de gente majoritariamente negra. Em O alegre canto da perdiz (2008) é esse corpo negro solto nas mãos da afirmação da masculinidade negra e da branca o centro da cena. A mercantilização sistemática da mulher negra por gerações é toda a questão desse livro tão impactante, que foi logo seguido pelo As andorinhas (2009), uma fábula sobre a guerra e o poder.

Em 2016, com mais de duas décadas de carreira literária, Paulina anunciou: “Não volto a escrever. Basta!”. A metade da segunda década do século 21 pegou uma Paulina farta de ser enquadrada em papéis e estigmas que nunca quis para si. Em uma entrevista para o jornal O País, ela discorreu sobre os motivos do seu adeus às letras: “Infelizmente, nos países recém-independentes, a literatura não é um espaço de liberdade. No meu caso, por exemplo, tinha que escrever de acordo com as mil autoridades que o país tem. É a Igreja, a política ou as pessoas, tenho de as escrever bonitas por quê? Quero a liberdade de poder mostrar à sociedade o lado positivo e o negativo das coisas e não escrevo para agradar a ninguém.”

Essa exaustão é própria das que são postas involuntariamente na posição de referência ou alvo. Um cansaço que, como tudo na trajetória de Chiziane, clama por liberdade. A escrita de Paulina abarca todo esse mundo e muito mais. Ela nos faz ter certeza de que é necessário fazer esse caminho de volta ao continente negro que corre nas veias brasileiras, mas também reafirma a necessidade do movimento contrário, ou seja, da África que precisa se aproximar do Brasil. Em uma de suas passagens pelo país, Paulina afirmou que “me tornei mais atrevida em relação a minha escrita quando entrei em contato com os movimentos negros brasileiros”.

Prêmio Camões

Felizmente, para a alegria da arte, da literatura mundial e dos que a admiram, ela não conseguiu cumprir a promessa de abandonar a literatura e em 2017 lançou O canto dos escravizados, no Brasil lançado em 2018 pela editora Nandyala, que também editou As andorinhas. Seu grito segue ecoando tão intensamente que, em 2021, chegou aos ouvidos dos exigentes jurados da mais prestigiada láurea da língua portuguesa: o Prêmio Camões — segundo dizem, o autor português nascido no século 16 viveu certo tempo na Ilha de Moçambique. 

O prêmio pegou uma Paulina imersa em seu mundo, sem muitas expectativas. Ao ser anunciada vencedora, disse à imprensa que não contava com isso e que o reconhecimento não vinha para ela, mas para todo um povo. “O que tentei escrever nos diferentes livros é parte da nossa memória coletiva. Portanto, nunca falei na minha voz pessoal; mesmo nos livros em que escrevo na primeira pessoa, estou a trazer a voz coletiva.”

Qual pássaro que não aceita gaiola, a obra de Paulina voa entre continentes e parece seguir o ditado chope que abre seu penúltimo livro: “Se queres conhecer a liberdade, segue o rastro das andorinhas”.

Quem escreveu esse texto

Eliana Alves Cruz

É autora de Nada digo de ti, que em ti não veja (Pallas).

Matéria publicada na edição impressa #53 em outubro de 2021.