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Sedição no WhatsApp

Separatismo, unionismo e nem-aí-ismo nas discussões da microssociedade de um grupo de pais de uma escola em Barcelona

13nov2018 - 14h12 | Edição #7 nov.2017

O meu filho Mateo está no sexto ano primário em uma escola do bairro de Gràcia, em Barcelona. Além dele, tenho uma filha, Sofía, que estuda na mesma escola, no terceiro ano primário. No entanto, neste texto falarei só do Mateo, porque na divisão de tarefas com a minha companheira, Andreia, coube a mim o grupo de WhatsApp dos pais da classe do Mateo, e a ela o da Sofía. É, eu sei, o terror. 

Durante anos, houve três grandes hits nesse grupo de WhatsApp:

1) Piolhos. 
2) Roupas perdidas. 
3) Amanhã é dia de levar a flauta?

Tudo mudou na semana anterior ao 1º de outubro, data prevista para o referendo da independência da Catalunha — referendo que o Gobierno de España considera ilegal e que o Govern de Catalunya se empenhava em realizar, desobedecendo o Tribunal Constitucional, que havia suspendido a votação. De uma hora para outra, as mães que antes se ocupavam em recuperar moletons perdidos passaram a enviar mensagens a respeito de barricadas ou estratégias para panfletagem política, como se fossem revolucionárias na clandestinidade.

Como chegamos até aqui?

Gràcia é um bairro notavelmente independentista. Aqui vivem Anna Gabriel e David Fernández, líderes da CUP, o partido antissistema, e também Jordi Sánchez e Jordi Cuixart, “los Jordis”, Presidentes da Associação Nacional Catalã e da Òmnium Cultural, as duas entidades que mobilizaram a sociedade civil em manifestações massivas a favor da independência. Por sinal, enquanto escrevo estas linhas, recebo uma mensagem de WhatsApp que me informa que os Jordis acabam de entrar na prisão, incondicional e sem direito a fiança, acusados do delito de sedição.

Tudo começou na sexta, 29 de setembro, às 18h26: “Esta mensagem é para as famílias do sexto ano primário. Não é uma corrente. Não é da escola nem das representantes de classe. Nos pediram para informar que amanhã, sábado, às 11, haverá uma reunião das famílias interessadas em manter a escola aberta neste fim de semana (inclusive à noite) para fazer atividades. Se estiverem interessados, estaremos esperando vocês lá”.

Como assim? Uma festa noturna na escola, com afterhours incluído?

No domingo, 1º de outubro, a escola dos meus filhos seria um dos locais de votação no referendo, e as “atividades familiares” pretendiam ocupar a escola para impedir que a polícia a fechasse. Esta mensagem foi o gatilho inicial: os piolhos, os moletons perdidos e a dúvida sobre a flauta ficaram para trás. 

Barça-Madrid

Durante o 1º de outubro, recebi 174 mensagens no grupo do WhatsApp. Todas sobre política. Todas independentistas. As primeiras orientavam sobre os locais de votação. Depois, o tema foram as longas filas do lado de fora das seções eleitorais. Às onze da manhã, começaram a chegar fotos e vídeos da repressão: a polícia empurrando e batendo nos eleitores, inclusive em idosos. Às 11h44, a mãe do melhor jogador de futebol da classe fez uma avaliação triunfalista: “Pensem que o mundo inteiro vai ver isso. Ganhamos!”. A partir daí, a histeria:

17h32 “Tem uma barricada humana em Gran de Gràcia/Fontana que não deixa os carros passarem”.
17h38 “A polícia está em Gran de Gràcia… fiquem de olho…”.
19h08 “Estão encurralados em Gran de Gràcia…”.
23h43 “Não aguento mais. É uma vergonha, cansei. Vão à merda”.

No vaivém dessas 174 mensagens, houve duas baixas no grupo. Quer dizer, duas pessoas que o abandonaram. O fenômeno se chama “fratura social”: a divisão da sociedade catalã entre os independentistas, os unionistas e aqueles que não estão nem aí.

Lá pela mensagem 77, veio a terceira baixa: Eduardo, venezuelano, pai de gêmeas. Coitado: fugir de Chávez e Maduro para acabar nisso

Não consegui identificar um dos que abandonaram o grupo porque seu contato não estava na minha agenda. O outro era o Quique, pai do melhor amigo do Mateo, andaluz, nascido em Córdoba, e que mora em Barcelona há quinze anos. A mãe dos filhos dele é catalã. Para falar a verdade, não é a primeira vez que o Quique abandona um grupo de WhatsApp da escola. Há outro, só de pais, no qual se fala de futebol e trocam-se memes e pornografia. O Quique abandona esse grupo duas vezes por ano, nas vésperas do Barça-Real Madrid (depois voltam a convidá-lo). Ele torce pro Madrid e, de alguma forma, tudo o que aconteceu na Catalunha e Espanha nos últimos anos é como um Barça-Madrid muito comprido. Comprido demais.

Entre 2 e 7 de outubro, foram enviadas 123 mensagens políticas no grupo. Todas independentistas. Em 3 de outubro, lá pela mensagem 77, veio a terceira baixa: Emilio, venezuelano, pai de gêmeas. Coitado: fugir de Chávez e Maduro para acabar nisso.

As últimas mensagens, de 6 e 7 de outubro, caçoavam da manifestação “pela unidade de Espanha”, convocada para o domingo, dia 8. Diziam que de Madrid ou de Valencia sairiam ônibus cheios de gente que ia ao protesto fingindo viver na Catalunha.

No domingo, às 9h22, a mãe do Joan (que ela chama de Juan) ergueu a voz para defender os unionistas: “Vou com um grupo de pessoas na manifestação. Todos vivemos aqui e não viemos de fora. Estou em silêncio há dias, respeitando que o grupo do colégio seja usado para temas políticos, embora não esteja de acordo com esse uso”. De imediato, vários pais e mães se justificaram, falando que a situação era grave. Diziam que com certeza “todos” estavam indignados, que ali havia liberdade de expressão e sempre se respeitava a opinião de todo mundo. A mãe unionista replicou: “Recomendo que leiam o tom e o conteúdo dos comentários e vejam que só falam de uma ideologia. Poderia haver um grupo para falar de política, e quem não concordar não fica”. 

A discussão continuou até que alguém sugeriu criar outro grupo de WhatsApp para falar de política. Ou seja, um grupo de independentistas. A proposta foi aprovada e o grupo da classe voltou à normalidade. Na mesma hora, eu a reinaugurei, perguntando se alguém tinha uma cadeira de rodas para emprestar, porque o Mateo quebrou o pé.

Pensei em pedir que me incluíssem no grupo independentista, para estar em dia com as fofocas da insurreição. Mas fiquei com vergonha.

A unidade da Espanha ainda não se quebrou inteiramente, mas a unidade do nosso grupo de WhatsApp, sim. [Tradução de Paulo Werneck]

Quem escreveu esse texto

Juan Pablo Villalobos

Escritor mexicano radicado em Barcelona, escreveu Te vendo um cachorro (Companhia das Letras).

Matéria publicada na edição impressa #7 nov.2017 em junho de 2018.