Crônica de Paraty,

Paraty desaparece, gente se ilumina

Em crônica, a escritora francesa Marion Aubert reflete sobre sua noite na escuridão durante a Flip

25nov2023 - 07h49 | Edição #75

Na noite de quinta, 23, Paraty ficou sem luz. Era a segunda noite da 21ª Flip. A programação principal da festa literária não foi afetada porque havia um gerador, mas as atividades paralelas se transformaram.

Por volta das 19h, a Casa Sete Selos+ sediava uma leitura de trechos de obras escritas por mulheres. Daniela Thomas, diretora artística da editora de audiolivros Supersônica e organizadora da sessão, havia pedido que todos fechassem os olhos para um mergulho na experiência. Maria Stockler Carvalhosa, cofundadora e editora da Supersônica, tem deficiência visual, e o convite vem sendo um hábito nas leituras promovidas pela editora. No mesmo momento, a luz acabou. 


A autora e dramaturga francesa Marion Aubert [Divulgação]

A sessão seguiu, com iluminação feita pelos celulares, que ajudou a leitura das atrizes Martha Nowill, Rafaela Azevedo e Roberta Estrela D’Alva. Nowill leu Até onde chega a sonda (Fósforo), de Pagu, e Homens que caem (Cobogó), de Marion Aubert, emocionando a plateia. Entre os presentes, estava a própria autora e dramaturga francesa Marion Aubert, que, a convite da Quatro Cinco Um, escreveu uma crônica sobre a experiência de estar em uma Paraty sem luz.

A escuridão ontem à noite durante a leitura

Tudo é um pouco louco. Tudo é um pouco louco no Brasil. Toda essa vegetação. Torrentes. Torrentes de vegetação. É quarta-feira. Estamos dirigindo para Paraty. A água. A água de um lado. A estrada que separa a floresta e o mar. Me perguntam: “É sua primeira vez no Brasil?”. Respondo: “Não. Já estive em Porto Alegre”. Porto Alegre é Porto Alegre. Não é o Brasil. Paraty é o Brasil. O Brasil com o mar e a floresta. E o verde. O verde que enlouquece. Caminhamos por Paraty. Pronto. Chegamos. Estou no cartão-postal. Tudo é bonito. Tudo parece falso de tão bonito. Não estamos nem um pouco no cartão-postal. Estamos nos paralelepípedos. Não cair.

Le jeu de la marelle
va de la terre jusqu’au ciel
Entre la chance et le puits
Tu reviens et c’est fini¹

¹O jogo da amarelinha/ vai da terra ao céu/ entre a sorte e [cair n]o poço/ Você volta e acabou.
 

Quando criança, eu tinha um 45 rotações: Amarelinha, de Nazaré Pereira (nem sei se ela é conhecida no Brasil. Ela é conhecida?).

Petite, petite fille
Tu es là pour t’amuser
Lance bien la pierre
Prends garde où tu mets tes pieds²

²Pequena, pequena menina/ Você está aqui para se divertir/ Atire bem a pedra/ Cuidado onde põe os pés.
 

Desde que recebi o convite da Flip, estou com essa música na cabeça. 
Caminho sobre os paralelepípedos escorregadios. 
Cada passo é uma vertigem.

Esta noite, Martha Nowill vai ler um trecho de minha peça. 
Homens que caem
Uma peça sobre homens que não param de cair.

No número 107 da rua da Matriz, no espaço Cobogó, nos instalamos.
Três atrizes estão no palco.
Martha, Roberta e uma de quem não sei o nome.

‘Talvez estejam acostumadas com a escuridão. Elas sabem. Elas sabem que, quando estamos no escuro, é preciso se transformar muito rápido’

Há alguma coisa elétrica no ar.

Será a alma de Pagu?
Será a alma de Pagu brincando com nossos nervos?

Eh, Pagu, eh!
Dói porque é bom de fazer doer

Nem começamos e já terminou. Esses brasileiros são loucos.

Ah, não, é a luz.

Para nós, quando há blecaute, é sempre em aniversários.

Martha se transforma ao vivo.
Martha não é mais uma atriz.
Martha é um projetor.
Ela ilumina o rosto de Roberta.

Eu me pergunto se na França as atrizes teriam iluminado tão rapidamente umas às outras. Elas conhecem os gestos. Eu penso: “Talvez estejam acostumadas com a escuridão. Elas sabem. Elas sabem que, quando estamos no escuro, é preciso se transformar muito rápido”.

Martha lê Pagu.

Com a noite em torno delas, vemos as atrizes ainda melhor.
Elas se destacam mais.
Ouvimos a noite de cada texto.
A noite escura de cada texto que se encaminha para o dia.

A noite que sempre traz o dia.

Martha lê.
Ela tira o texto do túmulo do livro e lê.
O texto vem do buraco negro da garganta de Martha.
O texto vem de sua garganta negra e profunda.

Nos olhos da atriz desconhecida, o texto brilha. Eu penso: ‘Com toda essa escuridão em torno das atrizes, a literatura se destaca muitíssimo bem’

Assim é Martha lendo.
Com as trevas ao redor e a luz dentro dela, assim é Martha lendo.

A atriz de quem não sei o nome — uma atriz com diamantes no pescoço — lê o texto de uma autora que não conheço*.

Nos olhos da atriz desconhecida o texto brilha.

Eu penso: “Com toda essa escuridão em torno das atrizes, a literatura se destaca muitíssimo bem”.

Go down, Moses³

³Desça, Moisés.
 

Roberta canta Armstrong*.

Na plateia, minha filha se ilumina.
Ela entendeu alguma coisa!

Let my people go…⁴

⁴Deixe meu povo ir…
 

Minha filha entende essa canção vinda do fundo da noite.

Do fundo da garganta de Roberta, com sua flor vermelha nos cabelos, ela canta.

Paraty desapareceu.

A lua que víamos não vemos mais.
Os paralelepípedos não existem mais.
A cidade colonial não existe mais.
A cidade devolvida à noite.

Parece que em São Paulo se pode ficar semanas assim no escuro. Sem sair.

Alguém me diz: “Os brasileiros vão ficar chateados. Cerveja sem gelo é impossível”. Estou feliz no escuro do Brasil. Quase quebro a cara no chão, não entendo nada da geografia desta cidade, falo três palavras de português, não se enxerga nada, está escorregadio, eu caminho, e estou feliz.

Há vendedores de porcarias de plástico em cada esquina. Coisas que brilham no escuro. Coisas 100% porcaria. Porcarias luminosas. Os vendedores de porcarias luminosas nos iluminam. Penso: “Esses são nossos guias”. Na noite de Paraty, ficamos felizes que eles estejam ali, com as suas porcarias que nos iluminam. “Esses serão nossos guias. Esses que vendem porcarias para viver, esses serão nossos guias.”

Vemos mulheres por toda parte. Mulheres escritoras. Mulheres à frente de um festival. É um país verde e preto e louco

Na cidade, vemos procissões de pontos piscando. Parece uma marcha com tochas. É bonito. Que bonito! Que bonito, os iPhones, que bonito! Estou encharcada, que bonito. Vou beber uma caipirinha no escuro, que bonito. Estou completamente “jet-lagada”, que bonito. Não sei se está quente ou frio, que bonito. Não entendo nada das ruas de Paraty, que bonito. Meu iPhone não funciona, que bonito.

Jogo d’amarelinha
Na linha não vai pisar
Pé dentro, pé fora
Esse pé não vai errar
Jogo d’amarelinha
É pra menina pular
Cuidado pra não errar
Que a vida é curta, menina
E nada se vai levar

Minha filha está muito, muito cansada. Caminhamos. Como o cego e o paralítico. Ela está de casaco de chuva. Não sabemos mais onde estamos. Não sabemos que horas podem ser. É uma hora que não existe em um país com um vilarejo que parece o paraíso. Além disso, só há mulheres. Vemos mulheres por toda parte. Mulheres escritoras. Mulheres à frente de um festival. É um país verde e preto e louco. A Pousada do Ouro brilha na noite.

Marion Aubert,
texto escrito na noite de 24 para 25 de novembro,
à luz de meu teclado,
Pousada do Ouro,
Paraty.

(Tradução de Julia da Rosa Simões)

*Na sessão, além das leituras de Martha Nowill, Rafaela Azevedo leu King Kong Fran (Cobogó), de própria autoria, arrancando risadas. Roberta Estrela D’Alva leu Pão tirado de pedra e Nenhuma língua é neutra, de Dionne Brand (Bazar do Tempo), e As mulheres da Brewster Place, de Gloria Naylor (Carambaia). A atriz também transformou a casa em um coral gospel de típicas igrejas norte-americanas, enquanto cantava “Let my people go”, de Louis Armstrong.

Quem escreveu esse texto

Marion Aubert

Matéria publicada na edição impressa #75 em outubro de 2023.