Cinema, Páginas da Independência,

História encenada

Do intrépido herói de 1917 ao indivíduo tomado por dramas existenciais de 2022, os retratos de d. Pedro 1o no cinema

26ago2022 - 16h42 | Edição #61

Desde o advento da sétima arte foi se estabelecendo um gênero comumente denominado de “histórico” — um estilo narrativo que engloba as produções, ficcionais ou não, inspiradas em episódios e personagens relacionados à História —, expressão por meio da qual nos são difundidas narrativas sobre o passado. Tais filmes por vezes têm a função de retratar fielmente os fatos, mas é importante destacar que não se trata de uma simples transferência do papel para a tela, mas de um híbrido de narrativas que surge em uma interface entre história e cinema.

Por séculos a narrativa histórica esteve atrelada primordialmente às transmissões verbais para, após o surgimento da escrita, ir paulatinamente sendo transmitida por textos que passaram a redigir — e reinventar — a História. A historiografia foi se ressignificando e se expandindo, não obedecendo a critérios estanques ou excludentes, perpassando literaturas, expressões artísticas, trajetórias de vida, imagens em movimento e se tornando algo orgânico e passível de interpretações e reinterpretações subjetivas. A História — e suas possíveis formas de expressão — é uma narrativa plural e multifacetada e, independentemente de seu suporte, resultante de escolhas, supressões e interpretações. É preciso abandonar a ideia de que seria possível um “resgate” histórico, como se o passado estivesse passivamente “aguardando” ser trazido para a superfície: a História resulta de uma construção no tempo presente, de combates, embates, interpretações e políticas que escolhem quais versões devem, ou não, permanecer.

No que se refere ao gênero histórico no cinema, há um notável diferencial em países de indústria cinematográfica consolidada, como os Estados Unidos. Episódios históricos retratados pela indústria cinematográfica norte-americana culminam por determinar nossa imagem dos eventos e sociedades, causando até mesmo confusão em espectadores que passam a apreender algumas narrativas fílmicas como retratos fiéis do passado.

O primeiro filme sobre o tema foi Grito do Ipiranga, de 1917, dirigido pelo italiano Giorgio Lambertini

O Brasil ainda não detém uma indústria cinematográfica e, por isso, temos uma produção irregular, descontinuada e com graves dificuldades de financiamento, distribuição e comercialização. Com tamanhos desafios e sem uma economia cinematográfica para sustentá-lo, o gênero histórico geralmente resulta da vontade individual de produtores e/ou cineastas, potencializada em épocas de efemérides e calendários de festejos públicos, dentre os quais a Independência do Brasil, que completa agora seu bicentenário. Como o cinema retratou esse acontecimento imortalizado no imaginário da sociedade brasileira?

Em 1917, temos a notícia do primeiro filme nacional sobre o tema: Grito do Ipiranga, dirigido pelo italiano Giorgio Lambertini, um visionário que ousou produzir uma película de temática histórica em um país estrangeiro e, até então, sem tradição cinematográfica. Não temos como recuperar como Lambertini se aproximou desse tema, pois restam poucos rastros tanto do filme quanto da sua trajetória no cinema, algo tão característico na cinematografia brasileira.

A estreia de Grito do Ipiranga durou dois dias consecutivos, com uma série de exibições no Cinema Central em São Paulo, e foi divulgada com entusiasmo pelo jornal O Estado de S. Paulo (23/6/1917), que qualificava a produção como “uma verdadeira revelação da arte cinematográfica nacional”. No centro da referida matéria vinha impressa uma das únicas imagens que restaram do filme: d. Pedro 1o, interpretado por Achille Lambertini, sobre o cavalo, com sua espada erguida, atuando no momento da proclamação da Independência. As filmagens foram realizadas numa chácara situada na capital com um elenco familiar do qual constavam, além do próprio diretor e de Achille Lambertini, Vitória Lambertini como a noiva do Chalaça, Luiza Lambertini como Domitila de Castro e Emma Lambertini e Giorgio Lambertini em papéis secundários.

Lacunas

Do épico e glorioso, do instrutivo e didático, do fantasioso e bufão — temos poucas representações desse episódio histórico na filmografia brasileira e, caso pretendêssemos estabelecer uma espécie de cronologia filmográfica, recairíamos em muitas lacunas. Até o momento apenas duas produções atingiram uma visibilidade considerável: o célebre épico Independência ou morte (1972), de Carlos Coimbra, e a comédia Carlota Joaquina, princesa do Brazil (1995), de Carla Camurati, dois filmes com propostas narrativas diametralmente opostas, mas que resultaram em sucessos estrondosos de bilheteria.

Esse tema inspirou também aquela considerada a primeira superprodução histórica brasileira, Inconfidência Mineira (1948), produzida pela atriz, produtora, diretora e roteirista Carmen Santos — algo incomum em um mercado ainda majoritariamente masculino. Inspirado nos manuscritos dos Autos da Devassa, o filme pretendia ser educativo, trazendo a “verdade histórica”, privilegiando a “monumentalidade” dos fatos, segundo depoimentos de Santos à imprensa. Lamentavelmente Inconfidência Mineira teve de enfrentar uma série de desacertos, levando uma década para ser concluído. Nesse percurso foi necessário substituir parte do elenco — inclusive o ator principal — e enfrentar um incêndio nos estúdios da produtora Brasil Vita s. a., que consumiu cenários e figurinos, causando um enorme prejuízo financeiro. Apesar de todos os esforços e investimentos, o filme foi um retumbante fracasso comercial.

No momento da celebração do sesquicentenário da Independência, considerada a maior festa cívica promovida pela ditadura, houve dois lançamentos dedicados ao tema, dentre os quais Independência ou morte, de Carlos Coimbra, que por décadas desempenhou o papel de narrativa “oficial” sobre o assunto, sendo exibido em incontáveis festejos cívicos, canais televisivos e eventos escolares. O filme tinha no elenco principal o famoso casal Tarcísio Meira, como d. Pedro, e Glória Menezes, como marquesa de Santos. A narrativa se reapropria de imagens canônicas de pinturas do século 19 e adota simbologias e convenções que integram uma herança cultural presente em livros didáticos, em acervos de museus históricos, erigidas em espaços públicos etc. Cercado de controvérsias, foi associado ao projeto de propaganda da ditadura militar.

A outra produção lançada em 1972, mas lamentavelmente eclipsada, foi Os inconfidentes, de Joaquim Pedro de Andrade, baseado na obra Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meirelles, e em versos de Thomaz Antônio Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa e Inácio Peixoto. Na trama, d. Pedro 1º foi interpretado por José Wilker, sendo que o filme aposta numa versão contrária daquela “oficial”, estreitamente vinculada ao período ditatorial.

O filme com Tarcísio Meira e Glória Menezes foi associado ao projeto de propaganda da ditadura

Dentre todas as possibilidades interpretativas desse episódio histórico, a comédia Carlota Joaquina, princesa do Brazil, de Carla Camurati, segunda mulher a dirigir um filme sobre o tema, se destaca. Além de optar pela sátira, de partir de um episódio ficcional, de seguir sem nenhuma pretensão de “fidelidade” e de não se pautar nas denominadas “fontes históricas” como forma de validar sua verossimilhança e fidedignidade — algo que outras produções nacionais do gênero defendiam —, o filme reafirmou estereótipos da família real, resultando numa das maiores bilheterias do cinema brasileiro. O elenco era composto de atores televisivos e conhecidos do grande público, como Marco Nanini, Marieta Severo, Marcos Palmeira e Maria Fernanda Cândido. É curioso que essa livre adaptação, dispensando os parâmetros comumente assumidos como “históricos”, foi adotada inclusive para fins didáticos.

Encenação

A própria História, independentemente do suporte em que é narrada ou difundida, é uma construção que não escapa de “encenações”, seja por meio de textos, da construção de monumentos, de representações pictóricas, de desfiles, de símbolos celebrativos, da eleição de determinados “heróis” nacionais e do silenciamento dos considerados “anti-heróis”, definindo o que é memorável ou o que deve ser silenciado. Nesse sentido, o evento da Independência traz em si sua própria carga de invenção, de encenação, de ressignificação, de tomadas de pontos de vista, resultado de embates (e combates), da publicação de manifestos fundadores e, principalmente, da defesa de interesses políticos. Em narrativas do passado, e isso inclui também a sétima arte, paira inatingível a possibilidade de uma reconstituição “fiel”. O cinema traz, em luzes e sons, problemáticas específicas, mas nunca é demais insistir que o gênero cinematográfico definido como “histórico” é em si uma reinterpretação da História.

Filmes se tornam documentos quando podemos analisá-los como fruto de uma época, inseridos em determinados universos simbólicos que surgem em suas entrelinhas narrativas. Neste momento do bicentenário da Independência, novas produções foram anunciadas, dentre as quais A viagem de Pedro, de Laís Bodanzky, que já angariou prêmios em festivais nacionais e internacionais. A trama se concentra na fuga de d. Pedro 1º para Portugal após a abdicação ao trono, e o trailer nos dá o spoiler de que se trata de uma representação fora dos moldes — algo que o próprio título já sugere ao denominar o protagonista simplesmente como Pedro (interpretado pelo galã Cauã Reymond), que surge humanizado, intimista, pautado por dramas e conflitos existenciais em busca de seu próprio passado em solo português. Ao término do trailer, os letreiros anunciam: “No bicentenário da Independência o herói oficial é posto em xeque”. Efemérides são momentos propícios para repensar determinadas convenções históricas e para revisitar determinados eventos, e a expectativa se renova. Mas isso é outra história.

Quem escreveu esse texto

Ana Carolina de Moura Delfim Maciel

Historiadora e documentarista, é professora da Unicamp e autora de “Yes, nós temos bananas”. Cinema industrial paulista: a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, atrizes de cinema e Eliane Lage. Brasil, anos 1950 (Alameda).

Matéria publicada na edição impressa #61 em julho de 2022.