Ministério da Cultura apresenta
Os escritores Ricardo Terto e Lilia Guerra (Matias Maxx/Terebi/A Feira do Livro)

A FEIRA DO LIVRO 2026,

Lilia Guerra e Ricardo Terto falam de personagens trabalhadores na literatura

Em conversa no último dia d’A Feira, os escritores abordaram histórias de trabalho, heróis improváveis e protagonistas moldados pelo cotidiano popular

07jun2026

A conversa entre os escritores Lilia Guerra e Ricardo Terto, mediada por Juliana Rodrigues,destacou a oralidade, o trabalho e as experiências cotidianas como elementos centrais da literatura. O encontro aconteceu no domingo (7), último dia d’A Feira do Livro, no Tablado Literário Bubu. 

Reunidos na mesa Linguagens do cotidiano, os autores refletiram sobre os caminhos que os levaram de suas profissões anteriores à escrita, sobre a força da oralidade e sobre a presença de personagens trabalhadores em suas obras.

Guerra é autora do romance O céu para os bastardos (2024) e da coletânea de contos Perifobia (2025), ambos publicados pela Todavia. Terto escreveu o romance em pré-venda A fortaleza dos Homens-Borracha e a coletânea de crônicas Marmitas frias: e requentadas (2025), ambos publicados pela Fósforo. 

Terto lembrou que começou a escrever textos curtos nas redes sociais enquanto trabalhava em empregos do varejo e do telemarketing. Para ele, a escrita nasceu da urgência de registrar experiências vividas por quem raramente aparece como protagonista na literatura.

Os escritores Ricardo Terto e Lilia Guerra (Matias Maxx/Terebi/A Feira do Livro)

“Sou essa pessoa formada politicamente pela escala 6×1. Como eu me entendi como trabalhador da escrita tem a ver com o tempo que eu tenho disponível e com essa ansiedade que nunca mais me largou”, declarou, entre risos da plateia.

Viva voz

A oralidade foi central para a conversa entre os autores. Guerra contou que chegou à literatura a partir da escuta. Auxiliar de enfermagem, escreveu primeiro um romance inspirado nas histórias narradas por sua mãe e, depois, passou a explorar contos e crônicas a partir da observação do vocabulário e dos modos de falar das pessoas ao seu redor. 

Ela recordou uma lição da avó, que marcou sua compreensão sobre linguagem popular e literatura. Ao criticá-la por apontar um “erro” em uma canção, a avó respondeu: “Você escreve certo e canta errado porque é o errado que fica bonito”. Para a escritora, a frase se tornou uma chave para construir personagens que falam de forma natural, sem caricaturas. 

Terto seguiu um caminho semelhante ao defender que a literatura deve preservar as expressões e ritmos da fala cotidiana: “O grande barato da literatura é se opor à morte da linguagem e da comunicação”.

Ofícios

Para os autores, outra matéria-prima das narrativas são as experiências de trabalho. Terto explicou que se interessa pelos detalhes aparentemente banais dos ofícios. “Quero achar as ‘marmitas frias’.”

Para ele, a expressão funciona como uma metáfora de vivências compartilhadas pela classe trabalhadora: experiências específicas que, quando reconhecidas por outras pessoas, revelam histórias coletivas.

Juliana Rodrigues e os escritores Ricardo Terto e Lilia Guerra (Matias Maxx/Terebi/A Feira do Livro)

A discussão avançou para temas como periferia, luto e representação social. Guerra explicou que a escrita de Perifobia nasceu da necessidade de falar sobre as condições concretas de vida nas bordas da cidade, mas sem limitar seus personagens a uma única questão. “Tudo é um plano para minar a nossa vida”, comentou ao abordar problemas de mobilidade, transporte público e desigualdade urbana. 

Já Terto observou que seus livros não tratam apenas da periferia como território, mas “das experiências universais de trabalho, perda e sobrevivência. São histórias de vida da classe trabalhadora brasileira”, definiu.

Ao final, os autores reafirmaram a literatura como um espaço de memória e invenção que se constrói entre histórias de trabalho, heróis improváveis e personagens moldados pelo cotidiano popular. “Como disse a Lilia em O céu para os bastardos: ‘a gente reconstrói o passado o tempo todo’”, disse Terto.


A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h

A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.

Quem escreveu esse texto

Jaqueline Silva

É jornalista em formação pela ECA-USP e assistente editorial na Quatro Cinco Um.