A FEIRA DO LIVRO 2026,
Rolê dos Livros reúne mais de 100 leitores em celebração coletiva da leitura
Em edição especial n’A Feira, projeto mostrou como a literatura segue sendo espaço de troca e comunidade
07jun2026Na manhã deste domingo (7), último dia d’A Feira do Livro, o Auditório do Museu do Futebol recebeu mais de cem leitores de diferentes idades e origens para compartilhar suas descobertas literárias. O grupo faz parte do Rolê dos Livros, projeto idealizado pela escritora e mediadora Beth Leites, a pesquisadora Débora Tavares e a designer Mariana Pöpper. Os participantes se reúnem uma vez por mês em lugares de São Paulo para ler em silêncio e comentar as histórias que têm feito suas cabeças.
Em uma versão pocket do evento mensal, todos tiveram trinta minutos para ler o livro que quisessem e, ao final, dividir impressões, recomendações e histórias da leitura.
A leitura que abriu a roda foi Vocês brilham no escuro (Mundaréu, 2023, trad. Bruno Cobalchini Mattos), coletânea de contos da boliviana Liliana Colanzi. “Fiquei impressionada com como ela consegue contar histórias muito grandes em pouquíssimas palavras”, disse a leitora.
Na sequência, outros leitores compartilharam suas indicações de diferentes gêneros e formatos, dos quadrinhos aos romances, passando por ensaios, biografias e clássicos da literatura.
Mais Lidas
Entre os destaques, o livro de contos Perifobia (Todavia, 2025), da paulistana Lilia Guerra, descrito por Leites como uma coleção de histórias sobre moradores das periferias da cidade. Já Hospício é Deus: diário I (Companhia das Letras, 2025), de Maura Lopes Cançado, recebeu uma definição contundente de uma das participantes: “É devastadora a maneira como ela reúne memórias sobre sua internação em um hospital psiquiátrico no Rio de Janeiro nos anos 60”.
Temas contemporâneos também apareceram em leituras de obras escritas em séculos passados. Um dos participantes apresentou A máquina parou, de E.M. Forster, publicado em 1909, publicado no Brasil em 2018 em coedição do Itaú Cultural com a Iluminuras, e destacou sua impressionante atualidade.
“Se a gente não souber quando foi escrito, poderia pensar que foi escrito hoje”, afirmou, ao comentar as reflexões do livro sobre isolamento social, tecnologia e dependência das máquinas. A conversa levou a títulos como 1984, de George Orwell, e Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, associados pelos leitores aos debates sobre vigilância, desinformação e o predomínio das telas.
Violência de gênero
A roda também abriu espaço para reflexões sobre violência de gênero, memória e relações humanas. Uma participante comentou a leitura de Um hino à vida: a vergonha precisa mudar de lado (Companhia das Letras, 2026, trad. Julia da Rosa Simões), o relato corajoso da francesa Gisèle Pelicot sobre as violências sexuais que sofreu por anos, perpetradas pelo próprio marido e outros homens.
A leitora destacou a capacidade da autora de não se deixar consumir pelo ressentimento. “Ela não alimenta o ódio”, observou, antes de fazer um apelo: “Ensinem os seus filhos a respeitarem as mulheres. Essa conversa tem que chegar nos homens”.
Já a leitura de Antes que apague, de Natalia Timerman (Companhia das Letras, 2026), despertou interesse pela forma como a escritora transforma a experiência familiar com o Alzheimer em literatura.
Lacunas
A paixão pelos livros e a angústia de não conseguir ler tudo o que se deseja também foi um dos temas do encontro. Uma das participantes contou ter escolhido Lacunas: sobre amar os livros que não lemos (Relicário, 2026), de Felipe Charbel, por se identificar com a premissa da obra.
“É uma grande angústia de quem gosta de ler: quanto tempo eu ainda tenho para ler os livros que estão na minha estante e que eu já sei que não vou ler?”, questionou, provocando risos de identificação do público.
Ao final, uma das presentes fez a defesa da redescoberta de escritoras esquecidas pela historiografia literária, citando o romance Nhonhô Rezende, de Iracema Guimarães Vilela, autora que publicou sob pseudônimo masculino no início do século 20. A obra foi recentemente resgatada com uma edição publicada pela Carambaia.
“Leiam mulheres e principalmente leiam mulheres brasileiras que foram apagadas e que dizem muito sobre o país e sobre nós”, afirmou.
A Feira do Livro 2026
A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.
A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro
Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h
A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.