Ministério da Cultura apresenta
A psicanalista Vera Iaconelli (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

A FEIRA DO LIVRO 2026,

‘Sem homens aliados não vamos sair da pocilga em que estamos’, diz Vera Iaconelli

Em versão ao vivo de newsletter, a psicanalista e a jornalista Carol Pires discutem masculinidade com Renan Quinalha e Thomás Aquino

07jun2026

“Nem todo homem.” A expressão, que virou muleta discursiva de muitos homens para se eximir do debate sobre masculinidade, virou o título de uma seção da newsletter Nem Toda Mulher, assinada pela jornalista Carol Pires e pela psicanalista Vera Iaconelli. O espaço para o qual homens são convidados a refletir sobre masculinidade ganhou uma versão ao vivo n’A Feira do Livro, no debate que reuniu a dupla com Renan Quinalha, colunista da Quatro Cinco Um, e o ator Thomás Aquino, na manhã de domingo (7).

Diante de uma plateia que lotou o Palco da Praça, os dois foram convidados a pensar sobre a origem da reação, sempre tão automática, que muitos homens têm para se excluir de críticas ao gênero masculino.

A jornalista Carol Pires, Renan Quinalha, colunista da Quatro Cinco Um, o ator Thomás Aquino e a psicanalista Vera Iaconelli (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

“A masculinidade está sempre no córner, sempre tentando escapar de uma armadilha”, disse Quinalha. “É o medo de ser associado ao feminino, de parecer homossexual. É preciso sair da encruzilhada da impossibilidade e assumir uma identidade que não seja tão negativa.”

“Existe um medo de perder regalias que vêm sendo construídas há muito tempo”, acrescentou Aquino. O ator, que está no ar, no elenco da novela Coração acelerado, contou como já se flagrou em postura machista quando se relacionava com uma mulher que tinha renda maior que a dele. “Minha primeira reação foi pensar ‘ela ganha mais que eu’ e não parabenizá-la”, lembrou.

Tanto Aquino quanto Quinalha falaram da necessidade de homens terem espaços de amizade e acolhimento em que possam discutir livremente sobre sentimentos e fragilidades, sem a competição e a cobrança por desempenho que permeiam, em geral, as relações masculinas.

“Agora seria um bom momento para oferecer um curso para homens”, brincou Iaconelli, provocando riso na plateia. A psicanalista esteve no centro de uma discussão recente sobre o tema ao confrontar, num debate na GloboNews, o ator Juliano Cazarré, criador de um curso, voltado para homens, que tinha por objetivo declarado “fortalecer os participantes” a assumir responsabilidades como chefes de família.

Exemplos

“Estamos num momento delicado, no qual homens acreditam não ter exemplos a seguir. Acho isso uma balela”, disse, mais séria, a psicanalista. Para Iaconelli, é importante reconhecer que existem homens genuinamente interessados em repensar suas posições na sociedade e promover espaços de discussão em que possam ouvir e falar. “Sem aliados masculinos não vamos sair dessa pocilga em que estamos hoje.”

Autor de um dos textos da newsletter, Quinalha contou da experiência de ser um homem gay que, embora seja associado ao masculino, desde criança é lembrado que não é homem suficiente. “O masculino é um enrijecimento do corpo, do espírito, da maneira de se portar no mundo”, disse.

Carol Pires provocou risadas ao questionar qual o assunto dos homens quando se reúnem, já que não se abrem sobre suas vidas. Aquino lembrou de uma crise de ansiedade por que passou logo após a pandemia, quando se reencontrou com seus amigos. Ao contar que não se sentia bem, ouviu de um deles: “Porra nenhuma, bora beber!”.

A jornalista Carol Pires (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

“É uma idiotice não poder perguntar o que o outro está passando, não poder dar um abraço. No que isso vai te diminuir? Até o abraço entre homens é meio de lado”, argumentou o ator, que fez a plateia rir ao demonstrar com Quinalha um abraço constrangido entre dois homens.

Iaconelli acrescentou que, desde a infância, os meninos têm menos liberdade lúdica que as meninas. A psicanalista lembrou como as filhas podiam se vestir de cowboy ou jogar futebol sem medo de perder a feminilidade — o contrário do que ocorria com os meninos.

“Sem brincar à vontade, os meninos não podem descobrir uma masculinidade que tem como eixo o cuidado”, disse ela. “Cuidarmos uns dos outros é o que faz de nós humanidade.”

Comparando o letramento de homens sobre a masculinidade ao de pessoas brancas sobre o racismo, a autora de Análise (Companhia das Letras, 2025) disse que é preciso que os interessados se sintam desconfortáveis em seus privilégios.

“Se não sentir desconforto, não está pegando o cerne da história; tem que mexer com o narcisismo”, afirmou. “Em resumo, é preciso escutar as mulheres, assim como pessoas brancas têm que escutar pessoas negras.”

Quinalha reforçou a importância da interação entre homens e com as mulheres para desconstruir convicções de uma masculinidade cada vez mais tóxica e violenta. O advogado e escritor se mostrou otimista por ver o tema sendo mais debatido hoje do que dez anos atrás, seja em newsletters, programas de TV ou festivais literários como A Feira do Livro.

“Não estamos falando sobre criar uma masculinidade melhor, mas sobre criar uma sociedade melhor.”


A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h

A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.

Quem escreveu esse texto

Amauri Arrais

É jornalista, editor da Quatro Cinco Um e mestrando em Teoria Literária na USP