A FEIRA DO LIVRO 2026,
Homenagem a líder quilombola destaca como sua história reflete vivência invisível da maioria do Brasil
Mesa com Bianca Santana, Tom Farias e Matheus Leitão celebrou legado de Dona Rosinha (1959-2026) morta na quinta-feira (4)
07jun2026Foi com um minuto de silêncio que começou a mesa em homenagem a Dona Rosinha na manhã deste domingo (7), no Auditório do Museu do Futebol.
A escritora e ativista quilombola, que lançou no ano passado seu primeiro livro, Memórias do meu quilombo (Pallas), participaria de uma conversa com a jornalista e escritora Bianca Santana na programação oficial d’A Feira do Livro, mas teve que cancelar sua presença devido a questões de saúde. Ela acabou morrendo na quinta-feira (4), aos 67 anos.
A organização da feira optou por manter o evento como uma forma de celebração, e convidou os jornalistas e escritores Tom Farias e Matheus Leitão para homenagear a vida e o legado de Dona Rosinha junto de Santana.
Um dos momentos mais tocantes do painel aconteceu quando Leitão leu uma parte do discurso que a ativista fez por ocasião do lançamento de seu livro na Flitabira (Festival Literário Internacional de Itabira) de 2025 — ela era uma das principais líderes comunitárias de um dos quilombos da cidade, do Morro Santo Antônio.
Horas de imaginação
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No evento literário, Dona Rosinha lembrou das “horas de imaginação” que povoavam a sua infância e permitiam a ela escapar, mesmo que brevemente, da realidade de um lar do tamanho de um cômodo cujo banheiro era dividido com cerca de quinze outras famílias.
“Imaginava que eu ia sair do banheiro coletivo e, quando abrisse meu olho, ia estar numa casa com sala, quartos, porque eu nunca tinha visto uma. Eu falava ‘nunca vou conseguir isso’. Mas só de imaginar já estava bom.”
“Para muitos, a obra de Dona Rosinha pode parecer periférica. Mas ela, na verdade, trata da maioria da população brasileira, que é negra e feminina”, disse Leitão.
“Muitos podem imaginar que ela era só mais uma mulher que queria contar a sua história de vida. Mas quantas histórias de vida como as de Dona Rosinha não se perderam?”, questionou Farias, destacando as semelhanças entre a trajetória da militante quilombola e a de Carolina Maria de Jesus, sua biografada.
‘Escrevivência’
As afinidades entre os escritos de Rosinha e os da autora de Quarto de despejo também foram apontadas pela escritora Conceição Evaristo, no prefácio de Memórias do meu quilombo. No texto, lido em voz alta por Santana durante a mesa, ela relata que é notável a capacidade de insistir na poesia “em meio à fome, à carência”, característica de Rosinha e de Carolina Maria de Jesus.
Farias e Leitão, que eram próximos de Rosinha, afirmaram que o encontro entre ela e Conceição Evaristo durante uma Flitabira foi fundamental para que Memórias do meu quilombo saísse do papel. Foi naquele instante que a ativista descobriu o termo “escrevivência”, concebido por Evaristo, e percebeu que o vinha praticando há anos.
Santana apontou a certa altura como o conceito parece incomodar parte da sociedade brasileira, que menospreza obras de memórias escritas por indivíduos periféricos. “Elas olham para essas obras e dizem que elas não são literatura. Como se contar a vida cotidiana fosse menor do que uma literatura inventada, ‘universal’. Um universal que muitas vezes diz respeito ao europeu branco”, afirmou.
A Feira do Livro 2026
A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.
A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro
Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h
A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.