A FEIRA DO LIVRO 2026,
Fantasia estimula a sonhar com mundos diferentes, afirmam estreantes na literatura juvenil
Gustavo Suzuki e Tatiana Heide falaram sobre o poder sugestivo dos elementos fantásticos em livros para jovens leitores
07jun2026“Quanto mais velho fico, mais eu admiro o mundo da fantasia”, confessou o roteirista Gustavo Suzuki, de séries e programas de TV como Irmão do Jorel, Menino Maluquinho e Greg News, em uma conversa com a atriz Tatiana Heide sobre fantasia e literatura juvenil, no sábado (6), n’A Feira do Livro. Ambos autores estreantes, os dois participaram da mesa Leitores ferozes, no Espaço Rebentos, com mediação da jornalista Jaqueline Silva, assistente editorial da Quatro Cinco Um.
Suzuki apresentou Safira, a caçadora de parafernálias (Baião), ilustrado por Beta Krüger, no qual a personagem-título tem um dom incomum: ao tocar objetos, descobre a história deles e adquire as habilidades dos antigos donos. Para o autor, a fábula que mistura poderes mágicos com uma volta ao passado tem função encorajadora. “Os jovens estão muito tristes e desesperançosos com o futuro”, disse. “A fantasia tem a vantagem de ser propositiva: ela tem um papel importante de nos estimular a pensar e sonhar com novos mundos.”
Elementos fantásticos também estão presentes em Lila Vampira e a descoberta da noite, estreia de Heide na literatura juvenil. O livro acompanha uma jovem que começa a perceber mudanças no corpo após provar o próprio sangue. “Minha personagem é uma vampirinha, o que já traz um mundo que questiona a realidade”, afirmou a autora. “Vejo a fantasia como um lugar de estímulo à imaginação. Tinha a preocupação de que meu livro trouxesse esse elemento, já que hoje há muita tela, as coisas já vem digeridas, prontas, para os jovens.”
Vampiros e adolescentes
Histórias de vampiros persistem no imaginário dos jovens adultos, observou a mediadora, lembrando da saga Crepúsculo, de Stephenie Meyer, que saltou dos livros para as telas de cinema nos anos 2000 e fez muito sucesso entre esse público. A adolescência também está no centro do livro de Heide. Na trama, a protagonista Lila se descobre vampira aos 13 anos — uma metáfora para o crescimento e a autodescoberta nessa fase da vida, em que se lida com mudanças físicas e emocionais. A inspiração da autora veio da relação com a filha adolescente e das ruas de Berlim, onde Heide viveu por sete anos. “Eu caminhava pelas ruas escuras de Berlim, com uma menina crescendo sob os meus cuidados, e pensava sobre o que é se tornar mulher”, lembrou.
“A literatura de mulheres ganhou um foco maior nos últimos anos, e eu desloquei meu olhar para as meninas que estão se tornando mulheres. Passamos por um momento muito único de transformações no nosso corpo, e tudo isso veio sob o olhar de uma menina que ganha dentes caninos e sente desejo por alguma coisa oculta.”
Suzuki também se inspirou na vida na cidade, mas a do centro de São Paulo. Segundo ele, o livro “surgiu da vontade de estimular a molecada a andar na rua, a ocupar o espaço público”. Safira, a protagonista, trabalha com a tia em uma loja de antiguidades na rua Amaral Gurgel, na região do Minhocão. “Sou muito apegado às coisas, gosto de ter objetos, de bagunça. Não gosto desse papo da Marie Kondo de jogar coisas fora”, brincou. “Os objetos deixam marcas por onde passam.”
Mais Lidas
Em um mundo hiperconectado e com relações cada vez mais virtuais, os livros de Suzuki e de Heide valorizam o contato analógico. Em uma passagem de Lila Vampira, por exemplo, a protagonista se frustra após conversar com uma inteligência artificial que não oferece a resposta que ela procura. Em Safira há uma perspectiva semelhante, sobretudo quando a protagonista acessa o passado da tia.
“As buscas das personagens de vocês se dá pela parte ancestral, por meio da própria família, entendendo as próprias origens”, destacou Silva. “Acho que nós entendemos que algumas respostas não estão em um mundo louco gerido por engenheiros de software. É a ideia de futuro ancestral”, acrescentou Heide.
Oficinas disputadas
O Espaço Rebentos também sediou no sábado (6) oficinas que fizeram sucesso entre a criançada. No começo da tarde, a equipe educativa do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) ministrou a oficina Palavras elementares, uma atividade de frotagem com técnica de decalque por fricção. A partir de frases propositivas, como “palavras que parecem pertencer ao futuro”, os pequenos usaram moldes de madeiras para formar as palavras escolhidas — como ilusão, ancestralidade, registro, construção, tecnologia, genocídio, invasão, alma, rastros, ausência etc.
No mesmo dia, o palco infantil d’A Feira do Livro também recebeu a segunda sessão da oficina Encadernação dos-à-dos, ministrada pela primeira vez na sexta (5), pelo coletivo Morada Andarilha dos Livros de Artista (M.A.L.A.). Na atividade, os participantes montaram um livro artesanal, unindo habilidades de dobradura e costura, e o customizaram com carimbos e outros materiais.
À tarde, o contador de histórias Ciro do Prado conduziu sessões de leitura para as crianças — as contações são realizadas em horários variados ao longo do fim de semana.
A última oficina do dia, Desenho nonsense, foi comandada pela escritora e ilustradora Andréia Vieira, autora de Nig-Nig e de O livro das coisas caras, ambos publicados pela Palavras Educação. Antes de colocar a mão na massa, os pequenos curtiram uma apresentação recheada de exemplos da literatura nonsense — que surgiu no Reino Unido, no século 19, com autores como Edward Lear e Lewis Carroll, de Alice no País das Maravilhas.
Vieira então propôs três atividades lúdicas para as crianças, que se distribuíram ao longo das bancadas: numa mesa, elas criaram desenhos a partir de frases divertidas e inusitadas; em outra, fizeram manchas no papel e depois as transformaram em figuras; para o terceiro grupo, a brincadeira foi montar criaturas esquisitas com desenhos separados que mostravam as partes de seres diferentes — como uma cabeça de menina num corpo de pato.
A Feira do Livro 2026
A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.
A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro
Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21hA Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.