Ministério da Cultura apresenta
O jornalista João Pombo Barile, o escritor Silviano Santiago e o jornalista Paulo Roberto Pires (Nilton Fukuda/Terebi/A Feira do Livro)

A FEIRA DO LIVRO 2026,

A graça da minha vida é me contradizer, diz Silviano Santiago

Crítico literário revisitou momentos de sua trajetória intelectual em mesa com seu biógrafo, João Barile

06jun2026

O jornalista e colunista da Quatro Cinco Um Paulo Roberto Pires deu o pontapé inicial na mesa Presente do acaso: Silviano Santiago, da qual foi mediador, ressaltando a façanha que é reunir um biógrafo e seu personagem: o jornalista João Pombo Barile e o escritor e crítico literário Silviano Santiago. Os dois revisitaram a trajetória do mineiro no Palco da Praça neste sábado (6), penúltimo dia d’A Feira do Livro.

“Estou tendo a sorte, o acaso, de viver noventa anos. Há um acúmulo de coisas que se contradizem e se complementam com facilidade. A graça da minha vida é me contradizer e, ao mesmo tempo, sempre transformar o não em sim”, afirmou Santiago, que em 2022 recebeu o Prêmio Camões, a maior honraria literária da língua portuguesa.

“Tem um tipo de experimento na minha vida que o João Barile teve a paciência de querer acompanhar. É a ideia que está no título, também a biografia é um presente do acaso”, brincou o crítico.

Presente do acaso: um ensaio biográfico sobre Silviano Santiago (Autêntica, 2025) é construído a partir de entrevistas com o biografado, que repassa sua infância e juventude em Minas Gerais, suas vivências como acadêmico no exterior e seu retorno ao Brasil, nos anos 70 — em 1971, publicou o ensaio “O entre-lugar do discurso latino-americano”, que logo se transformou em texto incontornável nos estudos literários. 

“Tudo me foi dado mais ou menos como produto do acaso e não da maneira que estava planejada, então esse experimento é esse laboratório de vida”, resumiu ele.

Silviano Santiago (Nilton Fukuda/Terebi/A Feira do Livro)

“Sabia que ia ter que enfrentar o problema do narrador”, contou Barile, apontando que essa é uma das obsessões de Santiago ao fazer crítica literária e escrever romances. “Fui construindo na estrada, escrevendo e vendo. O que eu tinha em mente era a ideia do diálogo geracional. O Silviano fez a melhor edição das cartas do Mário de Andrade para o Carlos Drummond de Andrade. A geração do Drummond tem um diálogo com a geração do Fernando Sabino”, explicou o autor.

Santiago recordou como seu interesse pelo Brasil cresceu justamente nos períodos em que estava no exterior — primeiro na França, nos anos 60, e depois nos Estados Unidos, na década seguinte. Ele chegou a Paris em 1961, no auge da Guerra de Independência da Argélia (1954-1962), que colocou em xeque o colonialismo francês. “Estava com os olhos mais voltados para o Brasil do que para a tese que eu estava escrevendo sobre André Gide.”

Quando foi lecionar literatura brasileira no Novo México, nos Estados Unidos, Santiago entrou em contato com os Pueblo, indígenas originários do sudoeste do país. “Só comecei a conhecer a questão indígena brasileira em Albuquerque”, disse.

Espirituosamente, Santiago definiu como “cambalhotas” esses movimentos aparentemente improváveis do seu percurso intelectual: “No fundo são cambalhotas intelectuais, quase circenses, que, em virtude de um certo profissionalismo, acabam rendendo algo que não deveriam ter rendido”. “Tenho um bom currículo Lattes e um bom currículo pilates”, arrematou, arrancando risos do público.

Graciliano e Machado

A conversa também abordou dois trabalhos de Santiago que envolvem monumentos da nossa literatura. O romance Em liberdade (Companhia das Letras), publicado originalmente em 1981 e reeditado em 2022, investiga a soltura de Graciliano Ramos da prisão, após passar dez meses trancafiado a mando do Estado Novo. Já em Machado (Companhia das Letras, 2016), o autor se debruça sobre os anos finais de Machado de Assis.

Santiago afirmou que coincidências biográficas entre o seu pai e Graciliano o levaram a contar a história do pai através de uma figura tão extraordinária quanto a do autor de Vidas secas. “É uma coincidência incrível que ambos nasceram em 1892, eu nasci em 1936, e quando comecei a escrever o livro tinha a idade do Graciliano no momento em que ele foi preso”, contou.

Paulo Roberto Pires (Nilton Fukuda/Terebi/A Feira do Livro)

No caso do autor de Dom Casmurro, interessava a Santiago construir um romance de formação de alguém maduro. “Estamos acostumados a ler livros de formação das juventudes, como o célebre de James Joyce, Um retrato do artista quando jovem. Eu resolvi fazer um retrato de um artista quando velho, o que seria Machado velho.”

Falando na profunda atualidade de Machado, o crítico ressaltou que “não existe uma pessoa que melhor compreendeu o século 19”. “Tendo compreendido o século 19, você compreende o século 20 brasileiro, porque a gente não deu muitos passos para frente.”


A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h

A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.

Quem escreveu esse texto

Guilherme Magalhães

Jornalista e mestrando em literatura brasileira na USP.