Ministério da Cultura apresenta
A cantora, compositora e escritora Zélia Duncan (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

A FEIRA DO LIVRO 2026,

‘O mundo sem poesia seria mais difícil do que já é’, diz Zélia Duncan

Em mesa lotada, a multiartista falou dos caminhos que a levaram para a arte e de sua produção entre música e literatura

06jun2026

“Na minha casa sempre se cultivou muito a palavra.” Foi assim que a cantora, compositora e escritora Zélia Duncan começou sua fala diante do público que lotou o Palco da Praça na manhã de sábado (6), n’A Feira do Livro, para acompanhar a conversa da multiartista com a jornalista e mediadora Alice Granato.

“Minha mãe sempre recitou poesia em casa, e eu sei versos de cor por causa dela. Poesias de Carlos Drummond de Andrade, Olavo Bilac, Augusto dos Anjos. Eu tive sorte”, disse.

O encanto pela escrita também foi cultivado desde cedo, nos cadernos em que Duncan vivia anotando. Primeiro, frases e ideias emprestadas de outras pessoas. “Eu tinha um caderninho de pensamentos. Quando chegava alguém em casa, eu pedia: ‘me fala um pensamento?’. Dos mais simples aos mais engraçados. Eu anotava e achava aquilo tudo muito importante.”

Aos poucos, os cadernos passaram a ser preenchidos com os pensamentos da própria Duncan. Ela cresceu, conheceu pessoas que faziam música e descobriu que sua voz grave, motivo de vergonha na adolescência, era um ótimo trunfo para o sonho que cultivava desde pequena: cantar.

Que tal o impossível?

“Quando eu era adolescente, não via lugar para mim. Tive que ir lá e arrancar, como todo mundo. Naquela época, eu tinha um sonho só: cantar. É muito pouco. Tenham vários sonhos, por favor”, recomendou à plateia, que lotou o gramado da rotatória para ver Duncan pelo telão.

Hoje, a artista se orgulha em ser, além de cantora, compositora, escritora e roteirista, uma maratonista com muitos quilômetros no currículo. Segundo ela, correr a ajuda a continuar se desafiando.

Benditas coisas que eu não sei: músicas, memórias, nostalgias felizes (Agir, 2022) surgiu da seguinte forma, nas palavras da autora: “Eu tinha vontade de escrever um livro, mas também tenho muito respeito por esse objeto, porque gostar de escrever não faz da gente escritor. Então recebi uma proposta para escrever um livro. Disse sim, depois declinei. No final, aquele livro interrompido virou este, o Benditas coisas. Eu digo que é um livro de conversas”, explicou.

Alice Granato e Zélia Duncan (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

Mesmo assim, ela conta que a poesia ainda é o tipo de escrita que mais a interessa. “O mundo sem poesia seria mais difícil do que já é”, sentenciou.

De poesia também é feita a música de Duncan. Seu álbum autoral mais recente, Agudo grave (2026), parte do desejo de experimentar. “É um álbum surpreendente em relação à minha vida. E surpreende porque eu sempre tento mudar o rumo”, disse.

Para ela, a última canção do disco, uma composição do músico paulista Itamar Assumpção (1949-2003), resume essa trajetória. “Eu acho essa música a minha cara. Ela se chama ‘Que tal o impossível?’. E eu quero o impossível, eu sou o impossível.”

O medo de perder a voz

A artista confessou um de seus maiores medos: perder a voz. “Meu apelido entre meus amigos mais antigos é Florzinha de Estufa, porque sempre fui muito paranoica. Eu acordava de manhã e já colocava um casaco, não importava o tempo que estivesse lá fora. Tinha pavor de que minha voz me abandonasse.” Aos poucos, a artista entendeu que sua voz não era tão frágil, mas mesmo assim ela nunca deixou de cuidar de seu instrumento de trabalho.

Em 2017, quando foi diagnosticada com um câncer de tireoide, o medo de perder a voz voltou com força total.

“Foi como se um raio tivesse caído na minha cabeça. Não fumo e não bebo; tinha corrido quinze quilômetros naquela semana, já tinha participado de cinco maratonas; sempre fui a saudável da turma e estava com câncer de tireoide. Os primeiros momentos foram apavorantes; fiquei com muita raiva”, afirmou. 

Passado o choque inicial, a pergunta que a rondava era: “como minha voz vai sair dessa?”. 

Atualmente, passado o período mais difícil, a artista acredita que o mais importante é estar saudável para o caso de alguma doença aparecer, porque esse é o melhor modo de enfrentá-las.

Após confissões e momentos em que fez a plateia rir, Zélia Duncan encerrou a mesa cantando à capela os primeiros versos de uma das canções de seu novo álbum. “Sinto agudo e canto grave”, diz o verso. O mundo sem poesia seria mais difícil. Sem essa voz, também.


A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21hA Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.

Quem escreveu esse texto

Lúcia Nascimento

Escritora e jornalista, doutoranda em teoria literária na USP.