Ministério da Cultura apresenta
Mesa Águas de março n’A Feira do Livro (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

A FEIRA DO LIVRO 2026,

Ensaístas cantam genialidade de Tom Jobim em ‘Águas de março’

Arthur Nestrovski, Augusto Massi e Walter Garcia iluminaram aspectos da canção que parece um balanço do Brasil

06jun2026

A genialidade de Tom Jobim foi cantada na mesa Águas de março, que reuniu no Espaço Motiva Tablado Literário na sexta-feira (5) o crítico literário e professor da USP Augusto Massi, o compositor Arthur Nestrovski e o professor da USP Walter Garcia. Os três são autores de ensaios que compõem Águas de março: sobre a canção de Tom Jobim, volume recém-lançado pela Editora 34 que ilumina uma das criações mais famosas do maestro.

Era março de 1972, Jobim estava em seu sítio em Poço Fundo, na região serrana do Rio de Janeiro, quando a canção começou a nascer. Cerca de um mês depois, foi registrada em estúdio e acabou imortalizada na voz de Elis Regina.

“Você tem ‘é a lama, é a lama’, a ruína caindo, e uma promessa de vida, um projeto de casa. Na verdade, é um balanço entre aquilo que se anuncia que vai ser construído e aquilo que está ruindo e nunca finaliza de vez”, afirmou Garcia.

Ele retomou ideias dos críticos Antonio Candido e Roberto Schwarz para apontar que, por mais lírica que seja a canção, ela não deixa de se relacionar com o processo histórico.

“O ecológico Tom estava percebendo isso”, disse Garcia. “Um Brasil rural que vai ruindo, mas nunca termina de ruir, e assentado sobre o trabalho escravo — a base do Brasil rural — e um Brasil que se anuncia urbano, mas que também nunca se constrói e acabou dando no que deu.”

Operário da composição

Nestrovski ressaltou o artesanato da composição de Jobim, a quem chamou de “operário da composição”. “As intuições são geniais e essas intuições fazem de Tom Jobim Tom Jobim”, disse.

O compositor Arthur Nestrovski (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

“Não se fala suficientemente de Tom Jobim como letrista, ele fez as letras de ‘Águas de março’, ‘Wave’, ‘Passarim’, ‘Luiza’, ‘Lígia’, ‘Corcovado’. Só como letrista ele já estaria consagrado no cancioneiro brasileiro”, lembrou Nestrovski.

Ao comparar “Águas de março” e “Construção”, canção de Chico Buarque lançada no ano anterior à de Jobim, Massi observa dois movimentos opostos. 

“‘Construção’ é um momento de destruição de um sujeito socialmente, é um horror”, apontou o ensaísta. “O Tom fez o contrário. Estava no meio do mato, com o material de construção de uma casa que ele precisava fazer, numa época que não é para construir uma casa, como ele mesmo comenta em entrevistas. No entanto, ele vai falando do caco de vidro, da lama, do prego. Quando a gente percebe, o Tom ergue a casa.”


A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h

A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.

Quem escreveu esse texto

Guilherme Magalhães

Jornalista e mestrando em literatura brasileira na USP.