Ministério da Cultura apresenta
A escritora Cidinha da Silva (Nilton Fukuda/Terebi/A Feira do Livro)

A FEIRA DO LIVRO 2026,

Cidinha da Silva discute o papel de autoras negras: ‘Não escrevo para educar ninguém’

A autora do recém-lançado Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras e a poeta Tatiana Nascimento relatam suas experiências no mercado editorial

06jun2026

Cidinha da Silva discutiu a experiência de autoras negras no mercado editorial brasileiro nesta sexta (5), n’A Feira do Livro. O tema é abordado em seu lançamento Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: nós e os livros (Relicário), que reúne dezesseis ensaios da autora e integra a coleção Nos.Otras, dedicada às autoras latino-americanas. A mesa, com a também escritora, poeta e compositora Tatiana Nascimento, teve mediação da poeta e educadora Jenyffer Nascimento.

“São textos sobre as agruras e as vitórias da nossa presença no mercado editorial. Eu não diria que tem delícias, particularmente não as vejo”, descreve Silva, também autora de títulos como Um Exu em Nova York (Pallas, 2018), vencedor do prêmio da Fundação Biblioteca Nacional, Vamos falar de relações raciais? (Autêntica, 2024) e Só bato em cachorro grande, do meu tamanho ou maior: 81 lições do Método Sueli Carneiro (Rosa dos Tempos, 2025).

Durante a conversa, as debatedoras leram trechos de Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras que as tocaram durante a leitura. “O livro fala sobre não nos deixar sucumbir pela distopia que o racismo estabelece para as nossas vidas”, disse Tatiana Nascimento. “Cidinha nos mostra que, sim, aqui estão as agruras, mas conseguimos criar mecanismos de reconhecimento e escrutínio de um sistema de silenciamento.”

A escritora, poeta e compositora Tatiana Nascimento (Nilton Fukuda/Terebi/A Feira do Livro)

Jenyffer Nascimento vê a obra como uma bússola: “A batalha das autoras negras é para que sejamos lidas e interpretadas nas nossas individualidades”.

Silva confronta a noção de que estaria falando sobre temas dos “bastidores” do mercado. “Se a gente não coloca uma série de questões no debate público, elas ficam circunscritas a uma certa pessoalidade que não nos leva a lugar nenhum. Publicizar certos temas é, muitas vezes, uma estratégia de sobrevivência e de não adoecimento”, afirmou. “Não precisamos engolir sapos. É bom colocar o sapo, para todo mundo ver o tamanho que ele tem.”

Educadoras da branquitude

Uma das questões colocadas pelo livro é a imposição de um papel ativista antirracista ou didático à literatura feita por mulheres negras — muitas vezes em detrimento de seu valor estético. 

“A escritora negra é vista como eterna reeducadora. Há pessoas que assumem esse lugar, e tudo bem, elas fazem o que quiserem. O problema para mim está na atribuição desse papel para a gente. A mim, particularmente, não me interessa. Eu não escrevo para educar ninguém”, disse Silva.

Para a autora, a ideia de escrevivência, conceito criado por Conceição Evaristo para descrever uma prática literária que engloba memória coletiva e ancestralidade afro-brasileira, acabou enclausurando escritores negros. 

Jenyffer Nascimento, Cidinha da Silva e Tatiana Nascimento (Nilton Fukuda/Terebi/A Feira do Livro)

“Isso nos amarrou a um lugar de produção literária muitas vezes difícil de defender como literatura”, acrescentou Tatiana Nascimento. Ela ressaltou o trabalho memorialístico realizado por Cidinha da Silva, que evoca em seus ensaios autoras como Carolina Maria de Jesus e Maria Firmina dos Reis.

Silva também criticou políticas de representatividade limitadoras no mercado editorial. A escritora observa que algumas editoras, ávidas pela representação negra em seus catálogos, contratam livros sem um investimento maior, o que resulta em esquecimento. Para ela, autores negros não recebem segundas chances da mesma forma que autores brancos. 

“Em um dos ensaios, falo de um grupo de jovens autoras brancas que surgiram nos anos 90 e receberam muito investimento de grandes editoras. Elas não ‘deram certo’, não vingaram, mas continuaram presentes no mercado, publicando em editoras de médio porte, participando de júris de concursos e de prêmios e assinando críticas literárias”, aponta. “Não tenho a ilusão de que isso vai acontecer conosco, autores negros. Nada está assegurado para a gente.”


A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h

A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.

Quem escreveu esse texto

Gabriela Caputo