Ministério da Cultura apresenta
A pesquisadora Eliane Robert Moraes no Tablado Literário Mário de Andrade (Nilton Fukuda/Terebi/A Feira do Livro)

A FEIRA DO LIVRO 2026,

Entre o sujo e o sublime, Eliane Robert Moraes dá aula sobre erotismo na literatura brasileira

A escritora e pesquisadora falou para uma plateia lotada sobre o erotismo presente na obra de Manuel Bandeira, Dalton Trevisan, Hilda Hilst e Sérgio Sant’Anna

06jun2026

A escritora Eliane Robert Moraes deu uma verdadeira aula sobre o lugar do erotismo na literatura brasileira na tarde desta sexta-feira (5). Ela conversou com o editor e crítico literário Schneider Carpeggiani sob os olhares atentos de uma plateia lotada no Tablado Mário de Andrade, n’A Feira do Livro.

A autora de A parte maldita brasileira, ensaio publicado em 2023 pela Tinta-da China Brasil, selo editorial da Associação Quatro Cinco Um,  falou sobre o erotismo presente na obra de autores brasileiros como Manuel Bandeira, Dalton Trevisan, Hilda Hilst e Sérgio Sant’Anna.

Para Moraes, o que define a boa literatura erótica é o contato entre o alto e o baixo. Ela citou como exemplo A filosofia na alcova, livro de 1795 do francês Marquês de Sade. “Esse livro, como quase toda a obra de Sade, mistura cenas altamente obscenas de orgias com discursos filosóficos, em que ele cita desde grandes filósofos da antiguidade até os de sua época, do Iluminismo.”

Surgimento do erotismo

Para a escritora, é impossível separar o erotismo do surgimento da literatura. “Está presente desde que a literatura existe”, afirmou, citando a comédia Lisístrata, do grego Aristófanes, um dos livros mais obscenos da Grécia antiga. “Absolutamente obsceno”, reforçou.

Mesa Entre o sujo e o sublime (Nilton Fukuda/Terebi/A Feira do Livro)

“Não teve alguém que inventou o erotismo. Ele está aí, é uma dimensão fundante da nossa humanidade. E a literatura, como está o tempo inteiro escarafunchando na nossa humanidade, sempre vai mexer com isso”, disse. 

Moraes falou também do clássico Lolita, de Vladimir Nabokov, publicado em 1955 — um livro erótico, mas sem palavras “sujas”. “Hoje definiríamos Lolita como um livro sobre um pedófilo: um homem obcecado por uma menina de treze anos. É um livro simples, não tem um palavrão, não tem uma palavra suja. Chega a ser de uma delicadeza incrível”, explicou. 

Para Moraes, essa é a dualidade do alto e do baixo: um livro que na forma é tão lírico, e que coloca o leitor diante da consciência de um pedófilo. “Sempre essa coisa entre o sublime e a sujeira.”

Mário de Andrade

Moraes falou também sobre como, apesar de sexo e erotismo não serem a primeira coisa que vem à cabeça quando falamos de Mário de Andrade, isso sempre esteve presente na obra dele.

“Quando ele se tornou um autor nacional, que está falando do que é o Brasil, houve um certo constrangimento de nós, universitários, aceitarmos o quanto de porcaria tem no livro de Mário de Andrade”, disse, esclarecendo que “porcaria” era a palavra que o próprio escritor usava para se referir a erotismo.

Eliane Robert Moraes n’A Feira do Livro (Nilton Fukuda/Terebi/A Feira do Livro)

Para Andrade, erotismo era uma palavra fina demais para aquilo que designa. “Mário dizia assim: ‘bota dois brasileiros juntos, estão falando porcaria’”, contou. 

Macunaíma é um livro absolutamente sexual. Macunaíma está o tempo inteiro brincando, e brincar é fazer sexo. Um personagem completamente sexualizado”, explica sobre o clássico de Andrade. Robert Moraes contou ainda como o modernista foi fundamental para que ela seguisse no ofício da pesquisa literária do erotismo. 

“Ele dizia assim: o Brasil é um país que tem uma pornografia desorganizada”, conta. “O dia em que eu li isso, quando estudava já erotismo, eu falei: ‘Nossa, ele está falando comigo, eu preciso fazer algo pelo país!’”, contou, levando a plateia ao riso. 

Concluiu avaliando que o erotismo na literatura brasileira é de altíssimo nível. “É o baixo nível em alto nível de confecção literária na forma.”

Público assistindo à conversa Entre o sujo e o sublime (Nilton Fukuda/Terebi/A Feira do Livro)

A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21hA Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.

Quem escreveu esse texto

Beatriz Souza

Jornalista e produtora do podcast 451 MHz.