Ministério da Cultura apresenta
As escritoras Estelle-Sarah Bulle e Bianca Santana e a jornalista Adriana Ferreira Silva (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

A FEIRA DO LIVRO 2026,

Estelle-Sarah Bulle e Bianca Santana narram o encontro com a escrita de si

Autoras de romances que partem de raízes familiares, a francesa e a paulistana conversaram sobre a busca pela identidade mestiça

06jun2026

A escrita de autoras negras que tematiza origens familiares foi assunto d’A Feira do Livro 2026, durante a tarde da sexta (5), na mesa Laços de família, composta pela francesa Estelle-Sarah Bulle e a paulistana Bianca Santana, com mediação da jornalista Adriana Ferreira Silva. A conversa também tocou em outros temas, como a busca da voz narrativa e da identidade mestiça, e relatou casos de racismo tanto na França quanto no Brasil.

Nascida em Créteil, na periferia de Paris, Bulle é filha de pai guadalupense e mãe franco-belga. As origens caribenhas estão no centro de seu romance de estreia, Onde o vento faz a curva (trad. Letícia Mei, Editora 34, 2026), que constrói um retrato familiar no qual uma jovem, criada nos subúrbios parisienses como ela, recorre às histórias de uma tia, Antoine, para compreender quem é. 

A escritora francesa Estelle-Sarah Bulle (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

“Na literatura francesa, em 80% dos casos, a história acontece em Paris, não muito longe do bulevar Saint-Germain, com pessoas brancas”, relatou Bulle. “Acho que meu ponto de vista é original.”

A procura pela própria identidade também é uma marca da literatura de Santana, autora de Quando me descobri negra (Fósforo, 2023) e Apolinária (Fósforo, 2025), sua estreia na ficção. No romance, ela narra a trajetória da avó que emigrou do interior da Bahia para São Paulo nos anos 40, alternando entre a voz da matriarca e a sua própria.

Ao lembrar como chegou na maneira como a personagem Apolinária usa a linguagem, Santana mencionou personagens de Guimarães Rosa, com os quais relacionou “o tom e a fala” da avó. “Aliei o pretuguês de Lélia Gonzalez com a experiência sertaneja”, resumiu.

A escritora paulistana Bianca Santana (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

Além de utilizar vozes de ancestrais para trilhar o percurso da escrita de si, os livros de Bulle e Santana têm em comum narradores que se revezam e, em alguns momentos, se contradizem. 

“Queria que os leitores tivessem a experiência de uma conversa em família durante uma refeição”, explicou Bulle, acrescentando que procurou com isso deixar os leitores decidirem qual dos narradores estava com a razão.

Na conversa, as duas descobriram outra semelhança: a transição da terceira pessoa — em que ambas escreveram as primeiras versões de seus livros — para a primeira, mais direta e coloquial. “Acho que funcionou”, brincou a francesa.

Identidade mestiça

Bulle também falou sobre como grande parte da sociedade francesa ainda trata como estrangeiros os cidadãos nacionais descendentes de imigrantes, especialmente quem exibe na pele tons escuros ou mestiços. Ela contou que, sempre que lhe perguntam de onde vem e ela responde com o nome da cidade francesa, ouve dos interlocutores: “E antes?”. “Antes eu não tinha nascido”, revelou o que costuma responder.

Santana afirmou que, às vezes, tem sua nacionalidade confundida e que já foi tratada, na própria França, como francesa “filha de argelinos”. Para ela, esse tipo de experiência levou a uma constatação: “Existem pessoas da nossa cor [parda ou mestiça] em todos os lugares, porque tem mistura em todos os lugares”, disse. “Todo mundo tem ancestrais que foram de um lugar para outro, porque os seres humanos são caminhantes. A cor da mistura é uma síntese do que é tão humano: o encontro.”

Racismo

Durante a mesa, o público ouviu, em primeira mão, o relato de Bulle sobre uma situação de racismo pela qual ela passou agora em São Paulo. A escritora contou que, sem saber em que andar seu hotel servia o café da manhã, apertou o botão do elevador que a levou a uma área restrita a trabalhadores do lugar.

Ao perguntar onde ficava o refeitório, uma pessoa da equipe do hotel lhe indicou o espaço reservado a funcionários. Bulle disse que, ao chegar ao local, logo entendeu a situação e informou que era hóspede. Foi então levada à área que queria afinal chegar. A mediadora Adriana Ferreira Silva e Santana repudiaram o tratamento recebido pela francesa e manifestaram solidariedade a ela, em nome d’A Feira do Livro.

Pouco antes, Bulle havia contado que funcionários da empresa aérea francesa pela qual viajou ao Brasil falaram inicialmente português com ela, por achar que a escritora era brasileira. Também disse que, numa viagem a Cuba, foi confundida com uma prostituta local quando andava numa área de Havana onde a presença delas é comum.

“Às vezes sou brasileira, às vezes cubana, mas nunca de Créteil, onde nasci”, disse.


A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h

A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.

Quem escreveu esse texto

Vitor Pamplona

Jornalista, é editor da Quatro Cinco Um