A FEIRA DO LIVRO 2026,
Precisamos parar de falar que o STF salvou a democracia, diz Conrado Hübner Mendes
Mesa com pesquisadores do LAUT discutiu como desarmar o autoritarismo e o que está em jogo nas eleições deste ano
05jun2026 • Atualizado em: 08jun2026Em meio ao noticiário conturbado do caso Banco Master envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), políticos e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, pesquisadores do Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo (LAUT) debateram, nesta sexta-feira (5), na mesa Como desarmar o autoritarismo, no Palco da Praça d’A Feira do Livro, o papel da corte na defesa da democracia após a ameaça autoritária do governo Bolsonaro e o que está em jogo nas eleições deste ano. A conversa, mediada pelo jornalista Antonio Mammi, marcou o encontro entre Conrado Hübner Mendes, Fernando Romani e Nina Santos.
“A gente precisa parar de falar que o Supremo salvou a democracia. Muita gente salvou, ele foi um participante do processo de ajudar a democracia a sobreviver a um momento de tensão. Não tem ‘salvar’ porque a democracia nunca está salva, mas tem uma resistência a uma tentativa de golpe”, afirmou Hübner Mendes, professor de direito constitucional e um dos organizadores, com Fernando Romani Sales e Lucas Petroni, de Como desarmar o autoritarismo no Brasil.
(Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)
Nessa coletânea de ensaios, publicada este ano pela Tinta-da-China Brasil (selo editorial da Associação Quatro Cinco Um), dez especialistas escrevem sobre arenas decisivas da vida democrática e particularmente permeáveis à radicalização autoritária: as Forças Armadas e as polícias, o sistema de justiça, a educação, a internet e a religião.
“É um problemão para a autoridade do STF tudo o que os ministros fazem individualmente, pois podemos perder o respeito por essa instituição”, disse Hübner Mendes, ao responder a uma pergunta do mediador, o editor do Nexo Antonio Mammi, sobre o caso Master.
“Essa instituição [o STF], que é tão importante para defender permanentemente a democracia e a Constituição, tem muitos inimigos externos. A gente assistiu quem são esses inimigos externos, que têm como projeto de Brasil fechar o STF”, lembrou o professor, referindo-se ao campo de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro e a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023.
“Mas, para além desses inimigos externos, que são sérios e precisam ser enfrentados, a gente também percebe que a autoridade do STF é corroída por alguns dos seus próprios membros. Condutas assim fazem a gente perder a confiança de que aquele tribunal faz um esforço sério para ser e parecer imparcial. Um Supremo fraco é um Supremo que deixa a democracia mais em risco”, observou o autor de O discreto charme da magistocracia (Todavia, 2023).
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Romani, que também participou da mesa ao lado de Hübner Mendes e Nina Santos, secretária-adjunta de políticas digitais da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, ressaltou ser fundamental “separar os críticos legítimos do STF e da democracia, aqueles que querem criticar para melhorar a instituição, daqueles que fazem a crítica só para tentar destruir o STF ou a democracia brasileira”.
Propostas
Ao comentar o espírito da coletânea de ensaios recém-publicada, Hübner Mendes disse que “o livro está muito menos preocupado com despolarização e mais preocupado com desradicalização. São coisas diferentes”, ponderou ele.
“Polarização é parte da democracia. Essa palavra, que está na ponta da nossa língua quando nos referimos a esse momento político particular, se você não qualificá-la bem, parece que estamos num ambiente em que os dois lados se igualam. Uma expressão um pouco melhor é polarização assimétrica”, sugeriu o professor.
“A abordagem do livro acaba sendo muito mais em reformas nas instituições do que na mentalidade das pessoas ou comportamento dos grupos que compõem a sociedade brasileira”, explicou Romani, que citou como uma das propostas presentes no livro a criação de um observatório permanente do Judiciário reunindo não só atores políticos, mas também membros da sociedade civil.
Santos, que assina com Francisco Brito Cruz o ensaio sobre comunicação digital presente no livro, destacou que para se construir um ambiente digital democrático “não basta pensar nos conteúdos individualmente”. “A questão principal não é olhar para cada conteúdo e tentar dizer ‘isso é verdade’ ou ‘isso não é verdade’. Nenhum de nós, nem pessoalmente nem institucionalmente, poderia fazer isso, seria extremamente maléfico para qualquer sociedade democrática.”
Ela comparou as plataformas digitais a supermercados, que não necessariamente produzem tudo, mas são responsáveis por organizar os itens nas prateleiras e promover determinados produtos.
“De 2022 para cá, mudou o lugar do Brasil no mundo em relação a esses temas digitais. Hoje o Brasil é visto como um dos poucos países que têm se dedicado a enfrentar a questão da regulação do ambiente digital e que, portanto, pode ser visto como um país antagônico a determinados interesses”, afirmou Santos.
Numa semana em que o Brasil foi alvo de um novo tarifaço proposto pelo governo Donald Trump e a quatro meses do primeiro turno das eleições, os pesquisadores foram questionados sobre o que estará em jogo no pleito de outubro.
“Está em jogo a nossa capacidade de, enquanto país que vive no século 21, mostrar se temos ou não soberania em uma sociedade digitalizada”, afirmou Santos.
Para Romani, o resultado das urnas impactará “não só a manutenção da democracia brasileira, mas a continuidade da sua reconstrução”.
Hübner Mendes lembrou que o Brasil “fez a lição de casa” ao julgar e condenar o ex-presidente Bolsonaro, militares e autoridades do governo anterior pela trama golpista que culminou nos ataques de 8 de janeiro de 2023, mas a história não acaba aí.
“Não é que o projeto que desafia o atual governo anunciou uma anistia como uma das suas primeiras medidas? A gente fez a lição de casa, mas nada é fácil, nada é tão garantido assim”, alertou.
Radicalização
O cenário político conflagrado também foi tema da mesa Como desradicalizar a religião e o sistema de justiça, no Tablado Literário Mário de Andrade, que aconteceu na quinta (4) e que reuniu Lucas Petroni, um dos organizadores de Como desarmar o autoritarismo no Brasil, e alguns autores de ensaios do volume: Celly Cook, Paulo Eduardo Alves e Ana Carolina Evangelista.
“Diagnosticar a crise e fazer a crítica ao sistema de justiça é uma tarefa complexa porque a gente não pode jogar fora o bebê com a água do banho”, ressaltou Cook.
Alves afirmou que “nenhuma proposta vai ser muito eficaz se não considerar a cultura organizacional do Judiciário”, que é elitista, conservadora e autoritária.
Ao comentar a crescente relevância dos evangélicos na cena da política brasileira contemporânea, Evangelista ponderou que o debate não pode se dar nos termos de “proibir ou restringir nenhum aspecto de liberdade religiosa”. “Não é sobre responsabilizar a religião ou o campo religioso na sua diversidade pelo autoritarismo e radicalização política que estão acontecendo no Brasil.”
A Feira do Livro 2026
A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.
A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro
Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h
A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.
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30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita
A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.
A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.