Ministério da Cultura apresenta
A autora Ana Maria Machado (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

A FEIRA DO LIVRO 2026,

Ana Maria Machado critica excesso de didatismo na literatura brasileira hoje

Escritora relembrou atuação como jornalista na época da ditadura em mesa aplaudida de pé por público d’A Feira do Livro

05jun2026

Instada a opinar sobre a literatura infantojuvenil produzida no Brasil hoje, Ana Machado Machado se divide entre a admiração e a crítica.

De um lado, ela celebra a diversidade crescente das obras que chegam às livrarias, assinadas por autores de diferentes etnias, classes e regiões do país. De outro, critica o que considera um didatismo excessivo não só das publicações voltadas às crianças, como também aos adultos.

“O problema da literatura hoje é que ela acha que tem que ensinar coisas o tempo todo. Mas a literatura é arte, é linguagem, não é um projeto pedagógico.” A declaração da vencedora do prêmio Hans Christian Andersen, considerado o Nobel da literatura para crianças e jovens, foi feita na manhã desta sexta-feira (5), em um encontro com o público d’A Feira do Livro que terminou aplaudido de pé.

A autora Ana Maria Machado (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

Apesar de ser uma das mais importantes autoras infantojuvenis do país, a conversa da escritora com Hubert Alquéres, vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), centrou-se menos nesse aspecto mais conhecido de sua carreira do que em outra faceta sua: a atuação como jornalista na época da ditadura.

Machado contou, aliás, que foi a sua experiência na imprensa que provocou o seu primeiro contato com a literatura infantojuvenil. Em 1969, ela, Joel Rufino e Ruth Rocha foram convidados pela editora Abril para escrever contos para uma revista que viria a ser a Recreio.

Seus nomes haviam sido escolhidos justamente porque nenhum deles escrevia para crianças ou adolescentes. Os editores, relembrou Machado, faziam questão de que a linguagem da revista não fosse de “‘nhém-nhém-nhém’ ou ‘tatibitati’”.

Questionada por alguém na plateia sobre as diferenças entre escrever para os públicos infantil e adulto, Machado respondeu com um gracejo. “Vocês por acaso só gostam de adultos ou de crianças?”, provocou, suscitando risos e aplausos. “O que me leva a escrever é que eu gosto de linguagem e gosto de gente. E a literatura é um ótimo jeito de exercitar esses dois amores.”

Censura ontem e hoje

Na conversa, Machado deteve-se em especial no período que passou à frente da Rádio Jornal do Brasil, na década de 80. Ela contou que, quando assumiu a chefia do departamento de jornalismo do veículo, ele vivia um momento delicado — mais um desafio à censura e a rádio seria tirada do ar.

A solução que ela e a equipe encontraram para não bater de frente com os militares foi noticiar eventos que sabiam que seriam censurados de forma indireta. Por exemplo, registrando uma manifestação contra o regime por meio dos efeitos que ela tinha provocado no trânsito. “O ouvinte foi se acostumando a ouvir nas entrelinhas”, disse.

Alquéres aproveitou o comentário para questionar Machado sobre um episódio recente de tentativa de censura, em que pais dos alunos de um colégio militar no Distrito Federal se organizaram para pedir a retirada do livro A bolsa amarela, de Lygia Bojunga, do rol de leituras obrigatórias.

Machado respondeu dizendo acreditar que a censura praticada hoje é fundamentalmente diferente daquela do regime militar. No passado, disse, os vetos partiam de cima, de autoridades governamentais, e eram implementados verticalmente. A que se pratica hoje, por outro lado, é circular, com denúncias vindo de todos os lados.

“É uma coisa muito séria, esse mecanismo de proibições. É gente que se acha no direito de nos proibir de imaginar só porque algo não está exatamente de acordo com o que eles pensam do mundo.”


A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h

A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.

Quem escreveu esse texto

Clara Balbi

Jornalista, foi editora-assistente da Ilustrada, caderno de cultura da Folha de S.Paulo