Ministério da Cultura apresenta
O escritor Daniel Munduruku (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

A FEIRA DO LIVRO 2026,

Literatura ajuda Brasil a se reconhecer como indígena, diz Daniel Munduruku

Autor abordou apagamento da memória indígena na América Latina em conversa com Daniela Catrileo, escritora chilena do povo Mapuche

04jun2026

Para o escritor Daniel Munduruku, o Brasil ainda é um adolescente em busca da própria identidade — e cabe à literatura guiá-lo à maturidade, confrontando-o com as violências do passado.

“O que faz um adolescente deixar de ser adolescente são os ritos de passagem. E não há ritos de passagem sem dor. O Brasil ainda precisa sofrer essa dor para se transformar no adulto que precisa ser.”

A declaração ocorreu durante uma conversa de Munduruku com a também escritora Daniela Catrileo, chilena do povo Mapuche, mediada pelo jornalista Leão Serva no Palco da Praça d’A Feira do Livro, nesta quinta-feira (4).

A escritora Daniela Catrileo e o escritor Daniel Munduruku (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

O autor do recém-publicado romance Fantasmas (Rocco) abordou com a colega, diante da plateia lotada, o apagamento da memória indígena na América Latina e o movimento crescente de reivindicação dessas identidades na região.

Serva citou estatísticas que dizem que, enquanto no Chile os indígenas representam 13% da população nacional, no Brasil eles são apenas 1% — uma discrepância que ele descreveu como “reveladora da dimensão do massacre” sofrido pelos povos originários brasileiros desde a colonização.

Munduruku disse acreditar que a estatística brasileira é menos uma amostra do genocídio dos indígenas e mais do seu extermínio simbólico no país. O escritor lembrou que os brasileiros negaram essa ancestralidade por décadas, fosse por vergonha dos estereótipos associados a ela, fosse devido às ameaças que manifestá-la poderia representar à integridade física deles. 

“Não à toa, quando eu era criança, eu queria deixar de ser índio, queria ser branco, loiro”, relatou.

Catrileo afirmou que a situação não era muito diferente no seu Chile natal. “É algo transversal na América Latina”, disse a escritora, cujo romance Chilco (DBA, 2025) é protagonizado por uma mulher que nega suas origens familiares quéchuas.

Em compensação, acrescentou a chilena, nos últimos anos ela tem ouvido de muitas pessoas que, embora elas mesmas não sejam indígenas, suas avós eram. “Sempre respondo a essas pessoas que se a sua avó é indígena, você também é. Acho que basta que escavemos um pouco a nossa pele, a nossa memória, para encontrar as raízes indígenas que habitam todo o nosso continente.”

Reescrever a história

Ao longo da conversa, Munduruku destacou que a presença indígena no Brasil só passou a ser reconhecida cerca de quarenta anos atrás, com a redemocratização. Antes da Constituição de 1988, esses povos estavam sob a tutela do Estado, e frequentemente eram impedidos de incluir suas etnias em suas certidões de nascimento.  

Para o autor, se mais artistas como ele tivessem aparecido no cenário cultural não há quatro décadas, mas há um século, talvez a forma como lemos o passado brasileiro fosse diferente.

“Precisamos contar essa história sob outras perspectivas. Quem sabe assim percebemos que os povos indígenas foram grandes combatentes, e que se ainda temos a Amazônia para chamar de nossa, é por causa da resistência deles, que seguem até hoje como a última fronteira de defesa do meio ambiente no Brasil.”

Catrileo, por sua vez, disse que se interessava em especial por contar essas histórias não pela perspectiva do trauma, mas da celebração.

“Muitas vezes nos prendemos à dor, mas ela imobiliza. Acho que se nossos ancestrais sobreviveram para que estivéssemos aqui hoje, isso também se deu por causa de um espírito festivo que devemos reivindicar. Nada é só a dor, há uma dança entre ela e o gozo.”


A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h

A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.

Quem escreveu esse texto

Clara Balbi

Jornalista, foi editora-assistente da Ilustrada, caderno de cultura da Folha de S.Paulo