Ministério da Cultura apresenta
A comunicadora Lia Ludwig, a educadora parental Claudia Alaminos e a jornalista Laura Mattos (Matias Maxx/Terebi/A Feira do Livro)

A FEIRA DO LIVRO 2026,

Alunos voltaram a fazer barulho nos corredores, diz educadora sobre proibição de celulares

Inspiradas em Jonathan Haidt, educadora parental e líder do Movimento Desconecta discutiram os desafios ligados ao uso de telas por crianças e adolescentes durante A Feira do Livro

03jun2026

A discussão sobre o uso excessivo de telas por crianças e adolescentes acarretou duas leis recentes no Brasil: a restrição do uso de celular nas escolas (Lei 15.100), em vigor desde janeiro de 2025, e o ECA Digital (Lei 15.211), que amplia o Estatuto da Criança e do Adolescente para abarcar o ambiente virtual, vigente desde março. 

Os resultados preliminares dessas legislações, bem como os desafios de educar jovens em um mundo hiperconectado, foram tema d’A Feira do Livro na tarde de terça (2). 

A educadora parental Claudia Alaminos e a comunicadora Lia Ludwig, líder do Movimento Desconecta, se reuniram com a jornalista Laura Mattos, repórter especial de educação da Folha de S.Paulo, no Espaço Rebentos, focado no público infantojuvenil.

A conversa partiu das ideias do psicólogo americano Jonathan Haidt, autor de A geração ansiosa (trad. Lígia Azevedo, Companhia das Letras, 2024), que, neste ano, lançou uma versão do livro para o público infantojuvenil. A geração incrível (Companhia das Letrinhas) acerta, segundo as convidadas, em caracterizar os jovens que optam por uma vida desconectada como “rebeldes” e heroicos.

“Professores relatam que os alunos voltaram a fazer barulho nos corredores. Isso é a vida de uma escola”, observa Alaminos. “Os próprios estudantes contam que as notas melhoraram, que conseguem prestar mais atenção no que o professor diz – e concordam que a competição com o celular estava muito desleal.”

Ex-esquisitos

Em 2024, mesmo ano em que A geração ansiosa foi publicado, surgiu em São Paulo o Movimento Desconecta, no qual Ludwig atua como líder de expansão. O grupo começou com seis mães e com a proposta de criar um combinado social para adiar o acesso a smartphones e redes sociais até os catorze e dezesseis anos, respectivamente.

A ideia é construir uma parceria com as escolas para a conscientização digital e o Desconecta esteve envolvido nas articulações que resultaram na proibição de celulares nas escolas. Em seu livro, inclusive, Haidt menciona a importância do engajamento das mães nessas decisões.

Lia Ludwig (Matias Maxx/Terebi/A Feira do Livro)

Ludwig reconhece que o movimento ainda precisa se expandir, mas destaca uma grande conquista: a mudança de paradigma. “Os pais que topam preservar a infância não são mais vistos como esquisitos, não precisam se justificar.” Alaminos também vê essa inversão. 

“Hoje a informação está disseminada; todos sabem dos prejuízos das telas no desenvolvimento. Agora, quem sente que precisa se justificar é quem dá o celular para a criança. É um excelente sinal”, diz Alaminos.

O que fazer?

Segundo a educadora, a questão das telas está entre as principais causas da consulta em educação parental por parte das famílias. As queixas são dificuldade de controle, isolamento e falta de sono. 

Claudia Alaminos (Matias Maxx/Terebi/A Feira do Livro)

Nesse contexto, as convidadas ressaltam a pertinência de leis que proíbem redes sociais para menores de dezesseis anos, como já acontece na Austrália. “Talvez seja um mal necessário”, diz Alaminos. Num cenário em que os pais sofrem para colocar limites, confrontados pelos filhos com a justificativa de que “todo mundo tem, todo mundo usa”, a existência de uma lei para amparar as decisões seria positivo. 

Combinado não sai caro

O equilíbrio entre ter empatia com esses jovens, que já nasceram on-line, e dizer “não” foi outro ponto do debate. 

“Educar não é seguir a cultura; é filtrar o que nos favorece da cultura que está imposta. Senão a educação não seria necessária”, diz Alaminos. “Queremos passar nossos valores e decidir o que é melhor para eles enquanto ainda estão sob nossa responsabilidade”, conclui a educadora.

Ludwig chama atenção para a importância da educação midiática. “Não adianta adiar o acesso sem conscientização, sem letramento digital, sem que os jovens entendam o que é usar bem a tecnologia e o que é ser usado por ela. Esse diálogo precisa acontecer sempre e a cada nova idade”, recomenda a comunicadora.

O exemplo dado pelos pais é indispensável. Elas frisam que os tutores devem mostrar um uso saudável da tecnologia, limitando seu próprio tempo de tela e criando espaços livres de celular em casa, como durante as refeições, ou estabelecendo a proibição total de telas no quarto. 

“O modelo que nós criamos é muito mais potente e poderoso do que as palavras que nós falamos”, diz Alaminos. “O movimento tem de ser familiar; é impossível seguir essas medidas de forma solitária. Ou os pais entram nessa dança ou as coisas não vão acontecer.”

Oficinas

Além de debates, o Espaço Rebentos oferece, durante A Feira do Livro, oficinas criativas para crianças e adultos. Na tarde de terça, foram duas: a primeira atividade contou com público diverso, de todas as idades, para a criação de zines. “Partindo da perspectiva do zine como um lugar de comunicação independente, propusemos que eles contassem uma história que gostariam que o mundo ouvisse, com os desenho e as colagens”, explicou Pedro Queiroz, da equipe educativa do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM).

A segunda oficina, com apoio do Instituto Tomie Ohtake, propôs a construção de mini-livros a partir do tema “céu”. O processo envolveu dobraduras e colagens, com a proposição de perguntas que guiaram a decoração de cada dupla de páginas: o que tem do céu em você?; quando o céu encontra a terra?; o que o céu te ensinou hoje?. 

A educadora Divina Prado, que conduziu a oficina, explica que o conceito de “livro-floresta” é uma analogia com o ecossistema, vivo e complexo, que acomoda relações imprevisíveis e diversas. Para integrar diferentes saberes, o Tomie Ohtake desenvolveu uma série de publicações chamadas de caderno-ensaio — e lança n’A Feira um quinto volume, intitulado Céu. 


A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h

A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.

Quem escreveu esse texto

Gabriela Caputo