Literatura japonesa,
A realidade não basta
Haruki Murakami volta à cidade imaginária de outras histórias para tratar de personagens que não se adequam
08jun2026 • Atualizado em: 07jun2026 | Edição #107Nos romances de Haruki Murakami, os elementos fantásticos não são a essência. O núcleo é o ser humano e a sua inadequação ao mundo, à realidade que o cerca. Numa entrevista de 2003, o escritor diz: “Os protagonistas das minhas histórias são quase sempre essas pessoas que estão vivendo mais ou menos fora do eixo central da sociedade”. Nesse aspecto, repete o fundamento de diversos personagens da literatura (quase todos, talvez), desde Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, à Macabéa, de Clarice Lispector, passando pelo Meursault, de Albert Camus. Em A cidade e suas muralhas incertas, essa inadequação conduz os personagens a um mundo paralelo, reafirmando o que encontramos em outras histórias de Murakami: a realidade não basta.
No novo romance, o escritor revisita a cidade cercada por altas muralhas que imaginou em O fim do mundo e o impiedoso País das Maravilhas, lançado no Japão em 1985, mas publicado no Brasil só em 2024. O livro foi editado em seu país de origem em 2023 e chega agora por aqui, embora o seu núcleo já estivesse em um conto publicado numa revista japonesa em 1980. Em ambas as histórias, há dois mundos conectados. Em O fim do mundo, uma Tóquio moderna é apresentada em paralelo à fantástica cidade amuralhada — a mesma que ressurge no segundo livro em contraste com um lugar provinciano apresentado somente como Z**, onde o narrador–protagonista se emprega numa biblioteca que guarda segredos e frequenta um pequeno estabelecimento para tomar café e escutar jazz.
O leitor que aprendeu a gostar do autor por causa da linguagem sem firulas, da presença reiterada de gatos e das referências a elementos da cultura ocidental, principalmente a música, não se decepcionará. Já foi dito que Murakami se repete em seus romances, o que se constata também neste. A biblioteca, que figura em Kafka à beira-mar (Alfaguara, 2008) e 1Q84 (Alfaguara, 2012), assume papel essencial no novo romance.
O início evoca histórias singelas de paixões adolescentes, mas, já no primeiro capítulo, há a descrição da cidade do título, onde vivem unicórnios, as pessoas não têm sombra e o relógio da praça central não tem ponteiros, pois o tempo inexiste. Nesse lugar vive o “verdadeiro eu” da garota triste e calada por quem o narrador se apaixona. Quem habita a realidade concreta é a sua sombra.
Murakami desafia os limites do real, questionando-o ou ampliando suas possibilidades
Além do protagonista e sua namorada, outros personagens não são nomeados. Podem ser, então, qualquer pessoa — e parecem estrangeiros no mundo em que vivem. O narrador tem poucos amigos e o mínimo contato com a família. Envolve-se com algumas mulheres, mas não consegue manter um relacionamento por muito tempo e chega solteiro aos 45 anos. Cumpre, sem questionar, uma rotina que o leva de casa à biblioteca e de volta para casa. Prepara a comida, cuida com atenção das roupas, faz passeios solitários e dedica bastante tempo à leitura. Koyasu, a quem o protagonista substitui na função de diretor da biblioteca, também se tornou irremediavelmente solitário após uma tragédia familiar, depois da qual substituiu o uso de calças por saias.
A proprietária do café também é uma mulher sozinha. E o adolescente, a quem chamam de rapaz do submarino amarelo devido à parca que sempre usa, com a imagem do Yellow Submarine, dos Beatles, passa os dias lendo na biblioteca, não tem amigos e é indiferente à família. Sua inadequação ao mundo o leva a querer morar na cidade paralela. Ele sabe que lá seguirá sem relações estreitas com outras pessoas, mas essa é a condição de todos que habitam o lugar e ninguém o cobrará por ser assim.
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Como Jorge Luis Borges, que é citado no posfácio, Murakami desafia os limites da realidade, questionando–a ou ampliando suas possibilidades. Em inequívoca referência ao argentino, ainda que não explicitada, o narrador diz:
Da mesma maneira que o curso daquele rio percorre as escuras profundezas subterrâneas, formando um intrincado labirinto, nossa realidade também parece avançar dentro de nós, ramificando-se em múltiplos caminhos.
O escritor japonês parece recuperar o conceito de múltiplas realidades plasmado por Borges no conto “O jardim dos caminhos que se bifurcam”, ainda que numa abordagem menos complexa.
A cidade paralela de Murakami se revela efetivamente como um produto da imaginação. No início da narrativa, a namorada do protagonista lhe conta sobre o lugar onde vive o seu “verdadeiro eu” e ele faz perguntas para compreender como é a cidade. Depois, diz: “E penso em todos os detalhes da cidade sem nome que eu e você criamos juntos. Eu a reforço e coloro com ainda mais detalhes, do meu jeito”. Mais adiante, quando pensa na cidade, não sabe se são lembranças ou fruto da imaginação.
Expectativas
Diversas dúvidas são semeadas ao longo da história. Murakami é eficaz em criar expectativas no leitor. Às vezes, usa o recurso de revelar algo surpreendente no final de um capítulo. Num deles, o narrador descobre que uma pessoa com quem convive, na verdade, já está morta. É claro que o leitor desejará ler o próximo capítulo. Em diversos momentos ele pergunta: De onde surgiu esse personagem? Como chegou à cidade paralela? Algumas indagações serão respondidas, outras não. Por que Koyasu usa saias? A primeira explicação é vaga: “Um motivo para usar saia assim é, bem, porque faz eu me sentir como o verso de um lindo poema”. A razão principal é que se trata de um modo de evitar o assédio: alguém que usa saias não despertará o interesse de nenhuma mulher. Ou seja, é a ruptura com o comportamento que se espera de um homem.
Em última análise, as indagações dizem respeito às tentativas do homem em compreender a si mesmo e a realidade em que vive. Os elementos surreais que atravessam o romance ajudam a elaborar os questionamentos. O leitor, por sua vez, precisa das respostas para compreender os personagens e a história. Mas eles parecem inalcançáveis. Na cidade Z**, ao pensar sobre o rapaz do submarino amarelo, o narrador conclui que ele “não tinha raízes neste mundo”. E se questiona: “Será que eu mesmo estava bem amarrado a algum lugar nesta terra?”. Murakami não dá respostas ao personagem, tampouco ao leitor.
Editoria com apoio Japan House São Paulo
Desde 2019, a Japan House São Paulo realiza em parceria com a Quatro Cinco Um uma cobertura especial de literatura japonesa, um clube de leitura e eventos especiais.
Matéria publicada na edição impressa #107 em julho de 2026. Com o título “A realidade não basta”