O escritor italiano Andrea Bajani (Adolfo Frediani/Divulgação)

Literatura,

Famílias terrivelmente infelizes 

Andrea Bajani expõe a dor, e a beleza da dor, de um filho nada pródigo quando se completam dez anos de seu desligamento da casa paterna

26jun2026 • Atualizado em: 25jun2026 | Edição #107

A resenha ideal para certo tipo de livro deveria ser apenas um palavrão. Não um palavrão que manifeste a reação diante de algo péssimo ou mal escrito, mas aquilo que sentimos ao nos deparar com a dor e com a beleza advinda da dor. O aniversário, de Andrea Bajani, é desses livros. Sua abordagem da história de uma família, que pode ou não ser a dele, causa um efeito de identificação poderoso, particularmente se você for um leitor. Não tenho como saber se esse espelhamento tem a mesma força com uma leitora. Se o leitor tiver saído de uma família comandada por um pai autoritário e violento em algum nível, a identificação pode alcançar proporção aterrorizante.

Contribui o fato de os personagens não terem nome. São apenas o filho, que alcança a condição de narrador quando toma para si as rédeas do romance familiar e passa a escrevê-lo no lugar do pai, além da irmã e da mãe. Quando o livro se inicia, o filho já se desvinculou da família. 

Naquele dia, dez anos atrás, vi meus pais pela última vez. Desde então, mudei de número de telefone, de casa, de continente, ergui um muro inexpugnável, coloquei um oceano entre nós. Foram os melhores dez anos da minha vida.

O aniversário do título corresponde ao decênio desse afastamento.

A anonímia faz com que o leitor se ponha no lugar do filho, ainda que os eventos narrados não coincidam plenamente com os fatos da vida de quem lê. A rememoração lacunar — na qual tais eventos aparecem borrados por expressões como “não me lembro bem”, “minhas lembranças daquelas breves horas que se seguiram àquela primeira mensagem são confusas”, “acho que” foi assim ou assado — dispõe o relato numa zona de dubiedade que, além de emular a fragilidade da memória, sugere o bloqueio traumático do narrador.

O que aconteceu afinal? Nada de extraordinário, somente pequenas violências cotidianas, que se repetem até se tornarem invisíveis para quem as pratica, gerando uma sensação de insegurança e temor em quem as sofre. O relato do narrador se concentra na figura da mãe, uma mulher tímida e submissa aos desejos do pai, cujos rompantes, seguidos de um discurso ressentido e vitimista, conformam uma mescla de insegurança e medo, que o filho interpreta como sua maneira de pedir ajuda. A mãe, mantida por esse homem num lugar de quase inexistência, sem vontades ou qualquer autonomia a não ser de atender a esse apelo, é retratada não como vítima, mas como cúmplice. No entanto, esse filho, que abandona a mãe aos 41 anos de idade, não seria igualmente cúmplice?

O relato se concentra na figura da mãe, uma mulher tímida e submissa aos desejos do pai

Numa ocasião em que a mãe consegue escapar do marido — na verdade, apenas pela desistência dele de acompanhá-la numa viagem a Roma, na qual ela se abriga na casa da sua mãe por não mais que 72 horas para logo regressar, sob chantagem emocional violentíssima, que inclui tevês quebradas e mordidas na mesa da cozinha —, o filho não tem nenhuma participação. “Meu pai a convencera de que não dava conta de fazer nada, e ela acreditou nisso.” A responsável por estimular a fuga da mãe é a irmã, que é a primeira a contestar o controle do pai e que quase não tem espaço no relato do narrador. 

Não se trata de exclusão deliberada, mas da rememoração de um ataque desse filho contra a organicidade de uma família que não se alterará, de um casal cuja relação simbiótica entre dominador e dominada seguirá vigente. Então ao filho resta apenas tirar o time de campo, substituindo a própria família pelo hábito de, em outra cidade, frequentar sempre os mesmos restaurantes, onde estabelece relações de convívio. Em um desses lugares, uma confeitaria, ele conhece a terapeuta, uma senhora de oitenta anos que parece ser o cruzamento ideal de bruxa e filósofo estoico, que o ajudará a tomar a decisão longamente adiada de cortar, em definitivo, relações com a família.

Corte

A mãe é a única personagem merecedora de alguma ternura — ela, com sua perna atrofiada e claudicante devido à poliomielite, que emite a pergunta central do romance escrito pelo filho, feita quando ele a vê pela última vez: “Você vem nos visitar de novo?”. O romance do filho, arrancado simbolicamente das mãos do pai, não oferece a resposta negada à mãe, mas talvez relacione as causas pessoais do afastamento definitivo, que não são poucas ou fáceis, funcionando como vetores da dor e da incompreensão que assaltam a sensibilidade desse filho nada pródigo, um filho fraco e covarde que insiste no apagamento da memória como cura.

Essas alucinações pontuam nossa história familiar como o fogo na noite. De tal maneira que seria possível escolher não prestar muita atenção nele e narrar somente o escuro que fica no entorno, isto é, uma história como tantas outras, cheia de momentos mais ou menos memoráveis, de vida ordinária, que por muitos anos constituíram a maior parte do tempo. Esse pouco ou muito, quero dizer, que é o tempo que uma família passa junto, o tempo em que criar os filhos e não se deixar derrubar pelos acontecimentos da vida andam sempre juntos. 

Diferente do filho da parábola, que regressa à casa do pai e recebe a graça do perdão, aqui o filho recusa perdoar a quem quer que seja, o pai e a mãe e até a irmã, de certo modo, embora esmiuçar as violências causadas pelo pai traga a constatação de que, quando a degradação atinge tal nível de miséria, nada resta senão a destruição. Assim, o filho não regressa, a despeito das chantagens feitas pelo pai — ou, mantendo-se fiel à linguagem exemplar da parábola, o filho não ressuscita. Em vez de ser achado, prefere continuar perdido. 

O romance de Bajani ressoa potente por falar a uma multidão de egressos da casa familiar para nunca mais voltar. Pois parece ser esta a regra do drama contemporâneo: não podemos voltar para casa. Na figura do pai, a sombra do comportamento fascista herdado, que o filho reconhece mas não afronta, aprisionado que está no próprio medo. O corte drástico do cordão umbilical procura desvincular possibilidades futuras desse passado que insiste em se repetir — em não passar —, mas não há garantias de que funcione. A genética é ineludível e os hábitos, arraigados.

Objeto negro

Já a figura do pai parece encontrar sua melhor representação no telefone residencial, nesse objeto negro e bloqueado que só pode ser utilizado com sua permissão. A filha e o filho arranjam maneiras de subverter a imposição, ligando para os amigos e permitindo que se deem apenas dois toques, o sinal para que telefonem de volta. Contudo, a proibição de que eles falem, o silenciamento da voz dos filhos, que impede que se comuniquem com esferas alheias à prisão familiar, é taxativa. 

Algo semelhante se dá na transferência da voz do pai para a da mãe, que se torna uma espécie de boneca de ventríloquo: somente ela pode atender o aparelho, mas suas palavras refletem a vontade do pai. Depois, quando a história chega aos anos 90, com a chegada do celular, essas palavras torpes e agressivas ganham nova roupagem, através do SMS, mas a violência permanece a mesma. E a recusa do filho de retornar ligações representa um ponto final num diálogo de sentido único.

A publicação do livro, que mereceu o Prêmio Strega 2025, celebra a primeira tradução brasileira do autor italiano convidado da Flip 2026, já com longa bibliografia, na qual as transformações da família italiana espelham a dissolução dos modos de vida e a falência moral e econômica do capitalismo tardio na Europa atual. 

O romance ressoa pois parece ser esta a regra do drama contemporâneo: não podemos voltar para casa

Em Se consideri le colpe (“Se considerar as culpas”, 2007), temos outra mãe e outro filho, desta vez em situação diametralmente oposta: a mãe, agora morta, foi quem abandonou o filho na Itália para alcançar o sucesso como industrial na Romênia, país que recebeu ondas migratórias de italianos em busca de melhorar de vida. Convocado a enterrá-la, o protagonista Lorenzo reflete sobre essa mulher tão difícil, ou até impossível, de ser fixada num retrato. 

No romance que antecede O aniversário, Il libro delle case (“O livro das casas”, 2021), o escritor biografa um homem a partir das casas onde ele viveu, desde a familiar, habitada por um pai violentíssimo e de uma mãe amedrontada, antevéspera do romance ora publicado pela Companhia das Letras, até o estúdio em Turim onde se tranca para escrever. 

Todos os dias, atrás daquela porta, eu rio e choro, amo, odeio, me empolgo, me desespero, triunfo, fracasso, luto, sucumbo. Quando apago a luz, caminho por sete minutos e me sento à mesa (com a mulher e a filha) como se nada tivesse acontecido.

Em seus romances, contos e poemas, Andrea Bajani estende, complexifica e encena o drama atávico que Philip Larkin resumiu tão bem no célebre poema “Seja este o verso”, que começa assim: “Eles te fodem, teus queridos pais./ É sem querer, só que a verdade é esta —/ Te enchem das culpas que tiveram mais/ E dão, só pra você, uma dose extra” (na tradução de Alipio Correia Neto).

O aniversário é um livro breve. A edição brasileira termina com seis páginas em branco. Por causa da limitação gráfica, que determina que os cadernos sejam múltiplos de oito, às vezes isso acontece nos livros. Contudo, em O aniversário, as páginas em branco ao final soam como último capítulo involuntário e inócuo, no qual o leitor deposita seu espanto e sua identificação com a derrocada dessa família terrivelmente plausível, que culmina no vazio simbólico das páginas, como se a família nunca devesse ter existido.

Quem escreveu esse texto

Joca Reiners Terron

Escritor, poeta e editor, é autor de Onde pastam os minotauros (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #107 em julho de 2026. Com o título “Famílias terrivelmente infelizes ”

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