Orides Fontela no Largo do Arouche, em São Paulo, em foto de 1988 (Fritz Nagib/Divulgação)

Poesia,

Bem-vinda, Orides

O professor e editor Augusto Massi fala da recepção crítica, das complexidades e da obra da poeta, de quem foi amigo desde os anos 80

01jul2026 | Edição #107

Na mesa da sala, pilhas de livros, papéis soltos, fac-símiles, cadernos e pastas. Nada muito incomum para a casa de um professor universitário, crítico literário, editor e poeta. Mas a papelada reunida por Augusto Massi para receber a Quatro Cinco Um em seu apartamento tinha um foco único: Orides Fontela.

Amigo, editor, comentador crítico, pesquisador e divulgador da autora homenageada na Flip 2026, Massi está colaborando com a editora Hedra no resgate de sua obra. 

A editora detém os direitos autorais de Fontela e está relançando os cinco livros publicados em vida pela poeta. Com organização de Ieda Lebensztayn, as novas edições contam com textos de intelectuais de várias gerações: de Antonio Candido e Davi Arrigucci Jr., passando por Alcides Villaça, Edimilson de Almeida Pereira, Ivan Marques, Marilena Chaui, Paulo Henriques Britto, Viviana Bosi, até Fabio Weintraub, Marilia Garcia, Nathaly Felipe Ferreira Alves, Patrícia Lavelle e Veronica Stigger — além do próprio Massi, que também organiza um livro infantil com versos de Orides ilustrado por Cynthia Cruttenden. 

Na entrevista para a revista dos livros, Massi fala de seu encontro com Orides, de sua obra e da trajetória da “aristocrata selvagem” da nossa poesia contemporânea.

Dá para dizer que Orides Fontela é uma poeta desconhecida que está sendo redescoberta?
É curioso. Do ponto de vista da crítica, ela foi elogiada, estudada e prefaciada por pessoas como Davi Arrigucci Jr., Antonio Candido, Marilena Chaui, José Miguel Wisnik. São poucos os poetas que tiveram em vida uma resposta crítica tão qualificada. Seus primeiros livros, que saíram por editoras pouco conhecidas, passaram meio despercebidos do grande público, mas ela logo ganhou um público de crítica universitária, de poetas. Isso foi criando uma caixa de ressonância e ela entrou no circuito. Participou de um programa do Jô Soares, do Fantástico; o Ivan Marques fez um documentário com ela para a TV Cultura.

Ela não era poeta ‘marginal’, concreta, engajada. Esse não lugar cria uma confusão’

Mas podemos dizer que era um pouco marginalizada sem ser o que se chamava de “poeta marginal”?
É um pouco à margem — não era da “poesia marginal”, não era uma poeta concreta ou engajada. É esse não lugar que cria inicialmente uma confusão. É complexo entender o lugar dela. Na época da Orides, havia editoras importantes publicando a Ana Cristina Cesar, o Francisco Alvim, o Chacal — várias correntes aparecendo. E ela é descoberta por um crítico muito jovem [Davi Arrigucci Jr.], da mesma cidade que ela, São João da Boa Vista (SP), que leva seu poema para o Antonio Candido, e seu nome começa a se espalhar. Fazem teses sobre sua obra; foi muito estudada. 

Você estava nesse grupo de estudiosos e admiradores da Orides?
Eu estava começando. Em 1986, fiz uma entrevista com ela para a Folha de S.Paulo. Pedi pessoalmente para o diretor de redação [Otavio Frias Filho] para fazer a entrevista; disse que era uma poeta muito importante. Ele já tinha uma leitura de poesia e disse para darmos uma página inteira com a Orides. Fui visitá-la pela primeira vez em seu apartamento na rua Dr. Cesário Mota Jr. [centro de São Paulo]; era um negócio meio opressivo, muito pequeno, com gatos, pulgas — e eu tinha alergia! Na entrevista, ela falou que gostaria de reunir toda a sua obra com o título Trevo. Eu organizei o livro [poemas de 1969 a 1988, publicado pela Duas Cidades]. Em 2006, saiu a Poesia reunida. E, em 2015, a Poesia completa, já pela Hedra. Qual o poeta que, ainda vivo ou pouco tempo depois de sua morte, teve tantas edições de sua obra completa?

Por que agora publicar a obra separadamente?
Acho muito acertada essa decisão. Quem está cuidando disso é, principalmente, a Ieda Lebensztayn — é importante falar o nome dela. Fui chamado pelo fato de conhecer a Orides, ter muito material, e fui me metendo nisso, para estabelecer o texto. A gente achou observações de Orides em alguns exemplares, por exemplo, dizendo que um poema publicado como único seria, na verdade, dois poemas separados; ou um título dado a um poema que era nome de uma série, essas coisas. Ainda pode escapar um errinho ou outro, mas acho que, pela primeira vez, o texto estará estabelecido.

Depoimento ensaístico escrito por Fontela em lauda de jornal e dado de presente a Augusto Massi (Acervo pessoal)

Dá para seguir a trajetória de Orides livro a livro?
Ela tem uma poesia muito obsessiva com os temas. Começa com uma poesia muito abstrata, muito conceitual, mas os temas estão lá desde o primeiro livro, Transposição. São poemas escritos em 1966 e 1967. Ela ainda não tinha feito a faculdade de filosofia, mas já é uma poesia especulativa. Propõe essa ideia de transpor um limite, de alguém que se criou meio autodidata, estudou em escola pública, tem pouco dinheiro. 

Como isso influenciou a obra dela? 
Ela era uma menina que veio do interior, de uma família pobre, com uma formação católica. E vem estudar filosofia na USP — encontra um grupo: Marilena Chaui, Olgária Matos, Alcides Vilaça… No segundo livro, Helianto, já aparece essa preocupação com a filosofia de forma mais organizada, que se cristaliza em Alba. Os três primeiros livros têm essa passagem do interior para a capital, de uma vida meio autodidata com leituras soltas às leituras mais organizadas. Em Rosácea, há a aproximação com o zen-budismo. Seria uma nova fase, em que ela ainda estaria ligada a questões especulativas, mas com uma aproximação ao real, com uma simplicidade maior. Ela falou do impacto que teve ao ler uma antologia de poemas do Brecht; disse que queria ir nesse sentido. 

Um zen-budismo brechtiano? 
A gente pensa no Brecht só como um poeta marxista, mas é um engano. Ele tinha poemas falando de acordar, ver o dia, enumerando coisas concretas que tinha para fazer. A Orides percebeu bem por onde poderia entrar e começou a introduzir elementos até então ausentes, mais biográficos. Tem um poema famoso, chamado “Herança”, em que ela fala do que recebeu da avó, do pai e da mãe. Aparecem também poemas bem-humorados, de humor crítico. E ela introduz, pela primeira vez, um palavrão em sua poesia. Deixa certo sublime em nome de algo mais materialista, cotidiano. Passados dez anos, publica Teia, seu último livro, em que se abre mais ainda. De Transposição a Teia, os poemas foram ficando menores, mais diretos, mais secos. 

Talvez, tudo o que Orides não conseguiu organizar na vida pessoal foi organizado em sua poesia

Para quem não conhece Orides, qual seria o livro de entrada? 
O Davi Arrigucci Jr. acha que Transposição é o melhor, que já está tudo lá. Pessoalmente, acho Alba um livro muito equilibrado; ela depurou tudo e chegou em um momento de síntese. O que o Davi diz do primeiro livro é que a ideia de construir e destruir, de positividade e negatividade, já está lá, como no poema em que ela fala da beleza do caleidoscópio depois de ele se quebrar. Já emAlba tem todo o imaginário grego, muito importante na poesia dela. 

Também acho que Teia seria uma porta de entrada para a poesia de Orides. Algumas pessoas acham esse livro um enfraquecimento de seu projeto poético, mas penso diferente. É um livro muito bonito; é uma transição, talvez, para uma outra fase, que ela não pôde concluir. A poesia dela privilegia formas circulares, em espiral — não um círculo fechado, mas círculos que se ampliam, alcançando uma área de atuação maior. Enfim, eu recomendaria Alba — é uma síntese de todas as fases; o terceiro de cinco livros; está no meio. E tem essa coisa de passagem da noite para o dia, como o próprio título indica — é uma beleza. 

Lauda da Folha de S.Paulo com poemas de Teia, assinada por Orides Fontela, em 1988 (Acervo pessoal)

Acha que ela ficou mais conhecida por sua vida e seu temperamento do que pela obra? 
O público precisa disso, né? Procuro dosar essa parte, mas não quero evitar. Tem que falar [da biografia], mas isso não explica a poesia dela. Ao contrário, cria até uma perplexidade: como sua poesia pode ser tão pura e organizada com a vida que ela teve? Talvez a Orides tenha conseguido separar as coisas — tudo o que não conseguiu organizar na vida foi resolvido na poesia, nas reflexões. 

Tenho a ideia de uma crítica integrativa, que inclui o biográfico, mas não quero reduzir a obra aos problemas pessoais. Quando saiu uma matéria na revista Veja, em que ela falava das dificuldades e das brigas com as pessoas que a ajudavam, despertou o interesse que todo mundo tem por artistas. Ela tinha um lado “maldito”, da vida difícil, mas teve muitos amigos, que a protegeram, ajudaram financeiramente. Era uma pessoa difícil, tinha problemas de alcoolismo, no trato social era às vezes explosiva, mas também tinha senso de humor. Procurou a umbanda, o budismo, mas nada disso acalmou seu coração selvagem. 

Hoje diriam ser uma pessoa divergente, mas na época não se usava esse termo. Se pudesse saber que é a homenageada da Flip, talvez fosse resmungar que isso significa que já não é tão boa, tão radical, mas acho que ficaria feliz. 

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, editora da Quatro Cinco Um, é autora de Tantra e a arte de cortar cebolas (Editora 34).

Matéria publicada na edição impressa #107 em julho de 2026. Com o título “Bem-vinda, Orides”

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