Poesia,
‘Aqui há poesia e poeta’
Frase de Antonio Candido se reafirma na biografia de Orides Fontela, que ganha edição com fotos, capítulo e prefácio inéditos
26jun2026 • Atualizado em: 25jun2026 | Edição #107Orides Fontela (1940-1998) andava sempre com um guarda-chuva a tiracolo. Mesmo depois de quatro atropelamentos, quando uma bengala tornou-se item imprescindível para a locomoção, ele seguia onipresente. E não era a iminência quase diária de chuva na terra da garoa, mas sim um pessimismo atávico, o que a levava a sair de casa sempre carregando um guarda-chuva, mesmo em dias ensolarados.
Era de bengala e guarda-chuva que ela saía de seu “ninho”, um cubículo alugado na rua Dr. Cesário Mota Júnior, no centro de São Paulo, e fazia os mesmos percursos diariamente, fosse para visitar amigos ou extravasar algum desespero.
“O desespero sufocava o verbo”, sintetiza o jornalista e antropólogo Gustavo de Castro na biografia O enigma Orides, publicada pela primeira vez em 2015 e que acaba de ganhar uma nova edição pela editora Hedra, em razão da homenagem a Orides Fontela na próxima Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty.
Nesses momentos de desespero, quando se debatia com as contas a pagar e questões práticas do cotidiano, ela ia à padaria do amigo Olmea. “Alta agonia”, dizia Fontela ao entrar no recinto. “Difícil prova”, respondia o amigo, citando de memória o primeiro verso de um soneto escrito por ela aos 23 anos e resgatado na seção “Antigos”, do livro Rosácea, de 1986. Sempre muito atento e gentil — Olmea sabia que tinha uma amiga tão genial quanto frágil —, ele mandava servir chá e algo para comer, o que já a acalmava, além de dar-lhe algum dinheiro sempre que a luz do “ninho” era cortada por falta de pagamento.
Sua renda vinha unicamente do salário que recebia como professora (e, mais tarde, como aposentada) da rede pública, mas o ordenado nunca deu conta de cobrir suas necessidades mais básicas de sobrevivência. Por isso, Orides contava com os amigos para tudo, desde o perrengue mais básico — as contas do mês, comida etc. — até emergências — os custos para entregar um apartamento mal cuidado ao longo de anos de penúria financeira. E, de todos os desesperos, o que mais a atormentava era a ideia de ficar sem teto.
Maravilhosa e insuportável
Orides morou na Casa do Estudante, da avenida São João, no centro de São Paulo, enquanto cursava filosofia, dividindo o espaço, em 1968, com a amiga Gerda Schroeder, então estudante de direito no Largo de São Francisco. Até aquele ano, não eram admitidas mulheres na Casa do Estudante e foi Gerda a primeira a quebrar o protocolo. Também foi ela que deu a Castro uma preciosa descrição da amiga poeta, que aparece em O enigma Orides:
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Perto do fim do ano [de 1968], Orides bateu à sua porta, se oferecendo para ser sua companheira de quarto. Gerda deixou-a entrar. Era magra, ombros altos e um pouco largos, cintura baixa e nenhum quadril; calçava sandálias franciscanas de couro gastas, vestia uma bermuda colorida estampada com caras de palhaços, blusa branca, mochila, cabelos curtos e óculos imensos. O rosto era quadrado, o nariz meio adunco, os olhos miúdos, as orelhas grandes, a boca larga, com o lábio inferior pronunciado, o maxilar levemente aberto, a tez abatida. Notou que a moça parecia tosca: mãos largas, andava sem elegância, não pedia licença, as sobrancelhas não eram feitas, gesticulava sem suavidade e as orelhas não eram furadas. Os olhos pareciam afetados pela miopia, ora ficavam contraídos e sorridentes, ora pareciam frios e opacos, então tristes e caídos. Não parecia afetuosa, mas era direta e prática, além de engraçada e talvez excessivamente mimada. Não tinha prática nem interesse nos serviços domésticos, e se notava alguma religiosidade pelo pequeno crucifixo no pescoço. Gerda hesitou e temeu pela convivência, mas decidiu confiar no seu vozeirão: se precisasse, falaria mais alto; aceitou-a no quarto.
Ela contava com os amigos para tudo, desde o perrengue mais básico até as emergências
Gerda também sabia que tinha uma amiga tão genial quanto difícil. Nem tudo (ou quase nada) eram flores com Orides. “Era ao mesmo tempo maravilhosa e insuportável”, testemunhou.
Outros amigos, entre anônimos e famosos, contaram histórias parecidas sobre a convivência com a poeta. Entre eles, Antonio Candido, que, segundo testamento lavrado por Orides, receberia todos os direitos e responsabilidades sobre sua obra poética. Mas, depois de alguns desentendimentos, ela fez questão de ir ao mesmo cartório para anular o documento. O fim da relação estreita de admiração entre os dois aconteceu depois que Orides, “enfurecida com o crítico, transtornada e aos berros”, pisoteou um jardim de rosas de Gilda de Mello e Souza, professora emérita da USP e esposa de Candido. Dali em diante, o contato seria sempre por intermediários. Apesar de tudo, ele se esforçaria para entendê-la: “Fazer o quê? É nosso Rimbaud!”, disse, certa vez, o catedrático mais famoso da Universidade de São Paulo.
Transposição
Em 1965, durante um passeio com o pai, ainda morando em São João da Boa Vista, Orides cruzou com seu amigo de infância Davi Arrigucci Jr. (ele mesmo). Davizinho — como era chamado na cidade, para diferenciá-lo do pai, um reconhecido médico local — já morava em São Paulo e estudava letras na USP.
Em visita à cidade natal, Arrigucci Jr. tinha lido, no jornal O Município, naquela semana, um poema que considerou “magistral” — era ELEGIA (I), que seria publicado no livro Helianto, de 1973: “Mas para que serve o pássaro?/ Nós o contemplamos inerte./ Nós o tocamos no mágico fulgor das penas./ De que serve o pássaro se/ desnaturado o possuímos?”.
No momento do encontro, Arrigucci Jr. estava voltando da sede do jornal, onde tinha ido buscar notícias do paradeiro da amiga, pois queria ler outros poemas. Aquele encontro com o amigo de infância na praça de sua cidade rendeu a Orides um caminho e uma esperança. Ali, ela vislumbrou as duas vias fundamentais de sua busca pela verdade: a filosofia e a poesia.
Arrigucci Jr. mostrou o poema para alguns professores, entre eles Antonio Candido — que se entusiasmou: “Aqui há poesia e poeta!” — e José Aderaldo Castello — que hoje viraria meme com seu parecer: “Isto parece escrito por um homem”; nos critérios dele, isso era um elogio. Décio de Almeida Prado, um dos editores do prestigioso Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo, decidiu publicar o poema. O professor Julio García Morejón não só gostou daqueles versos como movimentou recursos do Centro de Espanhol da USP para viabilizar a publicação de poemas escolhidos da pasta que Orides deixou com Arrigucci Jr. Assim nascia Transposição, seu primeiro livro, publicado em 1969, com tiragem de quinhentos exemplares.
Preferia criar a comentar; a filosofia comentava muitas coisas, mas não lhe dava respostas suficientes
Em depoimento para O enigma Orides, José Miguel Wisnik, contemporâneo da poeta na universidade, conta sobre o primeiro encontro com Transposição, ainda antes da publicação: “Os poemas tinham notas vibrantes, eram cristalinos, depurados de choque, agitação, polêmica, litígio ou militância. A experiência de vida, a poesia e a literatura pareciam ter sido filtradas por Orides, produzindo um livro-cristal”.
Orides era um pouco mais dura com os próprios versos e disse numa entrevista, anos depois: “Um livro estranho, que só recentemente percebi o quanto estava na contramão da poesia brasileira, sensual e sentimental. Parecia até meio cabralino devido a um vezo analítico, mas era isso, claro: um livro escrito no interior, em que poesia e filosofia tentavam se irmanar como possível”.
Lucidez
Orides definiu seu destino em 1967: queria ir para São Paulo estudar na faculdade de filosofia da rua Maria Antonia. Passou o ano se preparando para o vestibular com apoio total do pai. Ao ser aprovada, foi até a escola onde trabalhava para providenciar sua transferência para a capital. Descobriu que, além da transferência, tinha direito a uma licença de quatro anos para fazer a graduação. “Ficou ainda mais animada, quase eufórica, e corria pelo corredor abraçando o inseparável guarda-chuva”, diz o biógrafo.
Ela definia a filosofia como “um esforço para a objetividade e a lucidez”. Alguns críticos disseram que essas mesmas palavras se aplicam “à perfeição de sua poesia”. Aliás, sua posição frente à poesia já era uma posição filosófica: “Ela tinha a intuição, quase inefável, de estar somente ‘a um passo’ do aqui, do agora, dos acontecimentos: bastaria erguer o véu e toda a realidade se apresentaria como tal”.
Ao concluir o curso, no entanto, sabia que jamais seria uma intelectual acadêmica; continuava a ser “simplesmente poeta”. Dizia que preferia criar a comentar — a filosofia comentava muitas coisas, mas não lhe dava respostas suficientes. Em 1968, numa palestra sobre Heidegger, ela “descobre que as ideias podem ser afetos e que a filosofia também é feita de paixão”. Anos depois, diria: “Dei sorte de não me tornar filósofa. […] Nem dava: faltava base econômica e cultural. Mas me diverti muito. Agora não sei onde a pesquisa poética e o pensamento selvagem me levarão”.
Flores, sol e zen
Em 1973, Orides publica Helianto, desta vez pela respeitada editora Duas Cidades. Helianto é um termo da botânica usado como sinônimo para girassol: a epígrafe do livro é uma cantiga de roda, e o movimento circular dá o tom de sua geometria poética.
O livro se abre com o poema “Helianto” (“Cânon/ da flor completa/ metro/ valência/ rito/ da flor/ verbo”) e termina com versos dedicados ao silêncio. O desespero, pelo visto, deu uma trégua e o verbo, enfim, estava livre em busca do sol. O guarda-chuva, no entanto, sempre à mão.
Quase uma década depois, Orides finaliza Alba (1983), que achava ser seu melhor livro. No prefácio escrito por Antonio Candido está a frase tantas vezes citada por comentadores de sua obra: “Um poema de Orides tem o apelo das palavras mágicas”. Ela considerava Alba seu livro mais feliz.
Nessa época, Orides estava imersa no zen-budismo — tinha dificuldade para meditar na posição de lótus; as sequelas físicas de quatro atropelamentos a obrigavam a meditar de pé ou deitada. Escreve o biógrafo:
O zen aplacava parte da agonia; oferecia tranquilidade e paz, conquistas árduas. Em 1973, Orides começou a prática de ikebana no estilo ikenobo, o mais tradicional. Nas tardes e noites de quarta-feira, dedicava-se aos arranjos florais no Bunkyo, o Centro Cultural Japonês situado na mesma rua do templo. A busca da harmonia, a construção não linear, o ritmo e a cor dos arranjos atraíam os sentidos e a sensibilidade da poeta. Assim como o tempo dedicado à beleza, o encanto das corolas, guirlandas e dos tules, o matiz dos tons das ramagens.
Editado por Roswitha Kempf na casa editorial de prestígio que levava seu nome, Alba ganhou o prêmio Jabuti em 1983. A aura luminosa do livro vinha dessa forte presença do budismo na vida de Orides, pois foi escrito nos anos de maior dedicação da poeta à filosofia zen-budista.
A influência zen voltaria a aparecer em Rosácea, de 1986, mas de forma muito menos concentrada, apenas nos elementos da natureza e em algumas formas breves.
Tempos depois, Orides disse em entrevista que Rosácea foi um livro que ela organizou “depressa demais”. O material era heterogêneo: coisas novas, fundos de gaveta, restos de memória. Há releituras e brincadeiras que só uma veterana faria com versos clássicos de Drummond e Bandeira e aforismos de Kant. Mas há também poemas impressionantes e alguns sonetos escritos pela poeta aos vinte e poucos anos, como o “Soneto à minha irmã (nascida morta)”, datado de 1962, anos antes daquele encontro com Arrigucci Jr. em São João da Boa Vista.
Em 1988, ela teve seus quatro livros reunidos no volume Trevo, editado por Augusto Massi e publicado na coleção Claro Enigma, da editora Duas Cidades.
Ascetismo desvairado
Seu afastamento total das religiões — do catolicismo da juventude, do espiritismo e da umbanda, que frequentava com Gerda, e, enfim, do budismo, que marcara o auge de sua escrita — não resultou, contudo, em uma visão ateísta da vida, pelo contrário. Arrigucci Jr. destaca, além do valor literário, certo “senso de transcendência”, uma inquietação religiosa desvinculada da religião. “Havia nela alguma coisa de ascética. Um ascetismo combinado a certo desvairismo”, dizia o crítico. Orides se embrenhou, por toda a vida, numa mística difusa, sem igreja, “imersa na estase e no êxtase da palavra e do silêncio”.
Nos anos 90, ela finaliza mais um livro: Teia foi gestado com calma, do final dos anos 80 até 1994. Se, no plano da poesia, ela atingia outros patamares com o novo livro, no plano pessoal, ia na direção contrária.
“Morrer lentamente é trabalhoso, exige dedicação e esforço, mas aos poucos começa a dar resultados. Orides quase não comia, tampouco se cuidava. Em compensação, bebia com afinco” — ela tinha entrado na casa dos cinquenta anos, mas parecia ter bem mais, devido à condição física debilitada.
São Paulo foi seu ninho de pedra, sua escola, seu deserto particular, o lugar onde praticou sua errância
Sua situação financeira piorou consideravelmente no fim da vida; tinha dificuldades para honrar o aluguel e outras despesas cotidianas. E a iminência de mais uma mudança de endereço a desesperava. Na biografia, ficamos sabendo que Orides teve uma vida de migrante em São Paulo:
[…] praça Marechal Deodoro e o Crusp em 1968; avenida General Olímpio da Silveira em 1969; em 1970, rua Vitorino Carmilo; novamente a Marechal Deodoro em 1971; avenida São Joaquim, na Liberdade, em 1974; rua Bento de Andrade em 1977; em 1979, rua Naca, na Penha; em 1981, a rua Muniz de Souza, no Cambuci, e, no ano seguinte, rua do Alabrastro, na Aclimação. Em 1983, voltou para a Liberdade, na rua Fagundes, e ainda no mesmo ano, mudou-se para a rua Dr. Cesário Mota Júnior, na Vila Buarque, onde afinal se assentou durante doze anos. Tinha uma relação de amor e ódio com os lugares em que morava. Em dois deles, na praça Marechal Deodoro e na avenida General Olímpio da Silveira, os apartamentos pegaram fogo; na General Olímpio, houve um curto-circuito da geladeira; na Marechal Deodoro, não se sabe se o incêndio foi obra sua ou do acaso.
Depois de muito resistir, a poeta desfaz seu “ninho” e volta a morar na Casa do Estudante. É a amiga Renata Curzel quem cede seu apartamento para que Orides se instale. E lá seria seu último endereço.
Mística pessoal
Orides gostava de falar de poesia como se fosse a natureza primeira, equivalente às árvores, aos rios e às matas de São João da Boa Vista. Era sua mística pessoal: “Não tenho mais nada além da poesia. Nesse sentido, eu sou o próprio coração selvagem. Se não fosse a poesia, eu poderia estar na sarjeta, nem vocês nem ninguém iriam me reconhecer; eu iria morrer sem ter existido”, disse ao amigo Silvio Rodrigues, seu agente literário, num depoimento gravado em fita cassete.
A minha poesia é selvagem, se esse “selvagem” quer dizer agir por conta própria, sem ligar para a opinião de ninguém, ir em frente sozinha. […] Para mulher pobre e poeta jamais foi fácil. Sou feminista desde a adolescência. Desde o dia em que meu pai me disse: “Quando você casar, vai obedecer ao seu marido”, e eu respondi: “Não vou casar de jeito nenhum”. Nesse sentido é que sou selvagem. Quero morrer sem obedecer a ninguém. […] A poesia ocupou todos os espaços da minha vida, porque não tenho mais nada no lugar dela. Tinha duas escolhas: ou a liberdade de fazer poesia, conduzir a minha vida “selvagemente”, por conta própria, ou então o quê? […] Tive que escolher o menor dos males. O menor mal possível é ser pobre e sozinha. E o maior bem possível foi sempre a poesia.
Em julho de 1998, a poeta sente sinais de colapso e é outro poeta, Donizete Galvão, quem a socorre. “Em uma das idas ao hospital, um médico pede para conversar com Orides em particular. Ela sai do consultório pálida e calada, mas aliviada. Talvez tenha descoberto que a morte está próxima: a notícia que, de certa forma, a apaziguará, que a livrará de uma ideia constante desde a adolescência, o suicídio.”
O diagnóstico é de tuberculose em estado avançado. Em mais uma ida ao hospital, dessa vez sozinha, os médicos não a deixam voltar para casa. Em meados de setembro, ela é transferida para a Fundação Sanatório São Paulo, em Campos do Jordão. “No trajeto, Orides lembra de Cruz e Sousa, um dos poetas mais pobres da história do país. Só ela havia sido mais pobre do que ele.”
Naquela madrugada, Orides também se despedia da cidade de São Paulo. A cidade havia sido seu ninho de pedra, seu labirinto, sua escola e, sobretudo, seu eremitério. São Paulo era seu deserto particular, o lugar onde praticar sua “ERRÂNCIA”:
Só porque
erro
encontro
o que não se
procura
Em 2 de novembro de 1998, Renata recebe uma ligação informando a morte de Orides. Se o corpo não fosse reconhecido em 24 horas, a poeta seria enterrada em uma vala comum da prefeitura. É a amiga Rosa Mettifogo que custeia as despesas funerárias: o caixão, a mortalha e a lápide de granito com o nome da poeta escrito em bronze, acompanhado dos seguintes versos:
Um anjo
é fogo:
consome-se
Matéria publicada na edição impressa #107 em julho de 2026. Com o título “‘Aqui há poesia e poeta’”
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