Eustáquio Neves, o fotógrafo que quis ser músico
Ministério da Cultura apresenta

A FEIRA DO LIVRO 2026,

Eustáquio Neves, o fotógrafo que quis ser músico

Mineiro recorda três décadas de dedicação à criação de imagens e fala da influência da música em sua arte

31maio2026 • Atualizado em: 07jun2026

Se para viver fosse preciso inventar um universo imagético, autoral e de extrema meticulosidade técnica, o artista visual e fotógrafo mineiro Eustáquio Neves, de 71 anos, teria um repertório pronto para apresentar por horas e horas. O tempo que durou a mesa em que Neves esteve presente neste domingo (31), n’A Feira do Livro, foi suficiente apenas para que ele apresentasse um resumo do conhecimento e da visão de mundo que recolheu em três décadas de dedicação à fotografia. 

Todos esses anos de experiência serviram para alimentar Outros navios: Eustáquio Neves (Edições Sesc, 2025), organizado por Eder Chiodetto. O livro celebra a farta produção do artista com um compilado de sua obra. A produção de Neves, além de celebrada no livro em uma farta seleção de trabalhos, também está em exposição na 61ª Bienal de Veneza até novembro, junto a outros expoentes da arte mineira, como Ayrson Heráclito.

O pesquisador e curador Diego Matos e o artista visual e fotógrafo mineiro Eustáquio Neves (Matias Maxx/Terebi/A Feira do Livro)

Na mesa Outros navios: encontro com Eustáquio Neves, com mediação do pesquisador e curador Diego Matos, Neves contou histórias da infância em Minas Gerais e revelou parte de seu processo criativo. Ele expôs ainda o gosto pela música: embora tenha se aprimorado, com sucesso, na fotografia, confessou certo arrependimento de não ter se dedicado à composição musical.

“Eu queria ser lembrado como o fotógrafo que queria ser músico e não como o químico que se tornou fotógrafo. Morava em Belo Horizonte e fui trabalhar na mineração. Mas a vida cultural de teatro e cinema me levou a comprar uma câmera fotográfica, e essa câmera se tornou meu caderno de anotações; dali, meu interesse só aumentou”, explica o autor nascido em Juatuba, cidade a 45 quilômetros da capital mineira.

Autodidata, Neves relembrou a pouca oferta de cursos de formação em fotografia no começo dos anos 80, quando abandonou a química: “Na época em que comecei, não havia um curso de formação, era só o básico. Muito menos onde eu morava. E na época havia o curso impresso de fotografia da Rio Gráfica [precursora da Editora Globo]. Eu lia cada fascículo, comprava vários filmes e fazia exercícios fotográficos.”

Essas experimentações, resumiu, foram a gênese da técnica de sobreposição de negativos e misturas de camadas que compõem o universo onírico e imagético do artista até hoje. A primeira série de imagens que criou forma a coleção Caos Urbano, de 1991; nos anos seguintes da mesma décadas produziu Arturos, série de doze registros produzidos na comunidade quilombola de mesmo nome em Contagem.

“Os Arturos tinham uma lenda. Era uma comunidade muito fechada, mas tive acesso. Na minha prática, eu procuro conviver o máximo que posso com as pessoas. Às vezes, eu ia ao quilombo com a minha câmera, às vezes não, e só a partir de muitas conversas é que comecei a desenvolver a série”, contou.

Fabulação crítica 

O processo de investigação iniciado em Arturos se desenvolveu para uma fabulação crítica que Neves projetou em séries posteriores. Ele contou que a técnica, hoje compreendida como uma delicada composição de filmes, foi descoberta num ambiente muito diferente de um estúdio com equipamentos sofisticados. 

“Eu trabalho como trabalha um pintor. Normalmente, um fotógrafo que vem do analógico, assim como eu, faz uma revelação em preto e branco. Eu não tinha condições de montar um laboratório. O cromo [filme reversível] pode ser revelado em condições que não exigem muito; são seis etapas de revelação. Usei um filme desse de slide e revelei. Entrei embaixo da coberta e, na etapa que é a revelação da cor, onde você pode ver a imagem, são de trinta segundos a um minuto de exposição. Eu levei cinco minutos, ou seja, não revelei o filme”, explicou.

A técnica específica foi aprimorada em séries como Máscaras de Punição (2004), que refaz retratos de família com máscaras que, nos séculos 18 e 19, serviam para tortura de negros escravizados. E também em Encantador de Almas (2007), que retrata o quilombola Crispim.

“Crispim é um remanescente quilombola que vive perto da região onde moro atualmente, em Diamantina. Ele era encomendador de almas; sabe todos os cantos e rezas para elevar a alma das pessoas que passam para outros planos”, disse. “Dentro da comunidade do Rosário, que festeja a Nossa Senhoras dos Pretos, ele abre os caminhos do cortejo para fiéis que carregam a estátua da santa.”

No fim da conversa, com um público hipnotizado pelas imagens e curioso pelas técnicas fotográficas de invenção num mundo dominado pela proliferação de imagens digitais, Neves voltou à infância e citou três referências musicais essenciais para quando resolve descansar um pouco da câmera.

“Tem um disco do [Gilberto] Gil que é bastante importante para mim: Refavela. Bad Brains é uma banda da minha adolescência. E não só porque eu sou mineiro, mas o Clube da Esquina é importantíssimo”, concluiu. 


A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h

A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.

Nota da Associação: essa mesa foi realizada com o apoio de Edições Sesc e ArPa e teve interpretação de libras da EducaLibras.

Quem escreveu esse texto

Mariana Moreira

É jornalista e roteirista carioca. Atua nas coberturas de cultura, gênero e direitos humanos.

Feira do Livro 30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.

A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.