Ministério da Cultura apresenta
Tarso de Melo, Noemi Jaffe e Eucanaã Ferraz na mesa Escrita e memória (Matias MaxxTerebi/A Feira do Livro)

A FEIRA DO LIVRO 2026,

Noemi Jaffe e Eucanaã Ferraz celebram a vida das palavras

Em conversa mediada por Tarso de Melo, os autores rememoraram histórias de infância, recitaram poemas e contaram piadas

30maio2026 • Atualizado em: 07jun2026

A escritora Noemi Jaffe e o poeta Eucanaã Ferraz abriram a programação oficial de encontros literários d’A Feira do Livro no Auditório do Museu do Futebol. Com mediação de Tarso de Melo, a mesa Escrita e memória girou em torno da atração criada pelas palavras na vida dos dois autores, lembranças de infância e como a família influenciou seus livros mais recentes, entremeados à leitura de trechos das obras e a piadas que arrancaram risadas da plateia.

Jaffe lançou no ano passado o romance Te dou minha palavra (Companhia das Letras), em que faz de sua própria infância e adolescência como filha de sobreviventes do Holocausto a matéria-prima da narrativa e, em 2023, pela mesma editora, Escrita em movimento: sete princípios do fazer literário. Já Ferraz está lançando Aramão (Companhia das Letras), livro híbrido que funde poesia, ensaio, memória e crônica a partir de mitos e relatos autobiográficos.

(Matias Maxx/Terebi/A Feira do Livro)

“O português era uma espécie de brincadeira para os meus pais, e um desafio também”, contou Jaffe, cujos pais falavam sérvio, húngaro, alemão e iídiche. “Eu, muito mais nova e muito vocacionada para a língua, me tornei uma porta-voz do português na minha casa. Meu pai, que prestava muita atenção e queria aprender português, gostava de usar palavras difíceis. Por exemplo, quando os meus amigos chegavam em casa, ele perguntava: ‘O que você acha de conjuntura político-econômica internacional’? Ele adora usar a palavra ‘conjuntura’.”

Ferraz comentou que, apesar de não ter tido muitos livros em casa, entrou em contato com a poesia por meio das canções cantadas pela mãe. “Sempre digo que aprendi o que eram metáforas e imagens poéticas pela música popular. E a imagem que sempre me vem é dela cantando Dolores Duran, ‘As flores na janela sorriam e cantavam por causa de você’.”

O poeta disse não entender, à época, o que era uma flor sorrir e cantar, mas ainda assim conseguir compreender o verso. “Desde muito cedo, eu tinha uma intuição de um mundo que não era habitual, e que esse mundo é um mundo constituído por palavras, que as palavras poderiam criar mundos onde as flores sorriam e cantavam”, contou. “Para mim a poesia é uma tentativa de compreensão de tudo que não sou eu, de tudo que é e que está além de mim, tudo que é a minha alteridade.”

Foi também por meio da música brasileira que Jaffe descobriu sua vocação para a escrita, ao ler a letra de “Construção”, de Chico Buarque, na contracapa do disco homônimo. Ao fazer isso, descobriu que o compositor trocava as palavras de lugar e as frases continuavam fazendo sentido. “Descobri naquele momento, em uma epifania, que as palavras é que eram os tijolos da construção que o Chico estava criando, que era um prédio que era uma canção”, explicou.

O jogo de palavras também está presente no título do livro de poemas de Ferraz, Aramão. “É uma palavra muito estranha, parece um neologismo, me lembra Guimarães Rosa. Eu tenho muita inveja de ele ter inventado a palavra ‘sagarana’”, brincou. “Com ‘aramão’ percebi o contrário: é uma palavra regular da língua, mas parece um neologismo — que nada mais é do que um arame grande”, explicou o poeta, seguido de risos do público.

Ferraz disse ter testado o título do novo livro com os amigos, que não sabiam o significado da palavra. “A decepção ficava estampada do outro lado do telefone. ‘É só isso?’, perguntavam. E a graça está justamente em ser só isso e de parecer algo formidável. É uma palavra que existe virtualmente”, contou, explicando que o título nomeia a estrutura do livro, uma costura de poemas nos quais reúne a história do mundo, que é a história da sua família.


A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): 14h às 21h

A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.

Nota da Associação: essa mesa foi realizada com o apoio de Companhia das Letras e teve interpretação de libras da EducaLibras.

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

Feira do Livro 30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.

A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.