Literatura,

A história da mutilação

Escrita em 1969, novela sobre encarceramento captou o que o México e a América Latina viriam a se tornar

01jul2020 | Edição #35 jul.2020

São inúmeras as comparações dos seis personagens de A gaiola com animais. Um anda feito macaco. Outro uiva que nem um cachorro. Um terceiro tem lábios de ostra. Aquele lembra um abutre colérico. As comparações são infalivelmente degradantes: um homem parece um pássaro com uma asa a menos ou um olho só; ou então uma ave que tivesse esquecido como voar; ou é um elo pré-histórico entre os répteis e as aves. São todos bezerros derrubados no chão e que se sabem à beira da morte.

A personagem de aparência mais respeitável da ficção de José Revueltas é mãe de um pobre-diabo, confinado numa imensa penitenciária na Cidade do México. Apesar de desprezá-lo, ela aceita levar-lhe um pacote de droga na vagina. A mulher é descrita como “um vulto de pedra, mal e mal esculpido por um formão de sílex do neolítico, vasta, pesada, espantosa e solene. Seu silêncio tinha alguma coisa de zoológico e rupestre, como se a ausência do órgão adequado a impedisse de emitir todo e qualquer som, falar ou gritar, uma besta muda de nascimento”.

A gaiola se passa no aqui e agora recomendado pela tragédia grega. No tempo real em que o filho da velha senhora, um caolho que é chamado de Caralho, aguarda a chegada da droga que ela contrabandeia. Ele divide a cela com dois outros rebotalhos animalizados, e sua mãe visita a prisão em companhia das namoradas deles. A fissura pela droga, bem como o medo de que ela seja descoberta na revista na entrada da prisão, tornam a passagem do tempo exasperante. Os presos, as visitantes e os policiais — todos e todas se agridem o tempo todo. O relato é um acúmulo de atritos, mortificação, gritaria, empurrões, grunhidos, aviltamento. Não há beleza, lirismo, sabedoria. É um universo humano apodrecido e do qual não há escapatória. Muito menos redenção.

O relato é um acúmulo de atritos, grunhidos, aviltamento. Não há beleza, lirismo, sabedoria

A gaiola é uma novela cujo desespero acentua sua negativa à comiseração humanista e aos confortos da literatura melodramática, inclusive a engajada. Para ficar nos termos de Revueltas: a escala zoológica implode o humanismo; a arte naturalista ou de denúncia cede espaço ao registro rupestre. Isso se dá no ambiente abafado de uma prisão onde não há como se esconder. São raras as referências ao mundo externo ou a outros tempos. No plano imaginário, no máximo se confronta a situação dos presos — cuja cabeça pode ficar fora das celas e o corpo dentro — com as decapitações bíblicas de Holofernes e São João Batista. No plano político, comenta-se uma única vez que os visitantes vindos da “classe alta” acham que seus conhecidos estão presos injustamente, mas “as altas esferas já estavam a par, dois ou três ministros já cuidavam do assunto”.

Massa de desejos

O que se enfatiza, pois, é a tentativa da prisão de separar violentamente a cabeça do corpo, o espírito da carne: a mutilação. Ela promove uma animalização geral, que abarca presos políticos ou não, guardas e visitantes. As pessoas presas em A gaiola são menos que restos. São lixo. São bichos que oscilam entre a vida e a morte. A penitenciária é um monstro, movido por uma indistinta “massa de desejos”, inclusive e sobretudo pelo desejo de se acabar de vez no transe da droga, de matar e de morrer. Os gestos violentos dos protagonistas não têm racionalidade: são estertores de uma humanidade em via de aniquilação.

Ao ler A gaiola, Samuel Titan Jr., seu tradutor, ficou fascinado pelo que chama de “a vertigem” construída por José Revueltas. São frases longas que se espalham em direções diversas, que sobrepõem percepções fugidias e buscam abarcar configurações distintas de uma situação intolerável. A forma literária, cujos andaimes se escoram tanto na tradição culta do barroco como na oralidade popular e bandida, permite perceber por dentro a realidade da violência e da putrefação.

Por dentro: Revueltas escreveu A gaiola no início de 1969, quando estava engaiolado na prisão de Lecumberri, a maior do México. Fora encarcerado devido à sua participação no levante estudantil do ano anterior, que terminou no banho de sangue promovido pelas Forças Armadas, com centenas de jovens assassinados no chamado Massacre de Tlatelolco. Revueltas não era nem estudante nem jovem. Tinha 54 anos, estivera preso anteriormente duas vezes, era um escritor e militante que divergira do stalinismo do Partido Comunista e buscava um caminho revolucionário para o México. No presídio, testemunhou revoltas de presos comuns e a repressão promovida pela polícia. Salvou-se graças à campanha internacional promovida por Arthur Miller, Octavio Paz, Garcia Márquez e outros escritores. Lecumberri foi fechada e hoje abriga o Arquivo Nacional do México. A gaiola serve de arquivo literário para a consciência mexicana.

Revueltas descreve os berros da sociedade sob a força anárquica da desumanização

É um arquivo vivo que, escrito há meio século, captou aquilo que a realidade do México, da América Latina e do mundo veio a se tornar. Nele estão o papel explosivo das drogas, a panela de pressão da prisão em massa de miseráveis, a ausência de perspectivas dentro e fora do confinamento. Avant la lettre, Revueltas descreve os motins e decapitações em presídios do Amazonas e alhures, os berros da sociedade que se organiza sob o primado da força anárquica da desumanização.

Como a anomia é captada por meio da linguagem, A gaiola tem tênues pontos de contato com o Beckett de Esperando Godot e Fim de partida — e portanto com as restrições de Lukács à animalização promovida pelo escritor irlandês, que ele via como sinal de decadência da literatura burguesa. Mas as restrições não se sustentam porque Revueltas, assim como Beckett, não flagra essências inefáveis do ser humano, e sim o chão concreto de sociedades históricas.

É desse chão que brota o final terrível de A gaiola, aquele em que os presos parecem “farrapos sanguinolentos, macacos esquartejados e postos para secar ao sol”. Crucificados, eles seguem vivos. Mas perderam até o ânimo para se vingar e matar o aleijado que os dedurou. O que lhes resta são a dor e a angústia.

Quem escreveu esse texto

Mario Sergio Conti

É autor de Notícias do Planalto (Companhia das Letras).

Matéria publicada na edição impressa #35 jul.2020 em maio de 2020.