O escritor japonês Tokurō Nukui (Atsushi Kondo/Divulgação)

Literatura japonesa,

Os gritos do silêncio

Romance policial japonês inverte tropos consagrados do gênero com narrativa que vai do crime ao horror

01jun2026 • Atualizado em: 28maio2026 | Edição #106

O romance policial às vezes é diminuído como literatura vinculada a uma fórmula, mas essa característica é uma das mais interessantes quando tomamos o gênero como estilo popular espalhado pelo planeta. 

Há aspectos básicos nos títulos — o crime, o detetive, os detalhes da investigação, o mergulho psicológico na morte e na violência como fenômenos da natureza humana —, mas cada autor, imerso na sociedade em que vive, pode surpreender ao combinar esses elementos e abrir uma janela para como determinada cultura literária enxerga o gênero. É o que acontece com Os gritos, de Tokurō Nukui, um thriller melancólico que, amalgamado sem pudores com o horror, puxa o tapete do leitor mais de uma vez.

Publicado originalmente em 1993, o romance ganhou sua primeira edição no Brasil no ano passado. A narrativa é composta de duas tramas que se alternam em capítulos curtos. Na primeira, acompanhamos Matsumoto, um homem recém-saído de um hospital que, por motivos a princípio ignorados, arrasta em seus dias uma melancolia desesperada, sentindo a imensidão de um “buraco aberto no peito”:

Um buraco que nenhum médico poderia suturar, um buraco que doía sem que a dor jamais passasse. Um vazio que mais parecia um túnel castigado pelo vento. E, apesar de ser verão, o vento era tão frio que chegava a congelá-lo, sem jamais dar trégua.

Esmagado pela dor, Matsumoto certo dia é tocado pela esperança de um renascer emocional ao partilhar uma conexão aleatória com uma jovem que o aborda na rua e pede autorização para rezar por ele. A partir daí, ele tenta anular o “buraco no peito” frequentando as “neorreligiões” de variadas inspirações que se multiplicam em um Japão estagnado após o estouro da bolha econômica dos anos 80. Depois de experiências malsucedidas, Matsumoto parece encontrar o consolo espiritual que procura na misteriosa Ordem Universal da Luz Branca, um culto que mistura práticas meditativas do Oriente com um entendimento peculiar da Cabala. 

O romance policial é um gênero feito de pistas falsas, e Tokurō Nukui é hábil em semeá-las

O mergulho nas cerimônias vai revelar ao personagem se o culto tem seriedade de propósitos ou se, como aparenta, está a um passo de ser um esquema de pirâmide com pátina espiritual. Essa descoberta será fundamental tanto para Matsumoto quanto para o leitor quando as duas narrativas inevitavelmente se cruzarem.

Na segunda trama, o personagem central é o policial Saeki, chefe de uma divisão de elite a cargo da investigação de um caso que rapidamente se conforma em pesadelo: o sequestro e o assassinato em série de meninas. Os crimes são cometidos sem que muitas pistas sejam deixadas e, no início dos anos 90, ainda sem a internet e a proliferação de câmeras de vigilância urbana, a polícia patina para encontrar informações, que não ajudam as investigações a evoluir. 

Além da pressão da opinião pública, Saeki é, como os detetives em muitos thrillers, perturbado por questões pessoais — mas aqui temos o toque específico que representa uma inovação dos tropos desgastados do gênero. Saeki é inteligente, eficiente, algo arrogante e, na visão dos seus subordinados, como o detetive Okamoto, um policial “durão”. Essa característica não se expressa, como em muitos dos exemplares ocidentais, em explosões de agressividade e quebras recorrentes de hierarquia, mas em uma calma imperturbável, que Saeki sustenta com férrea força de vontade. 

As circunstâncias familiares mais atrapalham do que ajudam o personagem, já que ele é o filho bastardo de um poderoso político japonês e é casado (em uma relação em vias de ruir) com a filha de um oficial da alta hierarquia da polícia. Logo, por mais que Saeki demonstre diligência e talento, os demais alimentam a suspeita de que seus avanços na carreira se devem mais a contatos familiares do que a méritos pessoais, algo que pesa na rígida dinâmica tradicional da sociedade japonesa. 

Combustão

Os gritos tem uma narrativa de lenta combustão. Na primeira metade das quase quatrocentas páginas, a história de Matsumoto é privilegiada, progredindo aos poucos, mas de modo decisivo, ao contrário da demorada dispersão da parte investigativa, espelhando a desorientação e a falta de pistas relacionadas aos crimes. A certa altura, Saeki parece ficar em segundo plano em favor dos trabalhos de seu subordinado Okamoto. É na segunda metade que o romance revela suas intenções traiçoeiras quando a narrativa se inclina para o horror, criando cenas e imagens impactantes.

 A história se amplia em outros tópicos, como a invasão dos suspeitos cultos religiosos de matriz ocidental no Japão dos anos 90, a complexa hierarquia de uma polícia composta em sua maioria por funcionários não concursados e a relação tumultuada entre imprensa e polícia. É também um livro que, com pinças de cientista, avalia as consequências devastadoras do medo em uma sociedade tão rígida: mais do que o sempre presente medo do fracasso, o terror dos policiais diante dos assassinatos que vitimam crianças com a idade de suas filhas.

A linguagem de Nukui se mostra próxima da de outros escritores japoneses em tradução, uma mistura de simplicidade reta e deliberada, de poucos ornamentos, com algumas imagens e metáforas recorrentes — a mais grave é a do “buraco no peito” de Matsumoto, que será central para o desenrolar da narrativa à medida que seu motivo for revelado.

O romance policial também é um gênero feito de pistas falsas, e o autor é hábil em semeá-las. A conexão entre as duas linhas narrativas é elusiva antes dos últimos capítulos, e o papel final de Matsumoto será várias vezes sugerido para depois ser revisado. Com certeza, o leitor acertará alguns palpites, mas serão poucos os que não se surpreenderão com a última das reviravoltas. 

À medida que a narrativa avança, fica claro que o romance é a história de duas desagregações que se espelham: a de Matsumoto em função do mergulho na neorreligião a que se filia e a do imperturbável Saeki diante da progressão dos crimes. Ao final, no encontro das duas linhas narrativas, ganham sentido os “gritos” a que o título alude — não berros ou lamentos em voz alta, mas um silêncio interno anestesiante.

Editoria com apoio Japan House São Paulo

Desde 2019, a Japan House São Paulo realiza em parceria com a Quatro Cinco Um uma cobertura especial de literatura japonesa, um clube de leitura e eventos especiais.

Quem escreveu esse texto

Carlos André Moreira

É jornalista, escritor e tradutor.

Matéria publicada na edição impressa #106 em junho de 2026. Com o título “Os gritos do silêncio”