Ministério da Cultura apresenta
Natalia Timerman em foto de Lia Lubambo

A FEIRA DO LIVRO 2026, Literatura brasileira,

Mergulho em mar aberto

Em seu terceiro romance, Antes que apague, Natalia Timerman faz uma imersão na literatura, questionando o que é ser uma escritora hoje

25maio2026 | Edição #106

No pequeno e aconchegante consultório no bairro de Higienópolis, em São Paulo, onde a escritora, psiquiatra e psicoterapeuta Natalia Timerman recebe pacientes, uma parede chama a atenção. Ao centro, logo acima do divã, um quadrinho emoldura a frase “o sertão é dentro da gente”, de Guimarães Rosa; na ponta, próximo à janela, há uma sequência de azulejos com a pintura de um homem e de uma mulher dentro de uma piscina e o imperativo “continue a nadar”. O conjunto compõe a síntese perfeita de alguns dos principais interesses de Natalia: a psiquiatria, a literatura e a natação. 

Foi durante uma prova em mar aberto que ela “assentou” as ideias que encerram seu novo romance, Antes que apague. Em sua estreia na Companhia das Letras, a autora faz uma imersão em temáticas como escrita e memória a partir da narrativa de uma psiquiatra e escritora sem nome. Assim como Natalia, a narradora lida com o declínio cognitivo da mãe, causado pelo Alzheimer. 

Natalia ainda empresta à personagem experiências familiares e relacionadas à prática como psiquiatra. Mas, ao contrário do trabalho anterior, As pequenas chances (Todavia, 2023), sobre o luto após a morte de seu pai, Antes que apague não flerta com a autoficção, segundo a escritora.

Resultado de um doutorado em literatura, Antes que apague é o terceiro romance da paulistana, que assina ainda a não ficção Desterros: histórias de um hospital-prisão (Todavia, 2025), fruto do mestrado em psicologia, e a coletânea de contos Rachaduras (Quelônio, 2019).

Exposição

Desde a publicação de Copo vazio (Todavia, 2021), Natalia coleciona fãs. Em especial mulheres, identificadas com a protagonista, a arquiteta Mirela, que amarga um pé na bunda sem explicações (ou ghosting, na linguagem millenium) do namorado Pedro, no drama adaptado ao teatro pela dramaturga Angela Ribeiro.

O sucesso de Copo vazio trouxe uma exposição inesperada. “Uma aluna de letras me contou que sua colega estava me estudando em seu projeto de conclusão de curso. Estudando não a minha obra, mas minha presença nas redes sociais”, conta Natalia, no ensaio publicado em Eu escreve: dilemas das escritas de si (Record, 2025), que organizou com Gabriela Aguerre.

Durante uma prova de natação, a escritora ‘assentou’ as ideias que encerram o novo livro

Por essas e outras, ela mantém um perfil profissional. Não será por lá que a estudante de letras saberá que ela se considera uma mãe neurótica ou que, filha de um dos fundadores da Gaviões da Fiel, já fez loucuras pelo Corinthians, como ter ido em família ao Japão para assistir à final do Mundial de Clubes em 2012, ou ter se ajoelhado no estádio de mãos dadas com a torcida alvinegra durante a cobrança de um pênalti em 1993. “O ‘vai Corinthians’ é fazer o impossível. Nesse sentido, adoraria que minha literatura fosse corintiana.”

Diferentemente dos livros anteriores, em Antes que apague você se aprofunda na psiquiatria e na literatura. Por quê?
Outro dia, participei de uma mesa em que me perguntaram: “por que você escreve?”. Nesse livro, me questionei muito sobre esse tema. Ao mesmo tempo que me custou escrevê-lo, não conseguia parar. Às vezes, me surpreendo que tenha sido eu a compor cada uma dessas palavras, a ponto de ter se tornado um livro inteiro. Ele diminuiu em comparação às primeiras versões. Cortei mais de vinte páginas. Vejo isso quase como um gesto de tentar destruir o livro, secá-lo até ele deixar de existir. Mas acho que isso também é edição.

Escrever é editar, né?
Exatamente. Mas acho que as reflexões sobre literatura aparecem de duas maneiras: primeiro, porque esse trabalho surgiu de um doutorado, então essa investigação está em sua origem. Todo livro de literatura é metalinguístico. Alguns, como Antes que apague, tratam disso mais explicitamente. Segundo, porque essa narradora não nomeada se depara com segredos familiares por ser escritora, ou seja, escrever é uma condição para que ela conheça a própria história. Logo no início, a mãe da narradora a acusa de fugir da vida para a literatura, e o livro se propõe a defender a literatura dessa acusação. Talvez o final faça uma divisão entre a literatura e a vida. 

Sobre o que é o doutorado?
Conforme estudava a questão da autoria em Elena Ferrante e Karl Ove Knausgård, entendi que poderia investigá-la em um texto de ficção. Escrever é o meu jeito de pensar. Esse foi o ponto de virada. Ao longo de sua história, o romance subverteu a própria forma, laceando seus limites. Durante o doutorado, compreendi que a tese também pode fazer isso. Li alguns textos não tradicionais, cujo objeto de pesquisa pedia essa mudança na forma. Além do mais, fazia sentido que minha pesquisa ocorresse no campo da ficção. A apresentação traz essa justificativa ponto a ponto. Foi um percurso muito prazeroso.

Por quê?
Adoro estudar literatura. Não quero me afastar disso, mas ainda não sei se consigo emendar no pós-doc. Gostaria de me manter na condição de doutoranda. Tem gente que fica aflita, querendo finalizar logo. Eu, se pudesse, não terminaria nunca. Infelizmente, tem prazo para acabar. Vou pensar em alguma coisa nova para estudar ou, então, focar na escrita. Tenho uma ideia para o próximo livro, o que ajuda a me afastar de Antes que apague, que foi angustiante de escrever. Pensar no novo trabalho é um jeito de deixar esse livro seguir o caminho dele, sem muitas expectativas. 

Em um trecho do novo romance, a narradora diz que decidiu ser escritora na primeira infância e sabia disso “pelo conforto”. Foi por conforto que você começou a escrever?
Escrever é o que sei fazer. É quando me sinto eu. Se fico muitos dias sem escrever, alguma coisa sai do eixo. Mesmo que na maior parte do tempo, quando estou escrevendo algo novo, ache a escrita perturbadora. Ela não é gostosinha. Não é pacífica. Exige muito de quem escreve. Antes que apague exigiu que eu desse tudo o que eu tinha. Senti muita angústia e culpa. 

Por que culpa?
Por estar usando a doença da minha mãe, por exemplo, o que é muito difícil. É como se, ao escrever, estivesse causando o Alzheimer dela. Mesmo que a personagem não seja a minha mãe, é como se eu estivesse expondo seu sofrimento. Acho que parte da culpa é fantasiosa. Essa culpa neurótica, sempre dada, é muito judaica. 

Por que uma narradora psiquiatra? 
Há alguns pontos dessa narradora que vêm de minhas próprias experiências. Como mencionei, escrever é o meu melhor jeito de pensar. Com esse livro, quis entender também um pouco desse lugar de encontro entre psiquiatria e literatura.

‘Não acho que a gente precise viver o que escreve, mas precisa viver para escrever’

Em que a literatura e a psiquiatria se aproximam?
Acho que elas se aproximam na hermenêutica. A medicina é hermenêutica, pois tem de encontrar o que está escondido nos sinais, nos sintomas. A investigação clínica é tentar descobrir o que está por trás do que a pessoa e o corpo dela estão manifestando. O exame psíquico não é só a palavra, claro, mas tem muito dela e da história que o paciente conta sobre sua própria vida. Há muito de narrativa, né? Não tinha consciência disso, mas, olhando em retrospecto, talvez seja o que me levou a escolher a psiquiatria. 

No prefácio de Desterros, você afirma que acreditava que a vida de psiquiatra era incompatível com a exposição de uma escritora. O que a fez mudar de ideia?
Não mudei. Ainda me causa muita angústia. Acho que são posições quase incompatíveis no mundo. Me inspiro em outros psicanalistas que têm uma vida pública intensa, como a Vera Iaconelli ou o Christian Dunker. Gosto do que a Vera fala a respeito da exposição e da aparente contradição com a atuação como psicanalista. Ela afirma que trabalhou tanto para que seus pacientes pudessem bancar o desejo deles que, se ela não pudesse bancar os dela, não poderia ser psicanalista. Acho linda essa resposta.

Já trouxe histórias de pacientes para sua literatura?
Muito pouco. Uma das dificuldades de quem escreve é se deparar o tempo todo com um milhão de narrativas. A gente escuta uma conversa no ônibus e ali tem uma história. Tenho exercitado observar as pessoas e imaginar quem elas são, para onde estão indo, seus dramas No consultório, há a questão ética. As pessoas não querem que seu sofrimento vire livro. Mas já ouvi um relato muito bom de uma paciente e na hora perguntei se podia escrever a respeito dele. Ela autorizou, anotei, mas ainda não fiz nada sobre o tema. Ideias não faltam, mas o motivo que mobiliza a escolher determinado assunto é um mistério. Não preciso necessariamente tratar de uma experiência minha. Aliás, cada vez mais acredito que, até para escrever sobre mim, preciso me transformar num outro.

Quais outras vivências emprestou à narradora de Antes que apague
Principalmente as experiências com o Alzheimer. A partir de um determinado momento da doença da minha mãe, escrevi um diário. Mas nem todas as entradas do livro são reais. Algumas, inventei; outras, condensei. Coloquei o diário como material bruto a serviço do livro. Também emprestei a origem e algumas histórias familiares. A investigação sobre literatura e o questionamento sobre o que é ser uma escritora no mundo hoje talvez sejam a parte mais autobiográfica. 

Natalia Timerman em seu consultório, em São Paulo (Lia Lubambo)

Em que sentido?
Quando falo, por exemplo, sobre eventos literários e sobre o quanto esse universo captura o escritor e o afasta da literatura, que, para mim, tem muito a ver com o silêncio e a reclusão. Os pilares autobiográficos de Antes que apague estão no fato de a narradora ser escritora e psiquiatra e de a mãe dela ter Alzheimer. No entanto, não acho que a relação com a realidade seja a melhor chave de leitura para esse livro. 

Por qual motivo?
Em As pequenas chances, faço um jogo, criando essa instabilidade entre o real e o ficcional. Já em Antes que apague, a conexão entre a vida e a literatura está posta, mas é interpretada no terreno da ficção. Não existe a ambiguidade da autoficção. Claro que a gente não controla a recepção de um livro, mas não é à toa que a narradora de As pequenas chances se chama Natalia e a de Antes que apague não tenha nome. 

Você é uma das organizadoras de Eu escreve: dilemas das escritas de si, coleção de ensaios sobre autoficção. O que descobriu a partir desse trabalho?
A autoficção é um conceito que ainda está em disputa. Há uma tentativa de diminuí-la. Gabriela [Aguerre] e eu organizamos a coletânea para qualificar esse debate. Existe um enfado, como se ninguém aguentasse mais autoficção, que segue sendo muito lida, então é um discurso incoerente, né? A qualidade de um texto não está baseada em sua relação com a realidade.

Esse enfado tem a ver com o fato de muitas pessoas antes excluídas do mercado literário, como mulheres e pessoas negras, escreverem autoficção?
Acho que sim, porque a autoficção já existia. O cansaço chega quando a escrita das minorias começa a ocupar o campo literário. A gente está cansada de ler

Homens brancos héteros…
Exatamente. Só que, quando eles estavam escrevendo autoficção, ninguém reclamava. Quando as mulheres começaram a escrever, ai, nossa, “a gente cansou”. Eu não cansei. Na coletânea, a Ieda Magri, por exemplo, fala sobre o quanto ela sente que a ficção muitas vezes é artificiosa. Enfim, são tão poucos os livros que a gente lê, é tão pouco o espaço para a literatura, para ficarmos nos ocupando de diminuir a escrita de si…

Além de literatura e psiquiatria, no novo livro você discorre bastante sobre maternidade. O que te interessa abordar?
Os fatos não precisam ser iguais, mas o afeto que nutre essas considerações é muito parecido com o que acontece na minha vida. Por exemplo, quando meu filho mais velho era menor, eu sentia que minha mãe tinha que estar à disposição para me ajudar quando precisasse. Mesmo como mãe, reivindicava a posição de filha. O adoecimento da minha mãe me levou a ocupar verdadeiramente o lugar de mãe, que é o da disponibilidade para o cuidado. Minha mãe tem pessoas que cuidam dela no dia a dia, mas, quando ela fica doente, largo tudo e vou para lá. 

Há uma cena do livro que trata justamente disso, né?
Veja que curioso o modo como a literatura funciona. Aquela situação aconteceu: eu estava participando de um evento literário internacional on-line quando soube que minha mãe teve uma convulsão. Só que não lembro o que fiz. Não sei se larguei tudo e fui para o hospital ou se continuei no encontro. O mais óbvio é a ficção entrar no lugar da memória, mas, nesse caso específico, trata-se de uma reflexão sobre o que é ser escritora. O trecho diz que metade de mim continuou no evento e a outra metade correu atrás da mãe. Há essa dúvida sobre se saí de casa ou não. Não acho que a gente precise viver o que escreve, mas precisa viver para escrever. Nossas questões, angústias e nossos medos movimentam a literatura. 

Outra temática presente é a agressividade masculina…
A violência é um dos motores desse livro. Penso nela como uma herança com que temos que lidar e que precisamos romper e transformar em outra coisa. Não se deve calar as histórias de violência, mas fazer algo delas. Os personagens violentos do romance não são pessoas terríveis, assim como os homens violentos no mundo não são apenas isso. Não estou dizendo que a responsabilidade individual não existe, mas que a violência não se resolverá apenas em nível individual. Nosso imaginário associa o masculino à violência, e a literatura é um lugar privilegiado para repensarmos isso. No livro Alguém sobrevive nesta história (Todavia, 2025), Felipe Poroger propõe outra maneira de ser homem no mundo. Meu livro também questiona isso. 

‘A autoficção é um conceito que ainda está em disputa. Há uma tentativa de diminuí-la’

No livro anterior, As pequenas chances, você descreve sua reaproximação com o judaísmo. Qual é sua relação com a comunidade?
Na infância, frequentei acampamentos judaicos, mas também fui bandeirante. Depois, me afastei totalmente do judaísmo, até a morte do meu pai, quando me reaproximei pelos rituais fúnebres e passei a me entender de novo como judia. Na verdade, nunca tinha deixado de ser. 

O que é se entender como judia? 
É muito mais uma identidade do que uma religião. Até hoje, não sei se acredito em Deus. Em alguns momentos acredito, em outros não. Mas sou judia sempre. Acho que a relação com os livros, por exemplo, tem algo de muito judaico. Os judeus eram o povo do livro — ou ainda são, porque tem muitos jeitos de ser judeu. Este é o meu jeito de ser judia: me ver sempre perto dos livros. 

Quando se deu essa aproximação com os livros?
Fui incentivada a ler desde a infância. Para algumas pessoas, o gesto inaugural de ser escritor é se distanciar da família. Isso não aconteceu comigo. Desde que me entendo por gente, quero ser escritora. Não foi uma surpresa para meu pai e minha mãe, ainda que eles não tenham acompanhado muito da minha realização como escritora. Essa é uma das dores que carrego. Ambos estavam no lançamento do meu primeiro livro, e foi ótimo. A partir de 2019, me vi seguindo meu caminho sozinha, sem meus pais para testemunhar. Meu pai morreu nesse mesmo ano e minha mãe tem Alzheimer há mais de uma década.

Por que escolheu estudar medicina?
Porque meu pai era médico. Fiquei na dúvida entre prestar [vestibular] para medicina, letras ou jornalismo, e meus pais me convenceram pela medicina. No começo, odiei. Pensei em desistir. Aos 21 anos, fiz uma viagem transformadora para o Xingu com a faculdade [Unifesp]. Foi quando decidi que ia terminar o curso. 

O que a fez mudar de ideia?
No Alto Xingu, participamos de uma campanha de vacinação e de uma busca ativa por toxoplasmose. Passávamos horas na voadeira. Às vezes, ainda tínhamos de andar de bicicleta ou caminhar um tempão até chegar à aldeia, dormir na rede, fazer as necessidades no mato, mas não tenho nenhuma memória de desconforto. Pelo contrário. Lembro de uma noite, no meio da floresta, sob um céu que nunca vi tão estrelado, em que tive uma sensação de plenitude e felicidade. Estava no meio do nada, sem ninguém do meu convívio íntimo, mas me senti acolhida. Pela primeira vez, experimentei um jeito de viver não capitalista. Foi transcendental. Entendi que a medicina pode ser esse estar aberto ao outro, o que também é uma das melhores maneiras de cuidar de si e se entender no mundo. Minha prática clínica, psiquiátrica e psicoterapêutica, ainda carrega isso: cuidar do outro é cuidar de si também. Inúmeras vezes eu não estava bem e, depois de atender, me sentia melhor. A outra viagem que mudou minha vida foi para Cuba, onde conheci meu ex-companheiro, pai do meu filho mais velho. 

Em As pequenas chances, você relata outra viagem importante, a busca por suas raízes. Qual é a origem de sua família?
Meus avós paternos vieram da Moldávia e da Ucrânia, para onde tentei ir, mas não consegui, por causa da pandemia e, depois, da guerra. Essa viagem ficou no mecanismo do sonho. Mas fiz outra, para Letônia, Estônia e Lituânia, de onde veio minha família materna. Escrevi um texto a respeito dela que será publicado em uma coletânea sobre o judaísmo organizada pela [escritora e professora] Lia Vainer Schucman para a editora Perspectiva. Quando a Lia me convidou, eu disse que não era judia e ela questionou: “Você trata de rituais judaicos no livro sobre a morte de seu pai, visitou a terra de seus avós maternos. Como pode dizer que não é judia?”. Esse texto investiga também o fato de não me considerar tão judia. 

Como foi a viagem?
Muito boa. Fomos com uns primos distantes, com quem não tinha convivido muito, e que agora estão próximos. Foi bonito experimentar aquelas comidas, ir ao vilarejo minúsculo onde minha avó nasceu. Estava um calor de crise climática. Eu e o Jorge [filho caçula] nadamos num lago. Entrei de calcinha e sutiã. E me certifiquei de que não iria pegar uma coceira ou uma esquistossomose. Essa é a minha mistura de mãe judia e médica. A paranoia é cientificamente fomentada [risos].

Você não parece uma mãe paranoica, parece até muito tranquila…
Tem dois jeitos de ser médica e lidar com os filhos: achar que nunca é nada ou ficar preocupada com tudo. Sou superpreocupada. Tanto que, quando meu pai estava vivo, colocou uma sirene de ambulância como meu toque de celular, porque era sempre um toque de desespero. Meus pacientes também falam que sou calma, mas sou muito, muito ansiosa! Bem neurótica mesmo.

‘Falar de memória é falar sobre tempo. Tem muito a ver também com a literatura’

Quando veio ao Brasil, a escritora franco-marroquina Leïla Slimani disse que o primeiro sentimento ao se tornar mãe foi medo. E o seu?
Ah, senti até onde podia ir o amor, né? Não foi imediatamente que senti medo, mas percebi logo que a paz tinha acabado para sempre. Agora, meu filho mais velho está na fase de ir à balada, então, quando ele tem uma festa, sei que não vou dormir. Só consigo relaxar quando ele chega em casa.

Você também é uma pessoa festeira e agregadora. De onde vem isso?
Minha mãe e meu pai gostavam muito de festa. De reunir as pessoas em casa nos aniversários. Mas, se por um lado sou agregadora, por outro gosto de recolhimento. Sempre busco esse equilíbrio entre estar no mundo e sozinha, para ler ou estar com minha família. Meus livros proporcionam os momentos de maior solidão e prazer. 

Consegue estar só com os livros, com uma criança e um adolescente em casa?
Ontem [domingo, 29/4], por exemplo, o Jorge queria fazer uma coisa especial e sugeri ficarmos lendo na sala, ao que ele respondeu: “Mas, mãe, a gente sempre faz isso”. Então, cozinhamos, o que é muito especial, porque quem cozinha em casa é meu companheiro. Depois, ele pegou o livrinho dele, eu peguei o meu, e ficamos deitados no sofá. Para mim, isso é maravilhoso. Já o mais velho [Benjamin] não gosta de ler. O momento de silêncio dele é estudando matemática. Ele tem quase uma recusa à literatura. 

Onde você costuma trabalhar?
Aqui é muito bom de escrever [no consultório], mas aprendi a trabalhar em qualquer lugar. Já escrevi coluna no celular, dentro do ônibus. Adoro escrever em cafés. Às vezes, escrevo na cama, antes de dormir, ou na mesa lá de casa, que é uma bagunça, com as crianças brincando em volta. Tive uma ideia para um livro infantil enquanto estava nadando. Saí da piscina e anotei. A primeira versão de Antes que apague foi feita na residência literária Art Omi em Ghent, no estado de Nova York, num lugar maravilhoso, com um parque de esculturas, um quarto confortável, comida, limpeza e uma paisagem linda na janela. Mas estou tão acostumada a escrever no caos que, quando tive todo o tempo do mundo, fiquei meio perdida. Fiz um diário sobre a residência, publicado no site da revista Quatro Cinco Um. Mas assentei as ideias para o final desse livro durante uma prova de natação em mar aberto.

Após essa imersão no Alzheimer, o que descobriu sobre a memória?
Até estar diante do Alzheimer, eu não tinha noção do quanto a memória é constituinte. Sem memória, a pessoa desaba, por não conseguir sustentar a própria história. Ela não é algo só do passado. Está ativa em nosso presente e também no futuro. Falar de memória é falar sobre tempo. Tem muito a ver também com a literatura.

Quem escreveu esse texto

Adriana Ferreira Silva

Jornalista, escritora e palestrante, trata de temas como desigualdade de gênero e liderança feminina.

Matéria publicada na edição impressa #106 em junho de 2026. Com o título “Mergulho em mar aberto”

Feira do Livro 30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.

A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.