Ministério da Cultura apresenta
O geógrafo paulistano Kauê Lopes dos Santos (Divulgação)

A FEIRA DO LIVRO 2026, Desigualdades,

Comprar, parcelar e trabalhar

Kauê Lopes dos Santos expõe o ciclo cumulativo de desvantagens na periferia de São Paulo, com acesso a bens que não superam a pobreza

19maio2026 | Edição #106

Pode o capitalismo curar as feridas provocadas precisamente por ele? A ampliação da oferta de crédito para populações de baixa renda, a chegada de produtos financeiros à periferia e o crescimento econômico somado ao aumento real do salário mínimo e à implementação de políticas de redução das desigualdades nos governos Lula 1 e 2 possibilitaram o acesso a bens de consumo para uma parcela da população que, por anos, viveu não só sem as políticas públicas, mas também sem esses bens. Esse acesso se dá por uma dinâmica de consumo específica: o parcelamento. 

Maria do Carmo, confeiteira pernambucana, adquiriu uma geladeira e os equipamentos de cozinha — todos parcelados — com os quais produz os doces que garantem sua renda. Antenor, pedreiro baiano, comprou em parcelas os materiais para construir a própria casa nos fins de semana. Raimundo, jovem da Brasilândia, em São Paulo, saiu para comprar um remédio e voltou com um celular parcelado em 24 vezes.

Com essas e tantas histórias, Kauê Lopes dos Santos investiga as dinâmicas de consumo na periferia de São Paulo em Parcelado, focando as maneiras pelas quais as camadas populares são inseridas na lógica do capital financeiro. A lente é colocada em três bairros: Jardim Ângela, Brasilândia e Jardim Helena, onde a população é também majoritariamente negra.

Ao construir seu argumento em diálogo com estudiosos como Milton Santos, Florestan Fernandes e Raquel Rolnik, e contar as histórias de Raimundo, José, Lucia e outros, Santos costura também a história de um Brasil. Migrações advindas do norte de Minas, do sul da Bahia, de Sergipe, do Piauí e de tantos lugares do Nordeste que construíram a maior metrópole do país. Gente que trazia consigo uma esperança num futuro vendido pelo projeto desenvolvimentista brasileiro, marcado pelo urbano como lugar do moderno e do progresso.

Mas a facilitação do acesso ao consumo consegue dar conta dos sonhos gestados nesse projeto? Como pergunta o autor: “O que significa consumir mais em contextos de escassez? O que significa acessar crédito em contextos de insegurança? E que tipo de cidadania é viabilizada por essa lógica?”.

A população acessa crédito e produtos, mas convive com uma expectativa de vida menor que em bairros ricos

A chegada dos produtos financeiros nas periferias se deu sobretudo pelas grandes redes varejistas como Casas Bahia e Magazine Luiza. A lógica fica a serviço de um ciclo perverso: a propaganda cria o desejo, as redes facilitam o consumo a partir da oferta de crédito, a obsolescência programada diminui o tempo de vida dos objetos comprados e cria a necessidade de substituição. Compra-se, parcela-se e trabalha-se mais para pagar o que se comprou. As consequências são claras: como aponta o autor, em 2025, 71% das famílias de São Paulo estavam endividadas, 21,6% em inadimplência e 9,1% em insolvência. 

O acesso facilitado ao crédito se torna uma faca de dois gumes. Por um lado, permite a obtenção de bens de consumo como televisões, celulares, geladeiras e máquinas de lavar. Esses produtos tangenciam esferas importantes na vida: momentos de lazer, facilidade nas tarefas domésticas e até garantia de trabalho, como no caso da confeiteira Maria do Carmo. Por outro lado, em muitos casos, instaura-se um ciclo de dívidas que tem consequências para além do comprometimento do orçamento familiar. 

“Virei motorista de aplicativo porque é muita conta para pagar. Só o trabalho no supermercado não dá para manter minha família”, afirma Breno, morador do Jardim Helena. Isto é, as estratégias cunhadas para amortecer as dívidas, no fim, capturam e comprometem o tempo presente de vida do trabalhador.

Prejuízo

Em 2025, a população endividada teve 63% dos seus pedidos de repactuação recusados nos tribunais, segundo levantamento da plataforma de pesquisa jurídica Juit. Em outras palavras, o Estado brasileiro está negando às pessoas físicas os meios legais de renegociação das dívidas. No mesmo ano, os pedidos de recuperação judicial, mecanismo existente para o empresariado, bateram recorde. A lógica é simples: para as empresas, garante-se a socialização dos prejuízos — todo mundo paga o pato. Para o trabalhador, a dívida é individual, ele que trabalhe mais e pague. 

Existe outra dimensão da inserção dos produtos financeiros na periferia: nesses espaços, “os objetos chegam antes dos direitos”. A população está conseguindo acessar bens de consumo, mas convive com uma realidade onde a expectativa de vida média ainda é quase vinte anos menor que em bairros ricos. No Jardim Ângela, a expectativa média de vida é 61 anos, menos que os 64 anos na Brasilândia e no Jardim Helena. Em bairros como Jardim Paulista e Alto de Pinheiros, o número sobe para 81 e 82 anos. 

Assim, a ampliação do crédito incorpora as classes populares, majoritariamente negras, a um circuito de consumo que não altera nenhuma posição estrutural. Consome-se antes, paga-se depois, trabalha-se mais. A dívida, grande consequência desse circuito, passa a organizar a vida e aliena o futuro dessas pessoas. E, dessa maneira, se consolida a manutenção do que Carlos Hasenbalg e Lélia Gonzalez nomearam como o ciclo cumulativo de desvantagens da população negra, mas agora com nova maquiagem a partir da inserção dos produtos financeiros nos territórios periféricos e a falsa percepção de sucesso econômico resultante da aquisição de bens de consumo.

A resposta à pergunta inicial deste texto se encaminha com clareza na conclusão de Parcelado: o acesso ao crédito e os novos padrões de consumo não superam a pobreza urbana, apenas alteram a sua aparência. Como afirma o autor:

Trata-se de uma mutação contemporânea e indelével da pobreza: menos marcada pela carência absoluta e mais determinada por uma vida endividada, sustentada pela promessa sempre adiada de mobilidade.

Santos não apresenta suas conjecturas para a superação das desigualdades sociais, mas arrisco nomear alguns caminhos, a partir de reivindicações da classe trabalhadora brasileira: taxar os ricos, redistribuir a renda, acabar com a escala 6×1, investir em políticas públicas de afrorreparação. O capitalismo não vai ser sua própria panaceia. Já as lutas dos trabalhadores e dos movimentos negros, sim, abrem caminhos.

Quem escreveu esse texto

Maria Luiza Rocha Bueno

Doutoranda e pesquisadora em educação na Stanford University.

Matéria publicada na edição impressa #106 em junho de 2026. Com o título “Comprar, parcelar e trabalhar”

Feira do Livro 30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.

A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.