Ministério da Cultura apresenta
A autora estadunidense Tracy Mann (Divulgação)

A FEIRA DO LIVRO 2026, Memória,

A Bahia dentro da gente

Ao relembrar convívio com grandes artistas brasileiros nos anos 70, Tracy Mann exalta a cultura que forma sensibilidades

08maio2026 • Atualizado em: 09maio2026 | Edição #106

Em 1969, às vésperas do exílio imposto pela ditadura militar, Gilberto Gil compôs “Aquele abraço” como quem lança um último olhar pela janela e vê o Rio de Janeiro, suas esquinas sonoras, o mar, os corpos em movimento e a vida que insistia em pulsar apesar do medo. Foi no Teatro Castro Alves, em Salvador, porém, em um show na noite de 20 de junho daquele ano, que os baianos cantaram a despedida de Gil e Caetano Veloso, cena que a escritora e tradutora estadunidense Tracy Mann reconstituiu em O mundo todo é Bahia, cujo título foi soprado em seus ouvidos por Gil. Versos da canção que se tornou um dos maiores sucessos do artista baiano estão na epígrafe da obra, traduzida para o português por Santiago Nazarian. 

O livro de memórias traz episódios ligados à chegada da autora ao Brasil, nos anos 70, e ao percurso que a conduziu à sua amada Bahia, misturando acontecimentos históricos do período e experiências de forte impulso criativo e artístico, que continuam ecoando em sua trajetória. Estudante de intercâmbio vinda de Nova Jersey, ela percorreu da elite de São Paulo à cena musical efervescente de Salvador, passando rapidamente pelo Rio de Janeiro. A experiência em plena ditadura reverbera na escrita, que concilia a subjetividade de quem viveu aquele período com fragmentos históricos que atravessavam o país. 

Hoje conhecida como “embaixadora do Brasil” no SXSW (South by Southwest) — um dos maiores festivais de inovação e cultura do mundo, realizado anualmente em Austin, no Texas —, Mann sustentou um vínculo contínuo com o país desde a sua primeira vinda, em 1973. O mundo todo é Bahia é também uma forma de entender como o encantamento pelo país teve início, além de iluminar as experiências que moldaram sua relação duradoura com a nossa terra.

‘Foi como se eu tivesse entrado em um palácio de maravilhas, onde tudo é revelação, tudo é incrível e nada é impossível’

Nas páginas, seus encontros com Gil, Caetano, Mario Cravo Neto e Dominguinhos compõem a costura afetiva que conduz uma narrativa cheia de imagens e ecos do tempo. Ao compartilhar suas lembranças, Mann oferece o retrato sensível de um Brasil sedutor e exuberante, mas imerso em um tempo bastante duro.

Em entrevista à Quatro Cinco Um, ela relata como a escrita se tornou parte de sua vida, conta sobre o legado cultural que a Bahia da década de 70 deixou em sua percepção de mundo e fala sobre sua participação n’A Feira do Livro 2026, como autora convidada.

“O mundo todo é Bahia.” Gil lhe falou isso há cinquenta anos e você guardou a frase até transformá-la no título do livro. O que essas palavras significam para você?
A frase “O mundo todo é Bahia”, até hoje, reafirma que o que eu procuro na vida posso encontrar no mundo, mesmo fora da Bahia. Ela se tornou tipo um mantra dentro de mim. Não é demais dizer que a Bahia tem um astral único. O ditado de Gil confirmou para mim que esse astral pode estar vivo dentro da gente, independentemente de onde nos encontramos no mundo. Ele pode abrir nossos olhos e nosso coração para o infinito. O astral — a sensação que a Bahia concede àqueles de nós que acreditam nela, que a amam — nos abre para uma vida muito maior, para uma gama infinita de possibilidades que o mundo nos oferece.

Como a escrita se tornou parte da sua vida?
Sou uma leitora voraz. Desde pequenininha, vivia dentro dos livros que devorava. Sempre mantive cadernos de recordações, diários, poesias amadoras. Copiava trechos dos escritores que mais admirava. Na década de 80, fui chamada para fazer letras em inglês para músicas brasileiras e letras originais para os músicos de jazz que eu conhecia em Los Angeles. Olhando bem, dá para ver que essas letras tomavam forma de contos. Chegou a um ponto em que achava o gênero letra um formato muito restrito para tudo o que eu tinha a dizer. E comecei a publicar contos sobre o Brasil em revistas literárias e escrever o que se transformou neste livro.

Seu livro mostra que você chegou ao Brasil forjada pelas palavras. Por Anaïs Nin, Germaine Greer, Jack Kerouac. O que a vida baiana lhe trouxe para além das letras? 
A música. Quer dizer, já havia música na minha vida: tocava piano, cello, flauta, compunha minhas musiquinhas. Mas a força política da música, como experiência coletiva e expressão de uma sociedade, como ferramenta contra o autoritarismo, até então eu não conhecia, a coragem dos artistas brasileiros de enfrentar a ditadura com a sua arte, com a alegria que nenhum governo poderia tirar. 

Nos anos 70, na Bahia, você viveu cercada por grandes artistas como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Mario Cravo Neto, Waly Salomão e outros. O que, além de memórias, essa convivência construiu na sua sensibilidade?
Minha convivência entre grandes artistas brasileiros da década de 70 expandiu minha consciência de uma maneira formativa. Fui exposta a ideias, filosofias, filmes, livros, músicas, peças de teatro, exposições de artes plásticas etc., coisas que eu jamais teria conhecido na minha cidadezinha em Nova Jersey. Foi como se eu tivesse entrado em um palácio de maravilhas dos livros infantis, onde tudo é revelação, tudo é incrível e nada é impossível. Até hoje, tenho uma fome insaciável por cultura, porque ela me faz sentir uma cidadã do mundo, capaz de ir e viver muito além do meu país de origem. 

‘O Brasil é minha musa. Ainda tem muitas histórias inspiradas pelo país que quero contar nos meus próximos livros’

Foram mais de dez anos dedicados a este livro, a partir de diários escritos quando você viveu no Brasil. Como você percebe a relação entre a escrita, a memória e o tempo? 
Foi muito importante para mim registrar essas memórias antes que as pessoas que me receberam com tanto amor e carinho morressem. Infelizmente, não consegui me antecipar em alguns casos, como no da Ritinha [Rita Katia Barreto, que fez as fotos do livro] e no do Dominguinhos. Estou convencida de que a vivência que tive no Brasil foi algo muito especial — uma serendipidade de encontros, conexões e aprendizagens privilegiadas, ainda mais por eu ser americana, com toda a bagagem política do meu país. As memórias são as nossas impressões do passado, impactadas por tudo o que a gente viveu desde então. O meu livro não se propõe a contar a verdade. Só conta a minha verdade, mitigada pela lente do tempo. 

Há em O mundo todo é Bahia uma tensão entre duas línguas e dois países. Quando você escreve em inglês sobre o Brasil, o que do nosso país permanece e o que se perde na travessia entre línguas? E o que, paradoxalmente, você acredita que um olhar estrangeiro é capaz de perceber que nós, brasileiros, talvez deixemos passar despercebido? 
O que me falta quando escrevo sobre o Brasil em inglês é a própria musicalidade da língua portuguesa, o som dela. Para entender bem o Brasil, acho necessário entender português e sentir o seu ritmo, as suas sutilezas e a multidão de línguas (europeias, africanas, indígenas) que vive dentro da língua portuguesa. Escrevo sobre o Brasil com a intenção de compartilhar a minha experiência. Não é nada definitivo, é uma experiência minha sobre o país, por que o acho tão cheio de maravilhas. E ainda tão desconhecido. Consigo reconciliar duas visões de Brasil — a boa e a má — com a minha crença de que é o país do futuro. Talvez isso seja mais complicado para os brasileiros.

Mulher vestindo as fitinhas de Nosso Senhor do Bonfim, em Salvador, Bahia (Rita Kátia Barreto/Divulgação)

Você passou décadas sendo a “embaixadora do Brasil” no SXSW, no mundo dos negócios, da música, da inovação. Mas, neste livro, você se permite simplesmente ser uma mulher que ama um país e foi por ele transformada. Como é a sua percepção sobre o Brasil hoje?
Sou suspeita, viu? Porque até hoje o Brasil me parece algo extraordinário. Vejo a continuidade da criatividade e a inovação brasileira que conheci na década de 70. Essas rupturas mundiais que estamos sofrendo agora até abrem uma porta para o Brasil ser um protagonista maior no mundo. Diferente dos anos 70, vejo o movimento negro muito forte, liderado por um elenco impressionante: o [empreendedor social e futurista] Paulo Rogério Nunes, na Bahia; a [empreendedora social] Adriana Barbosa, em São Paulo; e a [secretária de Inovação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul] Lisiane Lemos, em Porto Alegre, entre outros. Esse movimento ainda tem muito mais para conquistar, mas está bem posicionado para levar o Brasil para o futuro, quando a miscigenação desse país de maioria negra será reconhecida como o superpower que é.

O mundo todo é Bahia acaba de ser publicado e você já está escrevendo um romance. O Brasil segue sendo a inspiração?
O Brasil, de fato, é minha musa. Ainda tem muitas histórias inspiradas pelo país que quero contar. Este novo livro, O palacete de amor, é um romance sobre a Escola de Artes Visuais (EVA) do Parque Lage, no Rio de Janeiro, no início da década de 80. A obra da Adriana Varejão me levou a descobrir o trabalho dos artistas da geração 1980 da EVA e plantou a semente de uma trama sobre como a arte sobrevive num período de ditadura. Também já estou colecionando matérias para um terceiro livro, sobre a Lina Bo Bardi. Escrevo, de certa forma, pensando em entregar essas histórias para um leitor que não conhece o Brasil. Acho irônico que foi só no Brasil, por enquanto, que o meu trabalho encontrou o seu público.

Você estará n’A Feira do Livro 2026, em São Paulo. Como se sente vindo ao Brasil como escritora?
Participar d’A Feira do Livro me parece um sonho. Há dois anos, minha filha, Chloé, que é professora de língua portuguesa e de literatura brasileira na Universidade da Carolina do Norte, me levou para conhecer A Feira e fiquei encantada. Eu estava no início das conversas com editoras brasileiras para encontrar alguma que publicasse O mundo todo é Bahia. Conhecer editoras independentes, como Laranja Original, Cobogó, Âyiné e Fósforo, foi tão gostoso quanto assistir às mesas de Andrea Del Fuego e Betina González. Neste ano, em que A Feira do Livro homenageia a literatura latino-americana, é uma grande honra fazer parte dessa comunidade literária.

Quem escreveu esse texto

Erika Muniz

É jornalista cultural.

Matéria publicada na edição impressa #106 em junho de 2026. Com o título “A Bahia dentro da gente”

Feira do Livro 30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.

A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.