Gregorio Duvivier está há um ano e meio subindo aos palcos do Brasil, de Portugal e de mais nem sei quantos lugares onde houver brasileiros com saudade de casa, num espetáculo para lá de comovente sobre a língua portuguesa. Ou… deixa eu me corrigir. Porque O céu da língua é na verdade sobre o amor — desmedido, divertido, encantado e encantador — do próprio Gregorio pela nossa língua.
A peça já foi vista por mais de 200 mil pessoas. Du-zen-tas mil pes-so-as. E não dá o menor sinal de estar perdendo gás. O que também não perde fôlego nem força é aquele encanto do seu ator e coautor (ele assina a dramaturgia em parceria com Luciana Paes) pela língua portuguesa, suas esquisitices, originalidades e novidades. Prova disso foi a versão “de bolso” que apresentou na Flip de 2025, e que chamou de O limbo da língua.
Outra prova, e mais um desdobramento do espetáculo original, é o que agora se apresenta como o livro Aos pés da letra, lançado quase simultaneamente, ainda que com títulos diferentes, no Brasil e em Portugal (A flor da língua, pela Tinta-da-China). Em Paraty eram apenas Gregorio, uma cadeira e um projetor de transparências (como faziam os astecas, crianças). A questão, no entanto, é que “apenas Gregorio” é receita mais do que suficiente. E agora, nessa versão ampliadíssima, revisada e encapada, um público ainda maior pode ficar sabendo disso — como se o país inteiro já não soubesse.
Aos pés da letra é uma alegria. Uma delícia de passeio pelas doideiras e perfeições da nossa língua, na companhia de um dos nossos maiores humoristas, que além de tudo tem um belíssimo de um ouvido para poesia, como sabe quem já leu seus sonetos, e uma sólida formação geral em letras, que o leva a falar com autoridade de temas que vão muito além da graça desta ou daquela palavra, ou de sua irritação com uma ou outra questão gramatical.
O livro aborda a hipótese do relativismo linguístico de Benjamin Whorf e a arbitrariedade do signo linguístico, como formulada por Ferdinand de Saussure, com a mesma leveza com que discute os melhores e os piores nomes próprios para o vômito (Raul, Hugo, Gregório?) no Brasil ou em Portugal. Aborda etimologia, fonologia, morfologia e sintaxe com o mesmo ímpeto com que canta seu amor pelo nosso “será”, ou com que descreve sua teoria infantil de que se havia um “padrinho” — diminutivo e com esse jeitão meio infantil — haveria de existir também um “padro”, neutro e muito mais maduro. Passeia pela Fernweh e a Coronaangst do alemão com a mesma tranquilidade com que nos apresenta lusitanismos como “falhanço” e “javardo”.
Além dos achados, Gregorio te dá a grande sacada que ‘a palavra é a paixão mais oculta do brasileiro’
Aliás, essa é outra das grandes qualidades de Aos pés da letra. Gregorio conhece de verdade a graça da variedade lusitana do idioma, tem passado bastante por lá, com este e com outros espetáculos, e sabe olhar para essa parte do idioma que tende a nos ser quase desconhecida com o mesmo fascínio e o mesmo senso de humor: o que nos deixa mais informados e mais divertidos, de uma tacada só.
Mais Lidas
Composto como uma série de vinhetas breves interligadas, cada uma dedicada a uma palavra, o livro poderia até parecer um almanaque, ou uma coleção de trívia, curiosidades sobre cada um dos termos. Mas o fato é que a junção de todos esses ingredientes — linguística, poesia e, acima de tudo, aquele amor apertado pelo idioma — faz com que tudo passe por uma alquimia muito poderosa, e se transforme num conjunto bem mais explosivo, e mais original.
Quem aceitar o convite e passar por essas páginas vai (sim, certeza que vai) rir bastante. Vai aprender muita coisa (e pode confiar no que aprender). Vai também poder discordar de uma ou outra opinião, num livro tão pessoal (eu mesmo discordo do horror do Gregorio pelo Acordo Ortográfico). Mas antes vai viver a experiência de ter um “amigo pessoal” (confira lá no livro) extremamente inteligente e engraçado, sentado ali com você, falando sem parar sobre o nosso assunto preferido.
Palavra.
Eu te dou a minha.
E o Gregorio te dá dezenas.
E, junto com esse conjunto de achados, ele te dá também a grande sacada, que relata ter descoberto com a repercussão do seu espetáculo teatral, de que “a palavra é a paixão mais oculta do brasileiro”. O livro é não só investigação dessa ideia, mas prova dela.
Cicatrizes
Eu disse lá no começo que a peça que gerou todo esse lindo projeto anda passando por países em que o português nem é língua oficial, mas onde comunidades gigantescas de brasileiros estão com saudade de casa.
E que casa é essa?
Os Estados Unidos — lembra Caetano… o Veloso — são um país sem nome, enquanto o Brasil é ainda um nome sem um país. Continuamos tentando nos entender, quem sabe até sonhamos nos “integrar”. Continuamos lutando para não brigar, brigando para não lutar e normalmente fracassando. Continuamos falando mal desta terra, saindo desta terra, lidando, cismando e trabalhando por esta terra que nos trata tantas vezes tão mal, que foi formada pelo mais cruel dos processos históricos coloniais, escravizando mais gente do que qualquer outro lugar do mundo, e vive até hoje com essas cicatrizes e com essas consequências.
Mas continuamos precisando voltar para casa.
E que casa é essa? Ora, a casa em que fazemos esta pergunta.
Cada um de nós sabe, sem sombra de dúvida, que a nossa verdadeira casa é a língua que soubemos fazer a partir da que nos chegou com aquelas caravelas. E cada um de nós sabe que pode contar com o potencial criativo desse idioma — e de nós, sócios majoritários do tal português — para matar a saudade de casa, lembrar que ela existe, espichar as pernas no sofá.
Um poema.
Uma canção (tantas vezes uma canção…).
Um livro como este.
Uma ode, um canto de amor à língua portuguesa, esplendor e sepultura, pátria, frátria, mãe gentil: quinta série e jururu. Nossa casa, que para sorte de todos os presentes terá sempre uma cadeira reservada ali na mesa da cozinha (lugar das melhores conversas) para receber Gregorio Duvivier.
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30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita
A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.
A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.