Ministério da Cultura apresenta
O filósofo e educador Fernando José de Almeida (Arquivo pessoal/Divulgação)

A FEIRA DO LIVRO 2026, Fichamento,

Fernando José de Almeida

Aos 82 anos, filósofo e educador estreia na literatura com inventário amoroso das memórias recolhidas depois do suicídio da filha

01maio2026 • Atualizado em: 29abr2026 | Edição #105

Elogio à saudade: 11 de novembro de 2023, 23h40 (Seja Breve) revela, sem autopiedade nem histórias de superação, modos de usar o luto e não ser usado por ele.

Por que Elogio à saudade ao referir-se a uma dor tão devastadora quanto a morte de uma filha?
Cheguei no título pensando na palavra “elegia”: trazer à tona alguma coisa que estava meio escondida e é eleita, tirada de um lugar e colocada em outro. Elogio também é isso. Consegui retirar a minha saudade daquele monte de tralhas misturadas com coisas bonitas.

Doeu muito o processo da escrita?
Vou te contar como começou. Uma das amigas da minha filha me falou de um homem que tinha perdido o filho e escrito um texto que ela queria me mandar. Achei que seria horrível, mas, como era uma amiga da Lorena, li. E era maravilhoso, tem um trecho no meu livro. Decidi me encontrar com esse homem, e ele me perguntou se eu poderia dar uma entrevista para o site Vamos Falar Sobre Luto. Respondi que entrevista não, queria escrever. Comecei com uns quatro parágrafos por dia, oito, foi ficando um negócio grande. Uma grande amiga, a [editora] Maria Emília Bender, pediu para ler e reduziu pela metade. Fiquei muito bravo, mas, depois de uns quinze dias, li a versão cortada e fiquei encantado: o livro ficou outra coisa, nada de “querido diário”. 

Você foi seminarista da Companhia de Jesus. Como o suicídio de sua filha afetou sua fé? 
Estou mais amargo. Fé exige uma certa ingenuidade, uma alegria primitiva. Depois de certa idade e dessa pancada, não dá mais para dizer “no fim dá tudo certo”. Acho que não vai acontecer nada pior comigo, mas, com a morte da Lorena, já deu errado. Ao mesmo tempo, está dando certo. Aos 82 anos continuo arranjando trabalho, sou chamado para coisas que não eram para acontecer na minha vida. Tenho o privilégio de estar bem fisicamente e de ter tido a Lorena na minha vida. Dá para caber uma fé, não inocente, mas uma fé desconfiada.

Seu livro não é de autossuperação nem autopiedade. O que estava procurando ao escrever?
Não sabia o que procurava. O que tinha: meus dois netos, filhos da Lorena, e minha esposa. São referências para saber que não sou só eu que perdi. Eles leram o texto que fiz para o site, gostaram, mas não conseguiram ler o livro. Escrevi para conversar com eles e foi só uma conversa interna comigo mesmo. Não supera nada, nem fiquei procurando as causas. Retirei a ideia de uma causalidade destrutiva que leva ao suicídio. Minha filha era digna, até o fim fez tudo direito e plenamente. 

Luto tem bula? 
Não, mas modos de usar o luto e não ser usado por ele. Não se vitimizar, olhar de frente e não escamotear a manifestação da dor. Enfrentar o luto é aprender a assimilar a tristeza. Escrever, falar, chorar no banheiro. Um ano de choro, depois passa. Não quer dizer que não dói mais, mas é uma dor transmutada. Luto é a capacidade de manifestar a dor publicamente. Não tira a tristeza, mas prestigia a memória. 

Como a filosofia e a literatura te ajudaram? 
Embarquei na literatura e na filosofia para não ficar parado na tristeza da sepultura. Li coisas interessantes, mas também alguns autores norte-americanos que me irritaram, ou por serem livros de superação ou por terem exposto demais o filho ou a filha. E tive uma grata surpresa ao ler isto de uma autora francesa: quando as pessoas se matam, não terminam a própria obra e deixam para nós a possibilidade de continuá-la. Minha filha era bonita, charmosa, dançava bem, tinha filhos lindos, muitos amigos, bons trabalhos, e não fez tudo o que tinha para fazer. Eu tinha que continuar alguma coisa, porque ela esperava isso de mim. 

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, editora da Quatro Cinco Um, é autora de Tantra e a arte de cortar cebolas (Editora 34).

Matéria publicada na edição impressa #105 em maio de 2026. Com o título “Fernando José de Almeida”

Feira do Livro 30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.

A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.

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