Ministério da Cultura apresenta
O neurobiólogo italiano Stefano Mancuso (Editori Laterza/Divulgação)

A FEIRA DO LIVRO 2026, Meio ambiente,

Inteligência vegetal

Stefano Mancuso mostra como as árvores podem ajudar a remediar nossos erros e nos preparar para um futuro incerto

01maio2026 • Atualizado em: 29abr2026 | Edição #105

“Um de meus critérios para julgar o quanto gosto de uma cidade tem a ver com o número de livrarias, parques e árvores que encontro”, diz o neurobiólogo e botânico italiano Stefano Mancuso, uma das atrações da quinta edição d’A Feira do Livro, em Fitópolis, recém-lançado pela Ubu. 

Esta revista é produzida em São Paulo, uma cidade altamente desigual, inclusive na distribuição das três coisas citadas pelo autor. Há, ainda, uma correlação entre elas: os bairros com muitas árvores costumam ser estritamente residenciais, praticamente sem estabelecimentos comerciais. Nos de baixa renda há poucas árvores e também poucas livrarias. E há aquelas partes da cidade boas de passear, à sombra e enfeitadas pelo colorido das flores, onde há grandes chances de topar com uma livraria de rua.

Não se trata só de estética, nem de elitismo. Livrarias e parques fazem bem a qualquer pessoa, mas vamos nos ater às habitantes vegetais. São elas a razão de ser do instigante ensaio do botânico, conhecido por trazer as plantas a um protagonismo incomum, inclusive com atributos como inteligência e comportamento, como mostram seus três outros títulos já publicados no Brasil.

O ponto de partida deste é: dependemos das plantas para tudo, mas elas são praticamente excluídas das cidades, onde se concentra pouco mais da metade da população humana.

Evolução

Em biologia, para entender qualquer fenômeno, é fundamental levar em conta a evolução. Mancuso traça, assim, o que acontece com plantas, animais e seres humanos nos ambientes urbanos, ressaltando que as pessoas não são isentas dos processos evolutivos. O ambiente urbano é, afinal, muito diferente daqueles em que os seres vivos se tornaram o que hoje somos, e isso faz diferença. 

Um exemplo são plantas cujas sementes se espalham voando pelos ares. Em áreas nas quais o vento falta, ao longo das gerações vão surgindo estratégias distintas de semeadura. Como tudo o que envolve seleção natural requer gerações para que uma espécie possa adaptar-se, a velocidade das mudanças urbanas, a exemplo de prédios que parecem brotar da noite para o dia (trazendo sombras que se abatem sobre o entorno, impermeabilização do solo e mudanças drásticas na circulação do ar), pode inviabilizar a existência. 

Nessas selvas de pedra, os animais também vão mudando. Mancuso vive na Itália e talvez não saiba que em São Paulo os sabiás-laranjeira tentam se comunicar, na época reprodutiva, cantando às duas da madrugada. Mas ele conta sobre algumas espécies que, entre outras formas de adaptação, passam a depender de restos de alimento não necessariamente adequados à sua saúde, deixados por seres humanos. Outro exemplo que não está no livro: bugios, que são macacos por natureza vegetarianos, já foram vistos esperando restos de uma churrascaria no Rio Grande do Sul.

Para Mancuso, urbanistas precisam levar em conta a adaptação das espécies no planejamento das cidades

Para o autor, os urbanistas precisam levar tudo isso em conta no planejamento das cidades. Ele ressalta que os processos também afetam os habitantes humanos, que têm a saúde e a capacidade de sobrevivência afetadas pelo aumento de transmissão de doenças, de poluição do ar, da água e do solo e até das mudanças nas relações sociais, entre outras vicissitudes da vida nesse ambiente. 

É uma pequena fração do planeta na qual vivem cerca de 4 bilhões de pessoas hoje, número que deve aumentar a cerca de 7 bilhões até 2070. São mudanças drásticas em um período curto, principalmente pensando que nossos antepassados viveram como nômades por cerca de 290 mil anos, passando a assentamentos estáveis mais ou menos 12 mil anos atrás em consequência da revolução agrícola. De lá para cá, adquirimos a capacidade de digerir amido e leite, aproveitando recursos antes escassos. Agora, com o excesso de alimento a que temos acesso — com muito açúcar — e a falta de atividade física, vemos os corpos mudarem rapidamente de forma.

Nas necessidades nutricionais humanas, Mancuso volta às plantas: elas são as máquinas geradoras de alimento, movidas a energia solar. Podem encher nossos pratos com uma diversidade espantosa de sabores e de nutrientes. Porém, 77% da área usada para a produção de alimentos está dedicada à pecuária, que fornece apenas 18% das calorias destinadas à humanidade. Faz sentido?

Clima

Fazendo as contas, fica claro que o planeta de que dispomos não comporta esse estilo de vida e algo precisa mudar de forma radical. Para isso, Mancuso preconiza inovação tecnológica e social, reduzindo o consumo e o crescimento econômico. As cidades usam uma porção considerável dos recursos do mundo, emitem boa parte do carbono, são em grande medida responsáveis pelos estragos que dão origem às mudanças climáticas que já penalizam o planeta inteiro. 

No que me diz respeito, penso que a única maneira séria de nos prepararmos para um futuro tão diferente e instável é tornar nossas cidades mais verdes, mais permeáveis e o mais diversificadas possível. Sobretudo mais verdes.

Como pesquisador, Mancuso fundou a área da neurobiologia vegetal e dirige um grupo internacional, na Universidade de Florença, dedicado a projetos de pesquisa que tiram as plantas do papel costumeiro de coadjuvantes. De acordo com o site do laboratório, as plantas “computam com precisão as suas circunstâncias, usam análises sofisticadas de custo e benefício e tomam atitudes definidas para mitigar e controlar insultos ambientais”. 

O autor, que já ganhou alguns prêmios como divulgador de ciência graças a seus livros, é convincente ao indicar que podemos contar com esses super-heróis para remediar os estragos que causamos. O leitor sai das pouco mais de duzentas páginas com a sensação de que entendeu a parte científica sem dificuldade e que tem muito a pensar sobre a vida cotidiana. 

Na próxima vez em que estiver andando por superfícies escuras e impermeáveis, com vegetação escassa e sol batendo em cheio nos ombros, pense bem se esse é o melhor ambiente para se viver. Para Mancuso, é preciso uma mudança radical apoiada em conhecimento ecológico e evolutivo: 

As áreas especializadas são constitutivamente fracas. […] Onde quer que se reduza a biodiversidade (mesmo em diferentes áreas de uma cidade), o risco de o ambiente se tornar instável é muito maior.

Vale para os serviços que a cidade oferece, como concentrar todas as livrarias em um lugar e todos os hospitais no outro, obrigando os habitantes a atravessarem grandes distâncias o tempo todo, e vale também para os seres vivos que compõem esse ecossistema. Urbanistas, não deixem de se aliar a ecólogos e ecologistas!

Ruas e praças arborizadas podem reduzir o consumo de energia pelos aparelhos de ar condicionado

A resposta de Mancuso, claro, são as plantas. Muitas plantas, principalmente árvores — e rápido. Faça o teste, em sua caminhada, de passar um tempo embaixo de uma árvore. A sombra que projeta e a evapotranspiração, por meio da qual folhas recolhem umidade da superfície e lançam para cima, promovem uma queda na temperatura. Com isso, ruas e praças densamente arborizadas podem reduzir o consumo de energia por aparelhos de ar condicionado. As árvores ainda diminuem a poluição do ar e contribuem para a gestão da água, recolhendo parte da enxurrada que corre pelo asfalto em dias de tempestade.

Mas onde encaixar as florestas, se a prioridade é sempre construir e pavimentar, se pessoas ficam incomodadas quando folhas e frutas sujam a calçada? Nossas cidades se desenvolveram empurrando as pessoas para as margens e privilegiando o carro. 

O livro traz também alguns exemplos brasileiros de reação: em Curitiba, a rua das Flores, ação do prefeito Jaime Lerner nos anos 1970; e, em Porto Alegre, a rua Gonçalo de Carvalho. Cheias de árvores, essas ruas atraem as pessoas pela beleza, pelo conforto. Na Europa, Paris vem radicalizando e entregando às pessoas o espaço que era dos carros. 

É lugar-comum o saudosismo sobre aquele tempo em que as crianças brincavam na rua. Agora não seria mais possível devido a tantos perigos, a começar pelos carros que passam em alta velocidade. Precisa ser assim? Quem fez e faz essas escolhas? Em qual cidade queremos viver, com que mundo poderemos contar se os rumos se mantiverem no sentido em que vão agora? Vale pensar nisso quando entrar no carro.

Quem escreveu esse texto

Maria Guimarães

Bióloga, escreveu Guia dos jardins de Roberto Burle Marx no Instituto Moreira Salles (IMS).

Matéria publicada na edição impressa #105 em maio de 2026. Com o título “Inteligência vegetal”

Feira do Livro 30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.

A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.

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