A FEIRA DO LIVRO 2026, Livros e Livres,
O poeta anfíbio
Ricardo Domeneck transita com habilidade entre verso e prosa e exibe, em Memorando: Maximin, seu ‘açougue amoroso’ de paixão carnal
01maio2026 • Atualizado em: 28maio2026 | Edição #105No conhecido ensaio “A poesia ‘concreta’ e o momento poético brasileiro”, o poeta Mário Faustino reclamou que Carlos Drummond de Andrade só agia “poeticamente através dos poemas” e não discutia seriamente a poesia. Faustino o fazia — e dele Domeneck está próximo, no sentido de que é um poeta gay que intervém criticamente na literatura nacional e está atento à poesia estrangeira. Figura necessária da poesia brasileira, nos seus outros papéis de ensaísta, performer, editor, artista audiovisual e autor de contos, a poesia continua a ser o assunto principal.
Outra aproximação está no questionamento do cânone. Domeneck o faz tanto participando do resgate de nomes como Maria Lúcia Alvim e Hugo de Carvalho Ramos quanto valorizando a poesia homoerótica masculina. No ano passado, publicou a antologia Homem com homem: poesia homoerótica brasileira no século XXI (Ercolano), com poemas de 21 poetas nascidos entre 1969 e 2000.
Felizmente, ao contrário de Faustino, que foi vítima de um acidente de avião aos 32 anos, Domeneck caminha para o cinquentenário em 2027 com uma obra que continua a desenvolver-se. Quando ele surgiu no debate da poesia brasileira, na primeira década do terceiro milênio, quis pôr o dedo na ferida com ensaios longos que tentavam pensar a literatura em termos éticos e estéticos, indissociáveis em sua visão. Nessa época ele já tinha, ademais, a própria poesia para mostrar.
O primeiro livro, Carta aos anfíbios (Bem-te-vi, 2005), dirigia-se não apenas aos leitores mas a si mesmo. Domeneck era o anfíbio que vivia em dois mundos: a poesia de temática pública, de “inaugurando um país novo,/ onde a ética/ dita que os mortos/ mantenham-se expostos/ a um céu/ que não lhes pode/ repudiar o cheiro” (“Tecido”), e a poesia lírica de “às portas de um deserto/ a boca úmida/ de um homem” (“(sem título)”).
Seu caráter “anfíbio” manifestava-se também na presença de uma poética de natureza mais experimental e de outra com dicção classicizante.
Nessa época, o paulista de Bebedouro já tinha trocado o Brasil pela Alemanha. Nos anos seguintes, seria traduzido para várias outras línguas; recentemente, Chris Daniels traduziu para o inglês esse primeiro livro.
Nos papéis de ensaísta, performer, editor e autor de contos, a poesia continua a ser o assunto principal
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O segundo, A cadela sem Logos (7Letras, 2007) trazia algo do experimentalismo, sem que predominasse no conjunto (“a tradição ajuda-me/ a respirar hoje”, escreveu em “Primeira faixa — 01:12”), ao contrário do que ocorreu em Sons: arranjos: garganta (Cosac Naify, 2009) com suas montagens de textos alheios (como “O áporo” de Drummond duplamente invertido) e o translinguismo.
Com Cigarros na cama (modo de usar & co, 2011), Ciclo do amante substituível (7Letras, 2012) e Medir com as próprias mãos a febre (7Letras, 2015), Domeneck assumiu plenamente sua vocação de poeta lírico. Isso não o impediu de criar, no último, o monólogo dramático na voz de Ana de Assis, cujo nome de solteira dá título ao poema “Ana Emília Solon Ribeiro, dita da Cunha, dita de Assis”. Nem o único poema que aparece como ato de memória no relatório da Comissão Nacional da Verdade, “Ísis Dias de Oliveira (1941-?)”, sobre Izis (seu nome escreve-se com “z”), militante da Ação Libertadora Nacional (ALN) que desapareceu em 1972 após ser detida pela ditadura militar.
Trata-se de exemplo de poesia de temática pública. E reaparece nas Cartas que lançou em 2018 pela Garupa e, no ano seguinte, no volume Doze cartas, que conta a experiência do migrante brasileiro na Europa, seja a do próprio poeta, seja a de Oswald de Andrade. O morse desse corpo (7Letras, 2020) mostra o corpo desse migrante submetido a intervenções médicas no estrangeiro, mas também, como apontou Sérgio Maciel, a operações sintáticas que o quebram.
Como Tarso de Melo e Fabio Weintraub, Domeneck lançou relativamente jovem uma antologia organizada pelo próprio autor — e fizeram bem, pois tinham o que mostrar. Mesmo o silêncio gera mal-entendidos (Garupa, 2021) reafirma sua poesia lírica consciente do contexto social, especialmente nos temas de gênero, questionando a ordem patriarcal.
Família
O sociólogo Didier Eribon e o ficcionista Édouard Louis publicaram livros em que voltavam ao passado com um olhar afetuoso para suas famílias proletárias, homofóbicas e iletradas. Domeneck, desde o primeiro livro, sempre falou da família: ele não estava a seguir moda quando lançou Cabeça de galinha no chão de cimento (Editora 34, 2023), centrado nesse passado e com presença forte dos personagens dos avós.
Em 2018, além das Cartas, lançou Odes a Maximin pela Garupa. Prefiro o primeiro título, pois o segundo tem um ar de pastiche de poéticas antigas, não suficientemente contrabalançado pela dicção pessoal do poeta. Fiquei agradavelmente surpreso, então, com Memorando: Maximin, lançado neste ano pela Ercolano, em que ele ampliou e reescreveu aquelas Odes. No livro, criou ainda um pórtico em prosa que introduz os poemas e conta a história de Maximin, cuja “discursividade estranhante” Matheus Guménin Barreto destacou no posfácio.
Em 2016, o Manual para melodrama (7Letras, em 2019, unido a Cigarros na cama) tratou da separação amorosa em prosa. Odes a Maximin é diferente: poesia lírica de fascinação pelo amado com comentários em prosa, algo similar a Vida nova de Dante. Faço a comparação apenas em razão do balanço entre poesia e prosa. Vida nova ocupa um lugar privilegiado como obra de “transição histórica” para a lírica moderna, como explicou Eduardo Sterzi. Além disso, a deserotização de Beatriz no livro de Dante é bem oposta ao que é feito com Maximin: temos no livro de Domeneck um “açougue amoroso” (como diz o poema “Texto em que o poeta se declara de Maximin a pior metade”) que maximiza a paixão carnal.
Como exemplo da reescrita dos poemas, cito o “Texto em que o poeta quer deitar Maximin num diwan e cantá-lo feito um místico árabe, quando então se lembra da ascendência do divino rapaz”, de título bem barroco. No livro de 2018, era mais longo e terminava desta forma: “essa ninfeta com sangue/ de valquíria, os genes/ de nibelungos, o gênio/ de Wagner”. No livro novo, o poema ficou mais curto e concentrado. A passagem sobre as ninfetas virou um poema próprio, “Alerta contra indiscrições”, que termina: “essas ninfetas/ com sangue de valquíria/ e carne de nibelungo”. O didatismo da referência a Wagner foi retirado.
O último poema alude ao “Décimo primeiro soneto luxurioso” de Aretino que, na tradução de José Paulo Paes, diz: “Queria transformar-me toda em cona,/ Mas queria que fosses só caralho”. Domeneck, em “Maximin nosso que estás na terra”, um raro soneto do autor (apesar da métrica heterodoxa), começa desta forma: “Quantas vezes pedi a orixás e santos,/ Maximin, fazer de mim todo ânus”.
Os versos eróticos, porém, coexistem com momentos de delicadeza quase shakespeariana: “Diante da vitrine, Maximin, paraste/ porque tua imagem deslumbrou-te/ como a mim a noite toda alumbrara” (“Texto em que o poeta faz de Maximin um segundo e melhor Narciso”). Também na poesia amorosa, o anfíbio Domeneck pertence a dois mundos — e os reúne.
Matéria publicada na edição impressa #105 em maio de 2026. Com o título “O poeta anfíbio”
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30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita
A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.
A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.
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