A FEIRA DO LIVRO 2026, Poesia,
Memórias e miragens
Em Aramão, fotos de família se misturam a notícias de jornal e relatos de sonhos e pesadelos numa busca vertiginosa em que o fim é o começo
01maio2026 • Atualizado em: 12maio2026 | Edição #105No poema “Exatidão”, que encerra seu livro anterior, Raio (Companhia das Letras, 2023), Eucanaã Ferraz antecipa — agora podemos ver — o mergulho que dá em sua nova obra, Aramão. Naquele poema, estamos em maio e a mãe vem “de dentro de uma canção/ triste que alegra tudo por onde passa”. Nos novos versos, é justamente para um maio em que tudo começa, do ventre da mãe para o mundo, que seremos conduzidos. É a partir do instante em que “Tudo era Um: Terra-Céu-Caos” que ele se lança.
Aramão está dividido em três partes: “A idade da pedra”, “História da arte” e “A suíte do faquir”. Numa abordagem inicial, as partes parecem mais independentes do que se revelam no final. No primeiro poema, o poeta recostura a história do universo com os fios da própria biografia; na segunda parte, trata de um episódio tragicômico do mundo das artes (e da vidência) no Brasil; na terceira, por fim, segue os passos de um faquir pouco virtuoso. São três histórias, mas, no fundo, os personagens da segunda e da terceira são peças desgarradas da cosmogonia que abre o conjunto, que a integram, talvez, por representar seus descaminhos.
Para perceber a coesão do conjunto, é importante reparar na forma como o livro se articula em cada detalhe. É de se notar, por exemplo, que a “leitura” começa por uma galeria de fotos de família. Já na capa, na verdade, somos apresentados ao pai e à mãe; depois passamos pela avó, pela tia, pela mãe novamente, pelos tios. E, assim, entramos em Aramão já carregando os retratos de família do poeta, que vão nos acompanhar por todas as instâncias e torções com que sua busca vertiginosa se depara. Mas qual busca?
O poeta empreende “o baile formidável do regresso” para desvelar o começo de tudo: antes da mãe, a avó dentro do “grande Ovo negro”, em que tudo se inaugura. A avó tem poderes demiúrgicos (“formou os céus e a porção dura/ turva fez a terra/ nossa avó ficou no meio/ de pé/ tocava o céu com os cabelos”). E a mãe, que, por sua vez, nasceu das pulgas e piolhos da avó, molda outro mundo: “Devia haver perigos terríveis no caminho para a escola/ pois minha mãe pedia que eu fosse com Deus”.
Aos olhos do poeta, a família toda está empenhada nessa invenção: “Perguntei a meu avô ele me disse/ o mundo começou em Pernambuco”. Mas essa genealogia é sobretudo poética, no sentido preciso de criação, ainda que o poeta saiba que, no fundo, o que lhe cabe é lidar com o mundo que não criou: “Não fui eu quem fez o mundo/ e sei que isso conta a meu favor”. Criar o mundo, criar seu mundo, criar no mundo: as tarefas se fundem, porque “o começo do mundo me chama”. Assim, deslocar-se na memória em direção à própria origem é a maneira possível de refazer o caminho da Origem. Os marcos da própria criação são também os da Criação — e vice-versa.
No redemoinho de sensações, alguma coisa parece se organizar dentro do nosso próprio arquivo
No trânsito do poema, os personagens bastante concretos — como os parentes que nos são apresentados também nas fotografias — logo se embaralham com majestades, homens e alguns “seres muito antigos que dão notícias do início”, como “gato” e “tesoura”, que entram na história para “bebe[r] a última gota da lógica”. Esse jogo entre concreção e abstração, entre imagens muito claras (“Meu pai traz nas mãos — lembro bem está feliz —/ a Terra vista da Lua na revista Fatos e Fotos”) e outras que esvoaçam (“andei em direção à praia e cheguei vivo guiado/ por sete janaínas recordo é nítido juremas girando/ cabelos arco-íris caranguejos que meu pai trazia do escuro”), é como o poema enlaça uma história feita mais de mistérios que de certezas.
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É na esteira dessa vertigem que o segundo poema refaz uma trama conhecida (bandeirianamente, o poema é tirado de uma notícia de jornal). A notícia é: em 2022, a herdeira de um falecido marchand carioca se juntou à namorada e a alguns familiares desta para dar um golpe na própria mãe. Tudo começou com um “trabalho de salvação espiritual”, mas logo descambou para crimes de roubo, extorsão, cárcere privado, entre outros, que resultaram num prejuízo de R$ 725 milhões para a idosa — incluindo o furto de obras de Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti, que em pouco tempo foram vendidas para galerias e até para um museu na Argentina.
Sem dúvida, os elementos espantosos desse enredo são um bom resumo da confusão em que desembocou a longa história que nos trouxe até aqui, este terrível ponto em que a “história da arte” é performada por uma “gangue de videntes” que, prometendo trazer o amor de volta, afunda tudo num “lamaçal de lágrimas”.
Por fim, na terceira parte do livro, o poeta lança o olhar em direção a “entes misteriosos que […] zombam de todas as leis naturais”. O faquir não sente dor e dorme um sono tão profundo como a morte; “não come nunca” e “vag[a] sozinho por catorze mundos/ sentado em lótus sobre um grande touro”, mas não demora para que se revele, sob as barbas desse “homem santo”, outro caso de polícia.
Indefinição
O que as imagens constituem no conjunto? Difícil definir. O jogo é quase sempre o da indefinição, da fuga, inclusive do ponto de vista formal, porque o poeta experimenta diferentes cadências ao sabor da história. Por tudo isso a sensação do leitor, ao passar as páginas, é de acessar um arquivo em que, sem ordem, fotos de família se misturam com recortes de jornal, relatos de sonhos e pesadelos, memórias, alucinações, miragens. Por outro lado, no redemoinho de sensações que elas causam, alguma coisa parece se organizar dentro do nosso próprio arquivo.
Após cruzar esses mundos cheios de espanto, quando quase não há mais palavras, encontramos uma linda foto sobre a legenda “eu e a mãe”: a criança, ao lado da mãe, é o poeta, ainda que não seja. E aquela imagem é outra forma de indagação: ali está a origem, ali algo termina também. Para um livro que começa nos colocando diante da avó, até mesmo dentro dela, nada mais coerente do que nos entregar, na última página, a figura da mãe segurando uma placa que diz “AO MEU AMOR”. A última palavra é a primeira: fim-começo. Em Aramão, parece ser este o destino de toda investigação: não há muita diferença entre saber como as coisas começam e saber como elas terminam.
Matéria publicada na edição impressa #105 em maio de 2026. Com o título “Memórias e miragens”
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30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita
A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.
A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.